Leitores são "necessários e essenciais para o escritor" - Rosa Montero, em entrevista (c/vídeo)

Leitores são "necessários e essenciais para o escritor" - Rosa Montero, em entrevista (c/vídeo)

** Ana Nunes Cordeiro, da Agência Lusa **

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Lisboa, 12 Nov (Lusa) - A escritora espanhola Rosa Montero considera que "a maior recompensa é ter leitores" e que estes são "necessários e essenciais para o escritor".

Segundo a escritora, "a História da Literatura está cheia de escritores que perderam os leitores, que fracassaram por qualquer razão. Se calhar, escritores muito bons, mas que na sua época não foram lidos e que enlouqueceram e passaram o resto da vida num hospital psiquiátrico ou se suicidaram", disse em entrevista à Lusa.

"E os leitores, muitas vezes, não se dão conta de até que ponto são absolutamente necessários e essenciais para o escritor, para que se produza nele essa estruturação da personalidade, essa salvação", afirmou.

Em Lisboa para apresentar o seu novo romance, "Instruções para Salvar o Mundo", publicado pela Porto Editora, a romancista falou da sua relação com a escrita, cinco anos depois de ter lançado "A Louca da Casa".

Para Rosa Montero, não se deve viver da escrita, razão pela qual continua a ser jornalista do diário El País, onde trabalha desde 1979.

"É uma coisa que sempre digo à gente nova (nos cursos de escrita criativa que lecciona): não devem dedicar-se só a escrever, porque esse é o maior erro que se pode cometer", afirmou.

"A ficção, a narração, deveria ser um espaço de liberdade e já bastantes pressões tem do ruído do mercado, das agências de vendas... Se em cima se puser a pressão de ter de ganhar o dinheiro para comer, para viver, para pagar a hipoteca da casa, evidentemente, não se será livre", sustentou.

Nessa posição, pressionada pela necessidade de dinheiro, a escritora afirma que o grau de exigência rapidamente cairia, e ver-se-ia obrigada a apresentar esboços inacabados, "uma porcaria de trabalho", em vez de versões acabadas dos livros e até a escrever livros "mais comerciais, quem sabe".

"E não se pode pensar no gosto do público. Temos de escrever o livro que necessitamos de escrever", defendeu.

"Essa pressão económica é muito má, já muita gente se perdeu. Eu vi perderem-se muitos escritores, por de repente começarem a publicar, a publicar, todos os anos, correndo, e cada vez pior, coisas cada vez mais insensatas e mais desnecessárias para esse escritor", observou.

"Há sempre que viver de outra coisa, pelo que o jornalismo é a minha profissão", frisou, acrescentando em seguida: "Escrever, escrever ficção é a minha vida".

"Os escritores estão sempre a imaginar histórias, situações - como as crianças. Nós romancistas, somos pessoas que não acabaram de amadurecer e que ficaram nessa época infantil em que se tem a cabeça cheia de fantasias", declarou.

A diferença - apontou - é que "a maioria das pessoas logo reprime esse lado imaginário e os romancistas não, continuam a viver com milhentas imaginações".

"Noventa por cento delas não chegam nunca ao papel, nem aos romances, nem aos contos... Até que um dia, uma dessas coisas que imaginamos e que aparecem de repente na nossa cabeça, autonomamente, como aparecem os sonhos durante a noite, nos emociona, não sabemos bem porquê, mas emociona-nos tanto, que dizemos `isto tenho de contar` e essa é a frase que dá início a um romance", sublinhou.

Escritora reconhecida e premiada, Rosa Montero defende que são as histórias que escolhem os escritores, quando surgem e se lhes impõem, e que estes são como crianças que não acabaram de crescer, com as cabeças cheias de fantasias.

"Não escolhemos as histórias que contamos, as histórias é que nos escolhem a nós. Os romances são os sonhos da Humanidade, e além disso são como sonhos que o escritor sonha de olhos abertos, durante o dia", concluiu.


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