Livro revela dados inéditos sobre resistentes portugueses ao nazismo em França
Lisboa, 09 jul 2019 (Lusa) -- O livro "A Sombra dos Heróis", do jornalista José Manuel Barata-Feyo, revela a participação dos portugueses que combateram o nazismo em França, com base em informações que constam de arquivos oficiais de Paris.
O livro publica dados inéditos e expõe pela primeira vez 253 casos confirmados de homens e mulheres oriundos de Portugal, que combateram o nazismo em território francês durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
Até ao momento, a participação destes resistentes portugueses nunca tinha sido revelada, e o livro mostra a forma como se envolveram no conflito por motivos políticos ou pessoais, mas sempre numa situação de indignação perante o totalitarismo, e em luta pela liberdade.
O caso de Américo de Azevedo Neves, nascido no Porto, em 1986, e casado com Maria da Silva Leite, de Santa Maria da Feira, é apontado no livro como um "notável exemplo de Resistência aos nazis".
Tiveram seis filhos e viviam na cidade de Albert, no norte de França, a uma centena de quilómetros da fronteira belga. Ele era carpinteiro e ela, doméstica.
Américo Neves junta-se à Resistência e comanda um grupo de 40 homens antes de ser preso pela primeira vez pela Gestapo, na sequência de uma denúncia, tendo sido libertado após quatro meses de cárcere.
"Dois meses mais tarde, a 04 de março de 1943, de novo no comando do seu grupo de resistentes, provoca o descarrilamento de um comboio e, dois dias depois, o descarrilamento de outros dois. Durante todo o verão sabota várias vezes as linhas telefónicas, provoca outros descarrilamentos e destrói o transformador que alimenta Albert de energia", relata o livro.
Acaba por ser preso novamente e torturado, mas não forneceu qualquer informação ao inimigo.
"Na sua ficha de resistente lê-se que `foi vítima de torturas abomináveis, orelha esquerda arrancada, unhas de uma mão e de um pé arrancadas, corpo cheio de feridas e de queimaduras`", acrescenta o relatório sobre o português que morre quando a prisão de Amiens onde está encerrado é bombardeada a 18 de fevereiro de 1944 pelos Aliados, que pretendiam libertar os presos políticos.
"Na última página da sua ficha de resistente aparece a menção `Mort pour la France`", refere o livro, acrescentando que a mulher e o filho mais velho foram deportados para o campo de concentração de Buchenwald, tendo o rapaz desaparecido.
"Depois da prisão dos pais e do irmão mais velho, os três filhos mais novos do casal ficaram sozinhos em casa e foram acolhidos pela mulher de um outro deportado", escreve Barata-Feyo sobre a família Neves.
São muito distintos os tipos de participação na resistência, havendo mesmo 17 portugueses que foram agentes secretos da França Livre, cuja informação disponível é muito limitada.
O autor detalha, sempre que possível os motivos que levaram os homens e as mulheres a participarem nos movimentos de Resistência, além dos casos dos voluntários da Legião Estrangeira Francesa, integrados em forças aliadas regulares, de combate, no Norte de África, na Noruega e na campanha contra a Alemanha, após o desembarque da Normandia, em junho de 1944.
Destaca-se também que se tratam de civis que, isoladamente ou em pequenos grupos, geralmente familiares, se envolveram no combate à ocupação, havendo pelo menos um caso que diz respeito a um português vítima dos militares japoneses, porque se encontrava no território ultramarino francês da Indochina (Vietmane).
Segundo Barata-Feyo, "99% dos casos" investigados constam do Arquivo Histórico do Ministério da Defesa francês (Service Historique Défense - Chateau de Vincennes - Paris) e contribuem para a História contemporânea portuguesa e francesa.
"Continua a existir uma grande sensação de pudor em relação a este período em França. É evidente que os franceses não esqueceram esse trauma coletivo relacionado com a ocupação. Nesse sentido, ao encontrarem situações como a dos portugueses, um pequeno grupo mas que proporcionalmente deu o maior contributo para luta do que eles próprios, franceses, tinham dado, é algo que incomoda", disse à Lusa José Manuel Barata-Feyo.
A presente investigação vai ser traduzida em francês.
Desde a publicação do livro em Portugal, o autor tem sido contactado por familiares de outros resistentes que não foram referidos na investigação.
Jornalista, exilado político em Paris durante a ditadura, Barata-Feyo foi responsável, nos anos 1980, pelos programas "Grande Reportagem" - sendo um dos fundadores e tendo dirigido depois a revista semanal -, "Portugal sem Fim" e "Enviado Especial" da RTP. Antes foi correspondente em França da agência noticiosa ANOP e colaborador do jornal Libération.
É autor dos livros "O Grande Embuste" e a Última Missão".
O livro "A Sombra dos Heróis - A História Desconhecida dos Resistentes Portugueses que Lutaram contra o Nazismo" (Clube do Autor, 313 páginas) incluiu fotografias e uma lista dos Resistentes portugueses, com a sua identidade e local de nascimento.