Obra de Alves Redol e suas ilustrações em exposição nos 50 anos da morte do autor
Os 50 anos da morte do escritor português Alves Redol são o pretexto para uma exposição dedicada à sua obra e à ilustração de muitos dos seus livros, que se inaugura no próximo sábado, em Vila Franca de Xira.
A exposição "Raízes de uma Coleção: Alves Redol e (seus) Ilustradores" vai estar patente no Museu do Neo-Realismo, numa iniciativa da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, para assinalar não só o meio século que passa sobre a morte do escritor neorrealista (29 de novembro de 1969), natural daquela cidade, mas também os 80 anos da publicação do seu primeiro romance, "Gaibéus" (1939), informa a autarquia na sua página oficial.
Com curadoria de Luísa Duarte Santos, a exposição tem como ponto de partida a obra literária daquele que é um dos maiores e mais emblemáticos autores do Movimento Neorrealista Português, acrescenta.
"Incidindo sobre a vertente da ilustração que podemos encontrar em muitos dos livros de Alves Redol, aqui encontraremos obras da autoria de muitos artistas fundamentais do movimento neorrealista, tais como Antero Ferreira (ilustrador de `Gaibéus`), Júlio Pomar (`Horizonte Cerrado`), Lima de Freitas (`Olhos d`Água`), Rogério Ribeiro (`A Vida mágica da sementinha: uma breve história do trigo`), ou Manuel Ribeiro de Pavia, ilustrador de diversos trabalhos de Alves Redol".
A mostra, que estará patente até ao dia 23 de fevereiro de 2020, é de entrada livre e inclui ainda retratos do próprio autor em pintura, desenho, caricatura e escultura.
Nascido em Vila Franca de Xira, a 29 de dezembro de 1911, Alves Redol foi criado no Ribatejo, tendo presenciado desde novo as condições de vida precárias do homem rural, o que mais tarde se iria refletir na sua escrita.
Fruto da sua convivência com as péssimas condições de vida das camadas rurais e de vivenciar duplamente essas condições (na infância e na juventude), Alves Redol voltou seu olhar para a dimensão social, mais especificamente para as questões de reivindicação de mudança social.
É uma literatura de cunho político, que emerge no contexto do Neorrealismo, corrente que se opõe veementemente à opressão dos regimes totalitários, eclodindo um novo conceito de arte, numa perspetiva de consciencialização, acompanhada do novo papel do artista enquanto defensor da sociedade.
A obra de Alves Redol é, assim, amparada por uma perspetiva social, que prima por abordar aspetos sociopolíticos e económicos, focando sobretudo personagens que refletem a diversidade dos grupos da sociedade portuguesa, tanto rural como urbana.
Entre a diversidade da sua obra -- que abrange romance, contos, teatro, ensaios e literatura infantil - destaca-se um fator comum, a temática da preocupação social, evidenciando a desigualdades entre as classes, as condições de vida precárias dos pobres e o sofrimento do povo.
Enquanto escritor neorrealista, a sua importância advém do facto de ter iniciado uma nova estética literária no século XX.
Muitos críticos literários e autores expressaram as suas opiniões sobre o autor, entre os quais Mário Dionísio que, no prefácio da obra "Barranco de Cegos", escreveu tratar-se de um romance do Ribatejo, mas também "o mais completo livro que se escreveu sobre uma região que já entusiasmara Garrett e interessara Ramalho [Ortigão]".
Trata-se do romance de uma família poderosa e do mundo que em torno dela e sob ela gravita, mas é também o romance de uma época, de um país e, fundamentalmente, de "cegos que conduzem cegos para o barranco", acrescenta.
Entre os romances mais conhecidos de Alves Redol contam-se "Gaibéus" (1939), "Avieiros" (1942), "Fanga" (1943), "Horizonte Cerrado" (1949), "Vindima de Sangue" (1953), "Olhos de Água" (1954), "A Barca dos Sete Lemes" (1958) e "Barranco de Cegos" (1961).
Entre as obras dirigidas ao publico infantil e juvenil, destaca-se "Vida Mágica da Sementinha" (1956) e "Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos" (1962).