Mão cheia de cabo-verdianas expõe em Paço de Arcos
Uma mão cheia de mulheres cabo-verdianas reside ntes em Paço de Arcos, Oeiras, decidiu afastar as más horas cosendo memórias afr icanas em panos, colchas e cortinados que, pela primeira vez, vão ser expostos n o sábado, Dia da Mulher Cabo-Verdiana.
A pintora Alice Fernandes, 66 anos, é a mais velha deste grupo de cinco mulheres que, em comum, têm saudades de Cabo Verde, país de onde são oriundas, e vontade de dar ao dedo, entre agulhas, linhas e bordados.
Uma vez por semana, este grupo junta-se na casa de uma das mulheres par a falar da vida, mas também orar e lembrar tempos distantes, cortados por uma em igração que as levou a Portugal.
Dispostas a manter vivas as tradições do seu país, estas Mulheres Unida s de Cabo Verde, nome como gostam de ser tratadas, decidiram pôr mãos à obra e c osturar à moda antiga.
Da vontade surgiram dezenas, centenas e até milhares de "conchinhas", c írculos de pano coloridos, unidos entre si, até fazerem uma colcha ou um cortina do.
A ideia homenageia uma arte de outros, e muito pobres, tempos, quando a pobreza em Cabo Verde obrigava as mulheres a "reciclar" panos e a transformá-lo s em outras aplicações, como roupa, colchas, toalhas ou cortinados.
"A reciclagem já existe há muitos anos em Cabo Verde, onde a pobreza ob rigava a transformar o pouco em muito", contou, bem-disposta, à Agência Lusa, Al ice Fernandes.
Hoje, a matéria-prima continua a escassear, mas estas mulheres contorna m esta falta recorrendo a tecidos que são oferecidos "pela Dona Adélia e o Senho r Soares", proprietários de uma loja de onde vêm alguns dos panos.
Dos coloridos tecidos, estas mulheres fazem autênticas obras-primas, ap esar de insistirem que "não sabem nada".
Mulata, 63 anos, Bia, 46, Maria, 61, e Lurdes, 55, são as aprendizes de feiticeiras que, juntamente com Alice, aprendem umas com as outras.
"Aqui ninguém ensina nada a ninguém, aprendemos todas umas com as outra s", afirma Alice Fernandes, sendo seguida na modéstia pelas colegas da agulha e do dedal.
Entre pontos cruz e pé de flor, estas cabo-verdianas insistem na tradiç ão e mal dão pelas horas passar, largando as linhas apenas para bater palmas ao som de canções que entoam em crioulo.
Quando já eram dezenas as peças bordadas, as mulheres mostraram algumas ao padre da Paróquia de Paço de Arcos, que ficou encantado com o trabalho e con vidou-as a partilhar com os outros esta arte.
O convite foi aceite e a primeira exposição de trabalhos das Mulheres U nidas de Cabo Verde vai realizar-se sábado, Dia da Mulher Cabo Verdiana, precisa mente na paróquia de Paço de Arcos.
A efeméride é uma oportunidade para mostrar os trabalhos, mas também ho menagear a mulher cabo-verdiana, que é "a seiva de Cabo Verde", segundo Alice Fe rnandes.
Estas especialistas do dedal não querem ficar por aqui e esperam que os seus trabalhos - que podem ser vendidos durante a exposição que decorre na paró quia - rendam o suficiente para comprar mais material e umas máquinas de costura que facilitem a obra.
Enquanto não conseguem um espaço físico que as acolha, vão continuar a costurar e a bordar nas suas habitações, sempre sem perder o fio à meada e crent es que bordam um retalho da história do seu país.