O inspetor da PIDE que interrogou Sophia de Mello Breyner acabou interrogado por Miguel Sousa Tavares
Miguel Sousa Tavares integrou a comissão de extinção da PIDE/DGS, a seguir ao 25 de Abil, na qual ficou cara a cara com o inspetor Sacchetti, que durante a ditadura interrogara a mãe, Sophia Mello Breyner.
"Ela foi interrogada, a certa altura pelo inspetor Sacchetti, que depois interroguei na Comissão de Extinção da PIDE, sem que ele soubesse quem eu era", recordou em entrevista à agência Lusa.
"Na Comissão de Extinção da PIDE, as coisas ainda estavam muito frescas e nós, os que fomos para lá trabalhar, tínhamos ordens estritas para jamais revelarmos a nossa identidade", contou o jurista, que à época estava ainda a concluir o curso de direito.
Face às investidas do polícia que afirmava conhecer-lhe a cara e o nome, sem que o conseguisse identificar, Miguel Sousa Tavares nada revelou: "Não me arrancou o nome".
Com a mãe, poeta, escritora e futura deputada à Assembleia Constituinte (1975-76), o encontro de Sacchetti aconteceu na sede da PIDE, em Lisboa.
"Acho que foi um interrogatório muito duro, difícil. Não estou a falar fisicamente, nada disso. Mas à saída fez questão, cavalheirescamente, de a acompanhar ao elevador, na António Maria Cardoso", contou Miguel Sousa Tavares, partilhando o diálogo que se seguiu.
"A minha mãe perguntou-lhe assim -- Ó senhor inspetor Sacchetti, o elevador é seguro? E ele disse -- Com certeza, Senhora Sophia, o elevador da PIDE é seguro, por que é que pergunta? -- Sabe, é que eu só tenho medo de duas coisas, de fantasmas e de elevadores", respondeu Sophia.
"E o homem que tinha estado ali umas horas a tentar amedrontá-la, acho que ficou com uma cara completamente aparvalhada quando ouviu aquilo [risos]", concluiu.
Miguel Sousa Tavares integrou o Serviço de Coordenação de Extinção da PIDE/DGS, criado em 1974, convicto de que o trabalho consistia em preparar dossiers para "levar os pides a julgamento", nos casos mais relevantes.
"Um dos dossiers que investiguei, na altura, e que era quase um romance foi uma operação chamada Açúcar, que a PIDE montou para matar o Hermínio da Palma Inácio, líder da LUAR (Liga de Unidade e Ação Revolucionária), onde quer que ele estivesse, no estrangeiro", contou.
De acordo com Miguel Sousa Tavares, a PIDE conseguiu infiltrar um homem para seguir Palma Inácio, ao qual pagava 12.000 francos franceses. "Na altura era muito dinheiro", recordou. O objetivo era, "na altura certa", liquidar o líder da LUAR, fundada clandestinamente em Paris.
"Inclusivamente, a PIDE chegou a fornecer uma arma a esse homem. Esse foi um dos dossiers que investiguei, não foi o único. Mas eu estava convencido - e isso era bastante exaltante - de que íamos fazer justiça. Não seria o processo de Nuremberga, mas todas aquelas arbitrariedades da PIDE, de alguma maneira iam ser julgadas. Não foi o caso quando o Partido Comunista tomou conta daquilo", lamentou.
Apesar de não ter alcançado os objetivos, o trabalho foi "fascinante", confessou: "Foi muito interessante, mas só lá estive três meses, porque depois o Partido Comunista tomou conta daquilo, apoiado pela Marinha, no MFA (Movimento das Forças Armadas), e aos poucos foram fechando diversos setores das instalações do Forte de Caxias e nós, os que não éramos do PC, fomos deixando de ter acesso a determinadas alas e aos dossiers e o trabalho tornou-se completamente impossível. Vim-me embora quando saiu toda a gente. Só lá ficou o MFA, com o PCP", relatou.
Miguel Sousa Tavares acredita que foram desviados processos, incluindo dossiers da NATO (Aliança Atlântica), para o KGB, em Moscovo, uma tese que ao longo das últimas décadas tem sido sustentada em livros, investigações, reportagens e debates académicos, embora sempre refutada pelo PCP, designadamente quando da aprovação de uma comissão de inquérito na Assembleia da República, em meados dos anos 90.
"O principal foi conseguir desviar dossiers e enviar para Moscovo os dossiers da NATO. Assisti, com os meus olhos a camiões do MFA a tirarem dossiers e dossiers, a carregá-los nas tais salas que foram fechadas pelo Partido Comunista e, mais tarde, apareceu tudo escrito no livro de um russo, que contou como é que os dossiers da NATO tinham chegado a Moscovo", afirmou o advogado e jornalista.
Em 1994, o correspondente da RTP, em Moscovo, Carlos Fino, entrevistou um ex-general do KGB, Oleg Kalugin, segundo o qual parte dos arquivos da PIDE foi desviada para Moscovo, com a colaboração do PCP.
"Não tenho a mais pequena dúvida de que a grande lista dos colaboradores da PIDE, dos informadores, como se chamava, foi parar ao PCP e nunca foi divulgada. A PIDE estava cheia de informadores, fartei-me de ler coisas sobre os informadores da PIDE. Havia alguns nomes que circulavam, de pessoas conhecidas, como sendo informadores da PIDE, e isso nunca foi descoberto. A célebre lista de informadores da PIDE desapareceu", lamentou.