Livros sobreviveram 500 anos e vão estar em exposição em Vila Real
Vinte e três livros raros e com 500 anos vão estar em exposição na Biblioteca de Vila Real, entre sábado e 22 de junho, revelando uma história de sobrevivência ao tempo e até a incêndios.
São livros contemporâneos do reinado de D. Manuel I (1495-1521), o rei que atribuiu o foral a Vila Real há 500 anos e remontam aos primórdios da tipografia.
"Estamos a falar de obras muito no princípio do livro. Gutenberg tinha inventado o processo de impressão poucos anos antes", afirmou hoje à agência Lusa o diretor da Biblioteca Municipal de Vila Real, Vítor Nogueira.
A exposição, que se realiza no âmbito das comemorações dos 500 anos da atribuição do foral a Vila Real, vai revelar 23 publicações, escritas em latim, a maior parte delas de teologia, mas também falam de filosofia e até de teatro.
Estas obras históricas foram impressas em países como a França ou Itália, onde se desenvolvia a passos largos o processo de impressão.
"São livros raros que vão ser mostrados pela primeira vez em conjunto", acrescentou o responsável.
E são também livros que contam uma história de sobrevivência. Pertenciam aos antigos conventos de São Francisco e de São Domingos, cujas ordens religiosas masculinas foram extintas em 1834.
"Houve então necessidade de encontrar uma solução para as bibliotecas ricas dos conventos e foi, nessa altura, que o Estado decidiu avançar com um primeiro conjunto de bibliotecas públicas, entre as quais se encontrava a de Vila Real", contou Vítor Nogueira.
O diretor salientou que estas obras estão precisamente "entre as coisas mais antigas que Vila Real tem".
Em 1839, esta biblioteca foi instalada no antigo convento de São Francisco e 10 anos depois as obras foram retiradas poucos dias antes de o edifício ser destruído por um incêndio.
Mais tarde, numa altura que em que a biblioteca estava instalada no que é agora a câmara municipal (1960), um outro incêndio afetou parte do edifício e os livros foram daqui retirados à pressa para serem guardados numa loja do mercado, que estava em fase de construção.
Aqui também sofreram. Alguns estavam mal acondicionados e até apanharam água.
"Mas o certo é que se salvaram. E isto só desde que a biblioteca existe. Passaram ao lado de dois incêndios e vieram até nós", sublinhou.
Agora são os técnicos do Serviço de Conservação e Restauro da Biblioteca Municipal que estão a proceder ao restauro das obras que estão à guarda do fundo antigo desta instituição.
O trabalho é minucioso e minimalista.
"O que se deve fazer é consolidar fisicamente e estruturalmente o livro com recurso a materiais que sejam inertes e que não sejam abrasivos, que respeitem o mais possível o papel, os materiais, a pele, o pergaminho", explicou Vítor Nogueira.
O responsável acrescentou que é preciso "conservar, consolidar e respeitar o conceito da reversibilidade".
"Mexemos com muito cuidado. Hidratamos as encadernações, restauramos e consolidamos o miolo dos livros, o papel, intervimos com papel japonês, protegemos com cartolinas e papel inerte", sublinhou.
Com quase 100 mil livros, a biblioteca de Vila Real guarda cerca de 10 mil obras no fundo antigo e possui 40 mil publicações nos documentos reservados. Para restauro estão neste momento cerca de quatro mil livros.
A exposição vai estar patente ao público entre 18 de abril e 22 de junho.