Museu de Mação pioneiro na educação de crianças através da arqueologia

Museu de Mação pioneiro na educação de crianças através da arqueologia

O museu municipal de Mação, Santarém, tem em execução um projecto pioneiro de educação de crianças e jovens através do património arqueológico, hoje apresentado publicamente, em Castelo Branco, pela primeira vez desde o início daquela actividade.

Agência LUSA /

"O objectivo é tomar como motivo o património arqueológico, e sobretudo a arte rupestre, tema que interessa aos jovens e crianças, para trabalhar questões da tecnologia e ciência", disse à Agência Lusa Luiz Oosterbeek, responsável pela iniciativa.

A apresentação do projecto "Andakatu" em Castelo Branco - a cuja área educativa o concelho de Mação pertence - incluiu uma mostra ao vivo de várias vertentes da iniciativa, nas escadarias do Governo Civil.

"Estivemos a testá-lo nos últimos dois anos, já o fizemos com mais de um milhar de crianças e nunca o anunciámos publicamente. Hoje fizemo-lo e com a ajuda do Governo Civil esperamos levar isto a todas as escolas", acrescentou.

Incluindo diversas ofertas consoante os níveis etários a que se destina - desde o pré-primário e o primeiro ciclo até ao 12º ano - o "Andakatu" pretende ensinar temas da ciência e tecnologia através de técnicas ancestrais do período pré-histórico.

"As crianças aprendem a fazer pigmentos como se fazia na pré- história. Aprendem a pintar, divertem-se, aprendem arte rupestre e, ao mesmo tempo, cor e texturas", exemplificou Luiz Oosterbeek.

Outro exemplo passa, segundo aquele responsável, pelo ensino de matemática através de visitas a uma estação arqueológica.

"Ensinamos a montar quadrículas [para escavações arqueológicas]. Há crianças que ainda não sabem ler ou escrever, mas que com ângulos rectos aprendem o teorema de Pitágoras", observou.

Frisando existirem "muito poucas" experiências do género na Europa e no mundo, Luiz Oosterbeek referiu que o actual projecto teve a sua génese no Museu de História Natural de Paris, sendo agora coordenado por Mação.

No próximo ano, a equipa francesa e outras duas - uma espanhola, de Mérida, e uma italiana - irão a Mação, na perspectiva de estender o "Andakatu" a mais países.

"Todos, em conjunto, iremos, numa primeira fase, a outros países onde isto não existe (Lituânia, Bulgária, Roménia e Marrocos), para tentar pôr de pé uma rede internacional de sistemas de educação a este nível", anunciou.

Na escadaria do Governo Civil de Castelo Branco, vários elementos do projecto "Andakatu" - que inclui monitores e formadores portugueses, brasileiros e colombianos, entre outras nacionalidades - demonstraram as técnicas utilizadas.

No caso dos pigmentos, destacaram a importância da técnica utilizada pelo autor de uma representação de caça. "Bem feita, pode durar 20 mil anos, mal feita duas semanas", disse uma das monitoras.

Ao lado, utilizava-se uma gema de ovo "misturada com saliva para dar viscosidade" para pintar uma pedra.

Peles de animais, pedras e outros objectos naturais, "tudo pode servir para transformar a arqueologia numa ferramenta de ensino", disse.

"Talhando rocha as crianças aprendem física de uma maneira mais divertida", sustentou a formadora brasileira, enunciando outras disciplinas - como a matemática, química e história - passíveis de serem ensinadas através de materiais e técnicas usados na pré- história.

Ouvido pela Lusa, Saldanha Rocha, presidente da autarquia de Mação, afirmou não conseguir medir hoje as "boas consequências" que o projecto do museu municipal local - o segundo mais antigo do país - poderá trazer ao concelho, localidades e distritos vizinhos.

"Começou muito localmente, mas rapidamente percebemos que havia grande adesão do público escolar jovem, que é esse que deve ser educado para o futuro", assinalou.

O passo seguinte passou por contactos com os Governos Civis de Santarém, Castelo Branco, Portalegre e Guarda, com a ideia de se alcançar a "unificação" daquele território, nomeadamente o situado no interior do país, através do projecto "Andakatu".

"Não pode haver esta separação territorial, limites impostos até pela Natureza, assim não vamos a lado nenhum. A grandeza deste projecto é reunir as pessoas em torno de ideias e iniciativas e, através da educação pelas artes e património, chegarmos a todos", disse.

"É um caminho que nos vai ajudar a combater as assimetrias, não tenho dúvidas disto", disse a concluir.

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