O artista plástico fascinado pela união da pintura com a fotografia. Ricardo Cruz-Filipe morreu aos 92 anos
O artista Ricardo Cruz-Filipe, que hoje morreu aos 92 anos, deixa um percurso artístico de mais de 60 anos dedicados a um trabalho pioneiro, que a partir da década de 1970 explorou com fascínio a união entre pintura e fotografia.
Engenheiro de formação e profissão, Ricardo Cruz-Filipe foi um artista autodidata, herdeiro de uma matriz `pop`, cuja obra se desenvolveu através de um "olhar seletivo", de um "modo de ver" a história da pintura Ocidental, em particular a pintura italiana e flamenga dos séculos XVI e XVII.
Ricardo José Minotti da Cruz-Filipe nasceu em Lisboa, em 16 de fevereiro de 1934, e diplomou-se em engenharia pelo Instituto Superior Técnico, onde foi professor assistente entre 1958 e 1968.
A sua vida profissional centrou-se inicialmente no setor da eletricidade, pela formação técnica, iniciando a atividade artística em 1956 como pintor autodidata, expondo individualmente pela primeira vez em 1957.
Cruz-Filipe, que inicialmente usava a colagem e pintura, muito dentro do espírito da sua época, em 1969 começou a usar uma técnica muito especial em que pintava sobre telas fotossensibilizadas, usando imagens retalhadas, e sobre essas fotografias intervinha pictoricamente, unindo-as.
Pioneiro no uso desta técnica em Portugal, o artista usou-a de forma bastante única, e, internacionalmente, inseriu-se numa linhagem de artistas que interrogam a imagem a partir do dilema humano, da representação do visível desde a invenção da fotografia, que veio subverter o campo da pintura de forma irreversível.
Ricardo Cruz-Filipe, que, deste modo, passou a vida a "interrogar a imagem", como afirmaram vários historiadores de arte, deixou nas suas obras uma abertura à imaginação do observador, provocando inquietação através de elementos como mãos e outros fragmentos do corpo, em cenários de dimensão cinematográfica e operática.
Citando o fotógrafo e cineasta norte-americano Man Ray (1890-1976), o professor e historiador de arte Bernardo Pinto de Almeida sintetizou a prática artística de Cruz-Filipe nos seguintes termos: "À pintura de Cruz Filipe seria aplicável a célebre fórmula de Man Ray: `Eu fotografo o que não quero pintar e pinto o que não consigo fotografar`".
"Só que nos seus quadros as duas imagens coincidem, como na mesa de dissecação, para se justapor e engendrar uma e outra imagem que é ainda imagem do Outro, da alteridade que o sonho fragmentariamente revela", descreve o historiador num número da revista Colóquio/Artes, de 1987.
A obra de Cruz-Filipe divide-se em dois ciclos: o primeiro com figuras, em que a natureza morta também é uma linguagem muito presente, e o segundo com a representação da paisagem, numa posição de "intervir, mas ocultando, deturpando, revelando".
Na segunda fase do seu trabalho, iniciada por volta de 2005, predominam os registos fotográficos sobre paisagens e apontamentos da natureza como o mar, céu, terra, atmosferas líquidas e sublimadas, animais, árvores, nuvens, figuras que retrabalha pictoricamente para as suas composições.
Ricardo Cruz-Filipe participou em numerosas exposições individuais, em galerias e museus, nomeadamente, em Lisboa, na Galeria Pórtico (1957), Galeria Quadrum (1977 e 1981), na Galeria 111 (1970) e no Museu Nacional de Arte Antiga (2001); no Porto, na Galeria da Cooperativa Árvore (1968), no Museu Nacional Soares dos Reis (1977) e no Museu da Fundação de Serralves (1996).
Ainda em Lisboa, em 1986, o Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian organizou uma exposição com 48 pinturas do artista, realizadas entre os anos de 1975 e 1986, nas quais era possível compreender a evolução das suas pesquisas artísticas e diversas influências, incluindo as referências maneiristas e românticas, o onírico, fragmentação, construções e articulações espaciais.
Em 1995, a Culturgest, também em Lisboa, apresentou a retrospetiva de Cruz-Filipe intitulada "Quarenta anos de pintura".
Fora de Portugal, apresentou exposições, entre outros, na Galerie du Dôme, em Paris (1978), na Galerie Patrick Cramer, em Genebra (1981), The Murray and Isabella Rayburn Foundation, em Nova Iorque (1990), e no Museu Van Reekun, Appeldoorn, nos Países Baixos (1987).
Em 2024, quando o artista completou 90 anos, a Fundação Gulbenkian dedicou-lhe uma exposição retrospetiva e de homenagem, intitulada "Cruz-Filipe. Modo de Ver", com 57 obras que percorreram seis décadas do seu trabalho, dez dessas obras realizadas entre 2014 e 2020.
Dez anos antes, a Fundação Arpad Szènes-Vieira da Silva expôs "Ficções. Luz do Ártico", série que culminava um ciclo expositivo do artista, iniciado em 2007, em que a paisagem era "objeto da atenção e a matriz fotográfica utilizada de modo mais assumido".
"A medida comum das mais humildes coisas" (1972), "Bride of Stillness" (1972), "Distância Interior" (1981), "Intervalle du temps" (1982), "Estuário", (1991), "Manhã que anoitece" (2000), "Méditations sur l´inquiétude" (2004) e "Meditação sobre a paisagem" (2020) foram algumas das obras incluídas nesta retrospetiva.
A obra de Cruz-Filipe, alvo de vários prémios, numa carreira de sete décadas, está representada nas coleções da Fundação Calouste Gulbenkian, do Museu de Serralves, do Museu de Amarante, do Museu de Tomar (Coleção de José-Augusto França), da Sociedade Nacional de Belas-Artes e na Coleção de Arte Contemporânea do Estado, entre outras coleções de instituições nacionais e estrangeiras.
Em 2017 o artista fez uma doação de 12 obras para a coleção do Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, que atualmente conta no seu acervo com 22 obras de Cruz-Filipe.
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