Mais de 100 anos de teatro infantil português analisados em livro
A publicação de teatro para crianças em Portugal é muito reduzida e raramente antecede a encenação, afirma Glória Bastos, cuja tese de doutoramento sobre o teatro infantil chega esta semana às livrarias, editada pela Caminho.
"É ainda muito reduzida a publicação de textos de teatro infantil no nosso país e, na maioria das vezes, essa edição só tem lugar após a representação das peças, como sucede muito com o António Torrado ou o Manuel António Pina", assinalou Glória Bastos à agência Lusa.
A autora de "O Teatro para Crianças em Portugal - História e Crítica", actualmente professora na Universidade Aberta, indicou ainda que, mesmo no que se refere à encenação, "em muitos casos não são escolhidos textos especificamente dramáticos".
"O que acontece com mais frequência é a adaptação de textos de outro cariz e geralmente clássicos, como faz o Teatro Infantil de Lisboa (TIL)", assinalou Glória Bastos, para quem "a escrita de textos de teatro para crianças deve ser mais valorizada e mais estudada".
A este propósito, a ensaísta e docente disse haver duas correntes sobre o teatro para crianças, "uma mais rígida, e que visa sobretudo instruir, e outra que valoriza a liberdade interpretativa por parte do público infantil".
"Trata-se de uma velha questão, que se coloca porque, como são os adultos quem escreve para crianças, transparece sempre a visão que estes têm da educação infantil", declarou a autora, na opinião da qual "é importante deixar a criança fazer a sua leitura pessoal, até porque, quando os caminhos estão muito sinalizados, ela por si encontra desvios".
Glória Bastos sublinhou, noutro passo, a importância de mostrar ao público infantil o teatro que lhe é dirigido.
"O contacto com a cultura - argumentou - é fundamental desde a infância, para que os sentidos da criança sejam despertos para as artes. E deve estabelecer-se também fora das portas da escola. Por exemplo, criando na criança o hábito de ir ao teatro e não apenas de esperar que o teatro vá até ela".
"O Teatro para Crianças em Portugal" - que tem prefácio da crítica teatral e professora da Escola Superior de Teatro e Cinema Eugénia Vasques - organiza-se em redor de três tempos históricos que percorrem a totalidade da produção dramática para crianças, desde o final do século XIX até à actualidade, passando pelo Estado Novo.
Até ao fim da Primeira República, a dramaturgia para crianças centra-se nos núcleos família, escola e pátria, durante o Estado Novo expressa uma visão imobilista e conservadora da sociedade, embora com algumas inovações, e com o 25 de Abril o teatro infantil passa a contar com novas vertentes temáticas e comunicacionais.
Para cada um dos três períodos, Glória Bastos destacou um autor: Rita Chiappe Cadet na Primeira República, António Couto Viana (responsável pelo Teatro da Mocidade e pelo Teatro do Gerifalto) no Estado Novo e António Torrado no pós-25 de Abril.
No percurso histórico e crítico que é traçado na obra são identificadas e analisadas correntes e finalidades da escrita dramática, interacções culturais e literárias, bem como as dominantes temático-estilísticas mais marcantes.
O livro aborda ainda o papel dos valores morais, sociais e estéticos do teatro infantil, evocando a perspectiva ideológica e didáctica deste teatro durante a ditadura e a importância da herança tradicional e popular na dramaturgia para os mais novos após 1974.
"O Teatro para Crianças em Portugal - História e Crítica" termina com um levantamento exaustivo dos livros de teatro para crianças publicados em Portugal nos períodos em estudo, indicando títulos de cerca de 250 escritores.
Glória Bastos, doutorada em Estudos Portugueses e coordenadora de um mestrado na Universidade Aberta, tem privilegiado, na sua actividade como investigadora, os temas do ensino da literatura, da problemática do livro infantil e juvenil e das bibliotecas escolares.
É co-autora de "O Teatro em Lisboa no Tempo da Primeira República" (2004) e autora de "Literatura Infantil e Juvenil" (1999) e de "A Escrita para Crianças em Portugal no Século XIX" (1997), tendo também publicado vários livros para crianças, entre os quais as colecções "Contos Contas" e "à Descoberta com Gil e Inês".
O seu currículo inclui colaborações com a revista Rua Sésamo e com a Câmara de Lisboa, no âmbito do projecto "Sensibilização à Criatividade" (para jardins-de-infância e escolas do primeiro ciclo), além de intervenções em colóquios e seminários.