Cultura
Novo disco "A Flor do Recomeço" resgata Salvador Sobral de crise criativa
O músico português Salvador Sobral, que conquistou a Europa com a vitória no Festival Eurovisão em 2017, escolheu o Brasil para dar vida ao seu projeto discográfico mais ambicioso até à data. Intitulado "A Flor do Recomeço", o álbum marca um ponto de viragem na sua carreira porque é o primeiro trabalho composto integralmente por temas inéditos de autores brasileiros. O repertório tem
O repertório tem canções escritas por nomes como Adriana Calcanhotto, Arnaldo Antunes, Céu, Marcelo Camelo, Mallu Magalhães, Marcos Valle e Tim Bernardes. A RTP acompanhou as gravações no estúdio Da Pá Virada, em São Paulo, onde testemunhámos a fusão entre a sensibilidade lusitana e a cadência brasileira.
Uma Ideia Nascida às "Quatro da Manhã"
O conceito deste disco não surgiu num escritório, mas sim num ambiente boémio após um concerto do álbum anterior, Timbre, em São Paulo em 2024. Foi nessa noite que Salvador conheceu o produtor Marcus Preto. Impressionado ao ouvir o português cantar temas de Dori Caymmi e Lupicínio Rodrigues, Marcus foi direto: "Sinto que tu precisas de fazer um disco brasileiro".
Embora a proposta tenha surgido por volta das quatro da manhã, depois de uns copos de vinho, a visão de Marcus Preto foi o que convenceu Salvador pois não seria um disco de "clássicos cansados" como "Garota de Ipanema", mas sim um conjunto de canções escritas especificamente para a sua voz e para a sua pronúncia.
O cantor destaca que a “ideia nunca foi fazer [o disco] com a pronúncia de português do Brasil, porque seria muito estranho e problemático, do ponto de vista colonial. E se eu cantasse com a pronúncia brasileira, já seriam músicos brasileiros, canções brasileiras, produtores brasileiros, banda brasileira, e um cantor português a tentar ser brasileiro. Estava fora de questão”.
“Eu acho que se eu posso trazer alguma coisa de único aqui, na minha interpretação, é justamente o português de Portugal”, reforça Salvador declarando que se trata de “um disco brasileiro com um português a tentar hiberizar a música ou desbrasilificar a música e tentar fazê-la um pouco mais minha, europeia e hibérica”.
Uma das discussões mais ricas nos bastidores do estúdio centrou-se na identidade vocal de Salvador. O cantor foi categórico ao recusar adotar o sotaque brasileiro, mas a adaptação rítmica exigiu um trabalho minucioso.
Durante as gravações, testemunhámos como o diretor musical Tó Brandileone sugeriu que Salvador alterasse a forma de cantar “meu avião” no tema Entre Setas e Sentimentos fazendo uma ligeira pausa entre as duas palavras para se tornar mais inteligível para os brasileiros.
Salvador Sobral explicou-nos, também, a necessidade de criar um "híbrido" sonoro na palavra "coração" que na canção Bam Bam prolonga a primeira sílaba e soa “cuuuuuu…” porque em Portugal o "o" inicial é muito fechado, quase um "u". Num teste das canções ao vivo, Salvador percebeu que os brasileiros estranham a duração desse som. E, bem disposto, conta que lhe foi mesmo dito que no Brasil não pode dizer “cuuuu” tanto tempo!
A solução passou por um ajuste técnico na emissão vocal para que a palavra soasse natural aos ouvidos dos dois lados do Atlântico, sem perder a sua essência lusitana, entre um “u” e um “o”.
Músicos de Elite e um Alinhamento de Luxo
O ambiente no Da Pá Virada foi de constante colaboração, entre "virados à paulista", futebol e muita música. Sob a direção de Marcus Preto e a direção musical de Tó Brandileone, Salvador Sobral rodeou-se de alguns dos melhores músicos da cena paulistana: Tiago Costa (piano), Fábio Sá (contrabaixo), Conrado Goys (guitarra), Sergio Machado (bateria) e Felipe Roseno (percussão).
O álbum reúne 12 temas inéditos criados pela inspiração de um verdadeiro "dream team" da música brasileira contemporânea, sendo que o lançamento de "A Flor do Recomeço" está previsto para o segundo semestre de 2026.
Contrariar os tempos da Inteligência Artificial
Salvador Sobral revelou que este projeto surgiu como um antídoto para um período pessoal de “crise criativa” e cansaço mental provocado pelo cenário geopolítico mundial, desde o conflito em Gaza até à guerra na Ucrânia.
E, como tal, seguiu um processo humanizante já que todo o disco foi pensado também como “uma espécie de revolta aos tempos de hoje”, quando “tudo é feito com inteligência artificial e na casa de cada um. A gente queria criar os arranjos, fazer as canções todos juntos, na mesma sala, a pensar na música”.
E para prolongar e aperfeiçoar o processo criativo humano, antes das gravações, o repertório foi testado em sessões íntimas no Bona Casa de Música, em São Paulo, para recolher reações e opiniões. O público foi, inclusivamente, questionado, sobre os temas que poderiam dar singles de apresentação.
“É uma coisa que se faz muito no jazz”, realça Salvador destacando que estes pequenos concertos permitem “sentir como as pessoas reconhecem as canções, o tipo de emoções que as pessoas sentem com cada canção” e também para que o próprio cantor sinta aquele nervo do concerto que “é essencial para depois gravar com mais tranquilidade”.
Salvador Sobral revelou que este projeto surgiu como um antídoto para um período pessoal de “crise criativa” e cansaço mental provocado pelo cenário geopolítico mundial, desde o conflito em Gaza até à guerra na Ucrânia.
E, como tal, seguiu um processo humanizante já que todo o disco foi pensado também como “uma espécie de revolta aos tempos de hoje”, quando “tudo é feito com inteligência artificial e na casa de cada um. A gente queria criar os arranjos, fazer as canções todos juntos, na mesma sala, a pensar na música”.
E para prolongar e aperfeiçoar o processo criativo humano, antes das gravações, o repertório foi testado em sessões íntimas no Bona Casa de Música, em São Paulo, para recolher reações e opiniões. O público foi, inclusivamente, questionado, sobre os temas que poderiam dar singles de apresentação.
“É uma coisa que se faz muito no jazz”, realça Salvador destacando que estes pequenos concertos permitem “sentir como as pessoas reconhecem as canções, o tipo de emoções que as pessoas sentem com cada canção” e também para que o próprio cantor sinta aquele nervo do concerto que “é essencial para depois gravar com mais tranquilidade”.