Músicos imigrantes revisitam canções de Fausto em projeto que inclui álbum e concertos
Músicos imigrantes em Portugal, entre os quais os cantores Nancy Vieira e Luca Argel, revisitam canções de Fausto Bordalo Dias no projeto "Do Cabo do Mundo", que se estreia ao vivo em abril, foi hoje anunciado.
"Do Cabo do Mundo - Um Tributo Imigrante a Fausto", revisita a obra do músico e compositor que morreu em julho de 2024, aos 75 anos, "a partir da experiência de artistas imigrantes que vivem e trabalham em Portugal, reunindo as vozes de Luca Argel, Nani Medeiros, Nancy Vieira e Selma Uamusse".
O projeto inclui espetáculos ao vivo, o primeiro dos quais em 11 de abril no Teatro-Cine Pombal, e um álbum a ser editado em maio.
"Num tempo marcado por discursos de divisão, fronteiras reforçadas e identidades colocadas em confronto, `Do Cabo do Mundo` afirma-se como um gesto artístico de encontro. Um projeto que parte da ideia de travessia, tão central na obra de Fausto, para a reinscrever no presente, convocando diferentes histórias, sotaques e pertenças como matéria criativa, afirmando o seu contributo ativo para o presente cultural em Portugal. A sua proposta não é apenas revisitar um repertório, mas ativá-lo: devolvê-lo ao espaço público como lugar de escuta, de diálogo e de reconhecimento mútuo", lê-se no comunicado.
Idealizado pelo músico e diretor musical Carlos César Motta, em colaboração com o músico Fred Martins, "Do Cabo do Mundo -- Um Tributo Imigrante a Fausto" "cruza origens africanas e brasileiras numa leitura contemporânea de um dos mais relevantes cancioneiros da música portuguesa".
Os responsáveis pelo projeto lembram que Fausto Bordalo Dias "construiu um percurso artístico em que a viagem, os encontros e as tensões históricas se transformam em matéria musical". "Uma herança que aqui se prolonga, não como exercício de memória, mas como prática viva", referem.
Os quatro cantores que emprestam as vozes ao projeto "refletem a diversidade que o sustenta: Luca Argel, músico, poeta e escritor luso-brasileiro, cuja obra cruza criação artística e reflexão histórica, Nani Medeiros, cantora brasileira com raízes portuguesas, que integra de forma orgânica a tradição da música popular brasileira com o fado, Nancy Vieira, uma das mais reconhecidas intérpretes da música cabo-verdiana, profundamente ligada à morna e ao seu legado, e Selma Uamusse, artista moçambicana residente em Portugal, cuja presença artística se distingue pela intensidade e identidade própria".
A homenagem à obra de Fausto é, com este "Do Cabo do Mundo - Um Tributo Imigrante a Fausto", "também uma tomada de posição artística: um projeto que, a partir da música, propõe um espaço de escuta onde a diversidade não é ruído, mas linguagem".
Fausto Bordalo Dias nasceu em 26 de novembro de 1948, em pleno oceano Atlântico, a bordo de um navio chamado Pátria, que viajava para Angola, país onde viveu a infância e a adolescência e onde começou a interessar-se por música, assimilando os ritmos africanos que conjugaria com ritmos e modos da tradição popular portuguesa.
Fixou-se em Lisboa em 1968, quando entrou no antigo Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina, atual ISCSP - Universidade de Lisboa, para se licenciar em Ciências Sócio-Políticas.
A adesão ao movimento associativo aproximou-o de compositores como José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire e, mais tarde, de José Mário Branco e Luís Cília, que já viviam no exílio.
"Pró que Der e Vier" (1974) e "Beco sem Saída" (1975) contam-se os seus dois trabalhos iniciais marcados pela experiência revolucionária.
A esses seguiram-se "Madrugada dos Trapeiros" (1977), que inclui a canção "Rosalinda", "Histórias de Viajeiros" (1979), que já abre caminho a "Por Este Rio Acima" (1982), o seu grande sucesso, inspirado na "Peregrinação", de Fernão Mendes Pinto.
Com "Para Além das Cordilheiras" (1989) venceu o Prémio José Afonso.
"O Despertar dos Alquimistas", "A Preto e Branco" são outros dos seus álbuns, assim como "Crónicas da Terra Ardente", inspirado na "História Trágico-Marítima". Este é o segundo disco da trilogia "Lusitana Diáspora", depois de "Por este rio acima", e antes de "Em Busca das Montanhas Azuis", o seu derradeiro álbum, de 2011.
Em 2003, compôs "A Ópera Mágica do Cantor Maldito" (2003), uma perspetiva sobre a história portuguesa pós-25 de Abril.
Em 2009, com José Mário Branco e Sérgio Godinho, fez o espectáculo "Três Cantos", sobre o repertório dos três músicos, dando posteriormente origem a um álbum com o mesmo nome.
"Fiquemos com a música dele, portanto, com a intenção de lutar. Que serviram para combater tempos mais sombrios no passado e que continuem a servir para combater tempos mais sombrios que se avizinham", escreveu a família na página oficial de Fausto Bordalo Dias na rede social Facebook, quando da morte do músico.