"Memórias do Teatro da Cornucópia", uma constelação de vida a estrear-se nos cinemas
"Memórias do Teatro da Cornucópia", documentário realizado por Solveig Nordlund que se estreia no próximo dia 26, no Cinema Ideal, em Lisboa, acompanha mais de quarenta anos da história do teatro de intervenção da companhia cofundada por Luis Miguel Cintra.
Para o ator e encenador, o filme é "uma constelação de memórias que transbordam amizade, lealdade, inocência": "Dá conta do mais importante [...], da vida que a gente deixou dentro do que fez".
E o que fez era o teatro, "uma procura da felicidade", recorda Luis Miguel Cintra no início do documentário, sobre a génese da companhia que fundou com Jorge Silva Melo, em 1973. Para Solveig Nordlund, em declarações à agência Lusa, era "uma coisa bonita de uma companhia como já não há".
A realizadora conhece bem esse início e os anos que se seguiram, tanto quanto podia permitir a partilha do mesmo edifício, na Rua Tenente Raul Cascais, em Lisboa, pela Cornucópia e a cooperativa de cinema Grupo Zero, que fundara com o realizador Alberto Seixas Santos em 1974.
"A ideia de fazer um documentário sobre o Teatro da Cornucópia surgiu realmente quando fecharam", disse a cineasta à Lusa. "Eu sabia que havia este material documental sobre a companhia, nos arquivos da RTP, tantas tinham sido as peças gravadas para televisão". Por isso, pôs mãos à obra.
O documentário conta com narração de Luis Miguel Cintra e de Cristina Reis, a figurinista e cenógrafa que se manteve até ao fim da companhia. Os dois resistentes.
Entre outubro de 1973, quando a Cornucópia se estreou no Teatro Laura Alves, em Lisboa, com "O Misantropo", de Molière, e dezembro de 2016, quando encerrou portas, no prédio onde hoje se encontra o Teatro do Bairro Alto, foram levadas a cena mais de 120 criações, algumas em estreia mundial, em 5100 representações, numa média de três novos espectáculos por ano, durante mais de quatro décadas.
Ao longo do filme, conjugam-se memórias de Luis Miguel Cintra e de Cristina Reis, com imagens de arquivo. Há excertos de entrevistas, de reportagens e de muitos espectáculos da companhia.
Logo na abertura, surgem as portas giratórias que prendem os jovens Luis Miguel Cintra e Jorge Silva Melo, na versão televisiva de "E não se pode exterminá-lo?", de Karl Valentin. Também será com esta versão do texto e o seu diálogo final que o documentário encerra: "A guerra é uma coisa perigosa, não é? Claro, é a coisa mais perigosa que há".
Parca em palavras, Solveig Nordlund diz que "ficou fascinada por poder ver quarenta anos" de vida, durante a realização do documentário, conforme seguia as imagens de arquivo, com "as pessoas a envelhecerem quase à vista, mas mantendo sempre o seu trabalho de teatro".
E são muitas aquelas com que a Cornucópia trabalhou, de diferentes origens, com experiências diversas: atrizes e atores como Isabel de Castro, Glicínia Quartin, Dalila Rocha, o veterano Augusto Figueiredo e o jovem Filipe La Féria, que surgem nas primeiras produções, a quem se vão juntando nomes como os de Orlando Costa, Zita Duarte, Lia Gama, Rogério Vieira, Ângelo Teixeira, Carmen Santos, Raquel Maria, Luísa Cruz, Luís Lima Barreto, e muitos outros de novas gerações, como Ricardo Aibéo, Rita Durão, Rita Blanco, Gonçalo Waddington, Dinis Gomes, Duarte Guimarães, Beatriz Batarda. Ao todo, centenas de nomes que ocupam sete `ecrãs` do genérico final, quase todo o teatro português do último meio século.
Para a realizadora, a Cornucópia constitui exemplo da "juventude que tomou conta de um teatro. [...] Uma coisa que já não existe e que hoje seria impensável", frisou.
"Memórias do Teatro da Cornucópia", o documentário, é assim também sobre a vida dos que fizeram a companhia, daqueles que efetivamente construíram o teatro - a primeira caixa negra existente em Portugal -, que sonharam e tornaram real um espaço sem plateia fixa, feito para receber, acolher e ser "transformado como se deseja", como Cristina Reis recorda no filme.
No início, de costas para a câmara, numa varanda com um rio ao fundo, Luis Miguel Cintra volta atrás no tempo e explica como começou com "as coisas do teatro", as peças com marionetes que fazia "com os meninos do prédio onde vivia, [...] teatros pequeninos", para os quais convidava os vizinhos. Depois, teve "a noção de que tinha ficado com o teatro na cabeça como se fosse um sítio em que a gente vivia de uma forma diferente, [...] a criação de um tempo imaginário e fora da vida".
Solveig Nordlund recupera imagens das origens, ainda antes do Teatro da Cornucópia, com a montagem de "O Anfitrião", de António José da Silva, em 1968, pelo Grupo de Teatro de Letras, com Jorge Silva Melo e Luis Miguel Cintra. Depois, as peças da companhia: "O Misantropo", a inaugural, "O terror e a miséria no III Reich", de Bertolt Brecht, a primeira após o 25 de Abril, "Os tambores na noite", do dramaturgo alemão, "A ilha dos escravos" e "A herança", de Marivaux, "Pequenos burgueses", de Gorki, "Não se paga, não se paga!" de Dario Fo.
As imagens dos espectáculos multiplicam-se, entre memórias de Luis Miguel Cintra e de Cristina Reis, na atualidade, e depoimentos e reportagens de época. Passo a passo, o repertório é revisitado: "O labirinto de Creta", de António José da Silva, "A missão", de Heiner Müller, "O parque", de Botho Strauss, "A sonata dos espectros", de August Strindberg, "Três irmãs", de Tchekhov, "Auto da feira" e "Comédia de Rubena", de Gil Vicente, "O público", de García Lorca.
Uma amostra de todo o teatro que a Cornucópia fez, de todo o teatro que se impôs: de William Shakespeare a Samuel Beckett, de Joe Orton a Raul Brandão, de Peter Handke a Jean Genet, de Goethe e Luigi Pirandello a Arthur Schnitzler e Friedrich Schiller, de Gertrude Stein a Pierre Corneille, Beaumarchais e Pier Paolo Pasolini, de Friedrich Hölderlin a Hans Werner Henze, Heinrich von Kleist e Von Horváth, de Sophia de Mello Breyner Andresen a Sófocles e Aristófanes, Calderón de la Barca e Luís de Camões.
E também houve a ópera, como aconteceu com "Façade", de William Walton, "Jeanne d`Arc au Bûcher", de Arthur Honegger, "A História do Soldado", de Igor Stravinsky, algumas em coprodução com o Teatro Nacional de São Carlos.
Ao olhar sobre a Cornucópia, não escapam os contratempos: as dificuldades financeiras, a exiguidade ou ausência de apoios, o esforço de montagem de cada peça; a saída de Jorge Silva Melo, no final da década de 1970, que leva Luis Miguel Cintra a admitir que, "de certa forma, a primeira Cornucópia acabou aí".
Mas falar da Cornucópia é também falar do país que emerge das palavras de Luis Miguel Cintra, quer em registos de época, quer na revisitação da memória que acompanha o filme: a ditadura e os jovens atores cuja "liberdade criativa não tinha limites", por oposição à censura; o peso da realidade política e social; o que vingou e o que falhou, a força do teatro independente no pós-25 de Abril, as oportunidades conquistadas, as oportunidades perdidas na cultura em Portugal.
Solveig Nordlund esteve sempre bastante ligada a Luis Miguel Cintra e a Jorge Silva Melo desde o início da companhia. Entre os anos de 1974 e 1983, a Cornucópia e a produtora Grupo Zero não só partilharam o edifício do atual Teatro do Bairro Alto, como colaboraram na passagem para filme de textos de Franz-Xaver Kroetz e Karl Valentin, que resultaram num tríptico realizado por Solveig Nordlund: "Viagem para a Felicidade" (com Lia Gama), "Música para Si" (com Isabel de Castro) e "Novas Perspectivas" (com Dalila Rocha). Houve ainda a produção de "E Não Se Pode Exterminá-lo?", para a RTP2, coassinada com Jorge Silva Melo.
"Estávamos muito misturados", disse a realizadora à Lusa, fazendo mesmo notar que, de início, se previam "mais coisas, talvez mais intercâmbios, coproduções, [...], a ambição era ser mais geral", afirmou, lembrando sessões de cinema que chegaram a decorrer no teatro.
O fim da Cornucópia, em 2016, surgiu como inevitável à realizadora: "Era difícil prolongar aquela companhia. A Cristina [Reis] não tanto, mas Luis Miguel, já doente, não tinha físico para prolongar o trabalho". Além do mais, afirmou, também não havia quem o pudesse prosseguir.
"Memórias do Teatro da Cornucópia" termina com o desmantelamento da companhia, a retirada do seu acervo, o espaço vazio, as portas encerradas.
"A Cornucópia começou com uma festa de amigos e acabou com um funeral", diz Luis Miguel Cintra na sequência final do documentário. De costas para a câmara, virado para a paisagem, como no início do filme, recorda: "Uma coisa que nos custou muito foi enterrar o que estava naquela sala, as memórias e os pedaços de vida que ali estavam. E eu tive a noção de que tinha perdido a minha vida toda ali, naquele sítio".
Num depoimento escrito fornecido pela Real Ficção, produtora do filme, Luis Miguel Cintra diz sobre Solveig Nordlund: "Foi sempre do cinema, assistiu de dentro a bocados das nossas vidas e foi testemunha do que se passou no princípio da vida do Teatro da Cornucópia".
"Solveig [...] é exemplarmente teimosa e afetiva", prossegue o ator e encenador. "Ela, não sei como, conseguiu encontrar bocados de vida, pedaços de filmagens variadas, que mais que imagens, transformou numa revelação: a vida que a gente deixou dentro do que fez, coincidindo afinal com memórias minhas e por certo dos outros com quem partilhei a vida. Ainda bem. Dá conta do mais importante de uma maneira de ser que ela conheceu e que tornou em cinema. Montou uma constelação de memórias que transbordam amizade, lealdade, inocência, e que gosto de sentir".
Questionada pela Lusa sobre a possibilidade de o documentário ter um subtítulo, Solveig Nordlund admitiu "Memórias de três vidas", numa alusão às três figuras-chave da companhia: Luis Miguel Cintra, Cristina Reis e Jorge Silva Melo.
Além do Cinema Ideal, onde se estreará no dia 26, às 18:45, com a presença de Cristina Reis, "Memórias do Teatro da Cornucópia" também será exibido em Coimbra (Casa do Cinema), Viseu (Teatro Viriato) e Ribeira Grande (S. Miguel, Açores), no dia 27, e, no dia 30, numa sessão especial no Cinema Trindade, no Porto, com a presença de Luis Miguel Cintra.