Livrarias da Baixa portuense "ameaçadas pela desertificação"

Livrarias da Baixa portuense "ameaçadas pela desertificação"

O historiador Hélder Pacheco afirmou hoje, no Porto, que a grande ameaça às livrarias do centro do Porto não são as grandes superfícies livreiras tipo FNAC, mas sim a desertificação da Baixa.

© 2007 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A. /

O historiador, que é autor de inúmeros livros sobre o Porto e que falava durante uma visita às livrarias da baixa integrada no programa de actividades paralelas da 77ª Feira do Livro do Porto, reconheceu que o aparecimento das grandes superfícies livreiras, desde os hipermercados até às FNAC, foi causa, num primeiro momento, de alguma quebra para as livrarias tradicionais.

"De acordo com aquilo que me dizem os livreiros, houve uma quebra, mas apenas no primeiro momento de implantação das grandes superfícies, tendo o negócio pouco depois voltado aos níveis anteriores", referiu.

O historiador considerou que as grandes superfícies não se dirigem ao público tradicional livreiro, mas sim a um novo público, pelo que não ameaçam seriamente as livrarias tradicionais.

"Aliás a FNAC é hoje já mais um espaço de venda de electrodomésticos e do que de livros ou discos", afirmou.

Para Hélder Pacheco, "o problema maior é que as pessoas já não vivem nem trabalham na Baixa mas sim na periferia. Raramente vêm à Baixa e, não havendo aqui pessoas, não há negócio".

Hélder Pacheco percorreu hoje, com um grupo de uma dúzia de pessoas, parte da Baixa da cidade num dos dois percursos definidos para conhecer as livrarias portuenses desde o último quartel do século XIX até à actualidade.

O outro percurso, que completa o périplo pelas livrarias da baixa do Porto, está a cargo de Júlio Couto, outro especialista na matéria.

O percurso de hoje, de mais de duas horas, circunscreveu-se a uma área bastante limitada, compreendida pelas ruas de Ceuta e José Falcão, Largo de Mompilher, ruas Ricardo Jorge e do Almada, Praça Filipa de Lencastre, ruas de Aviz, Cândido dos Reis e Fábrica, Praça da Liberdade, Largo dos Lóios e Rua dos Clérigos, terminando na Praça dos Leões.

Nos últimos 125 anos existiram nestes poucos quarteirões muitas dezenas de livrarias, muitas delas também editoras e sede de tertúlias, sendo a concentração maior nos dois primeiros quarteirões da Rua do Almada, entre os Clérigos e a Praça Filipa de Lencastre, onde havia, dos dois lados, da rua praticamente um contínuo de livrarias e alfarrabistas.

Hoje, apenas sobrevive ali uma única livraria, a Educação Nacional, também editora, estando os antigos espaços livreiros ocupados sobretudo por lojas de ferragens, nomeadamente o espaço onde em tempos foi fundada a hoje poderosa editora Civilização.

Já o Largo dos Lóios, onde já existiram sete livrarias, algumas também editoras, sobretudo especializadas em obras religiosas, das quais sobrevive hoje a Livraria Fátima.

Na Rua de Ceuta situam-se duas das melhores livrarias do Porto, a Leitura (antiga Divulgação) e a Almedina, assim como a Livros do Brasil, enquanto na José Falcão está a indispensável Livraria Britânica.

Na Rua dos Clérigos, sobrevive a Livraria Moreira, fundada em 1898, hoje em decadência mas ainda nas mãos de descendentes do fundador, um especialista em livros franceses que nos primeiros anos do século XX gostava de proclamava, orgulhosamente, já ter ido 32 vezes a Paris e apenas uma a Lisboa.

Um pouco mais acima, a prestigiada Tavares Martins, especializada em livros de filosofia e sede de uma tertúlia literária conservadora, fechou há poucos anos e é hoje uma loja de óptica.

Ainda mais acima, do outro lado da rua, há uma excepção, a Livraria Caixotim, também editora, instalada num edifício "art déco" cuidadosamente restaurado, que é uma novidade recente, inaugurada em 2002.

Já perto da Praça dos Leões está a Fernando Machado, fundada em 1927, com a sua dupla faceta de alfarrabista e especialista em livros científicos.

Fechada em 2003 depois da morte do proprietário, a Fernando Machado reabriu, cuidadosamente restaurada e mantendo os livros antigos no rés-do-chão e os científicos no primeiro andar.

Mesmo junto aos Leões, está Livraria Lello, de 1906, a jóia suprema das livrarias do Porto e de Portugal, por muitos considerada a mais bela livraria do mundo, com "uma fachada exuberante em estilo gótico e um interior em Arte Nova que não deixa de surpreender surpreender, a cada visita, até os seus mais habituais clientes".

Na Rua da Fábrica mantém-se a livraria da poderosa Porto Editora, que emprega mais de 300 pessoas, enquanto a Livraria Asa, que deu origem à editora com o mesmo nome, foi adquirida por um dos empregados, José Alves, que lhe deu o seu nome.

Nesta rua permanece, aparentemente de boa saúde, a Sousa & Almeida, especializada em livros espanhóis e editora de obras de etnografia, muito frequentada por José Régio e Pedro Homem de Mello, que também foi sede da chamada tertúlia do Café Estrela (que fica em frente), onde pontificavam, entre outros, Eugénio de Andrade e Óscar Lopes.

Ao lado, já só existe o espaço ao abandono da grande livraria Aviz, recentemente encerrada, enquanto, um pouco mais acima, a Oiro do Dia também já fechou.

Na pequena Rua de Aviz permanece, imperturbável, a Moreira da Costa, livraria antiquária de grande prestígio que Hélder Pacheco considera que "um monumento vivo" da cidade, mas ao seu lado, a loja onde esteve a livraria da editora Inova e mais recentemente a Livraria Avante, está fechada.

Na Cândido dos Reis outras duas livrarias indispensáveis, a Biblioteca Musical, dedicada a partituras e livros sobre música, e a Garfos e Letras, fundada em 2002 e especializada em livros de gastronomia.

Mauret, Casa do Livro, Domingos Barreira, Magalhães & Moniz, Lóios, Católica Portuense, Cruz Catanho e Popular Portuense são apenas algumas das muitas dezenas de nomes de livrarias já desaparecidas que povoaram durante muitas décadas esta meia dúzia de quarteirões da Baixa portuense.

"Umas eram grandes, outras pequenas em tamanho, umas luxuosas e outras modestas, mas a dimensão física que ocupam é indiferente, porque a grandeza de uma livraria mede-se é pelas perspectivas que abre aos seus clientes. Conheci aqui livrarias mínimas que foram, e algumas continuam a ser, gigantes", disse Hélder Pacheco.


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