Obra de Vitorino Nemésio sobre Isabel de Aragão reeditada no 110.º aniversário do escritor
Lisboa, 15 dez (Lusa) -- Assinalando os 110 anos do nascimento de Vitorino Nemésio, foi editado de sua autoria "Isabel de Aragão, Rainha Santa", pela Texto Editora, obra publicada pela primeira vez em 1936.
Na obra de Nemésio, "Isabel de Aragão, Rainha Santa" é remetida para a categoria "outros géneros narrativos" em que se incluem as biografias romanceadas do Infante D. Henrique, filho de D. João I, e do historiador e escritor Alexandre Herculano.
O autor traça um retrato da Infanta aragonesa que, desde cedo, apresentou particularidades que viriam a justificar o culto pela sua personagem.
Isabel tomou o nome de uma tia que também viria a ser elevada aos altares, Isabel da Hungria, e foi a filha mais velha de Pedro III de Aragão e de Constança, princesa da Sicília.
A futura rainha nasceu "completamente embrulhada numa película húmida, uma espécie de subplacenta", o que foi tomado por "um grande prenúncio", como escreve o autor que acrescenta que a mãe, Constança de Hohenstaufen, "pensou decerto que Deus não esquecia os grandes da terra".
No seu quotidiano, "Isabel respondia às aias conforme as horas canónicas", escreve o autor de "Mau tempo no canal", nascido a 19 de dezembro de 1901 na Praia da Vitória, na ilha Terceira, e que se celebrizou no ecrãs televisivos com o programa "Se bem me lembro", transmitido entre 1969 e 1975 na RTP.
O escritor caracteriza a época em que viveu Isabel de Aragão como "tempos obscuros, de conflitos rudes e violentos, [de] uma justiça sumária e às vezes cruel", em que "o mistério desempenhava um papel decisivo na interpretação do futuro".
Uma das "proezas" da Infanta, ainda bebé, foi "através dos primeiros sorrisos e palavras", que fez a paz descer "entre Jaime, o Conquistador e o futuro Pedro, o grande", isto é, entre o avô e o pai.
Isabel, que se casou aos 12 anos com D. Dinis, nove anos mais velho que ela, ficou conhecida por várias vezes interceder nos conflitos, alguns bélicos, entre D. Dinis e o filho mais velho e herdeiro da Coroa, o futuro D. Afonso IV.
Já recolhida no convento de Santa Clara, a rainha viúva preocupava-se em apaziguar os conflitos entre o filho, então rei de Portugal, e um irmão bastardo, filho de D. Dinis, Afonso Sanches, também trovador como o pai.
Vitorino Nemésio descreve a morte da rainha, em Estremoz, em 1336, entre os beijos do filho, D. Afonso IV e os "ais das aias", após a ceia, tendo ainda um momento de lucidez "para lhe falar [ao filho] das netas que andavam por longe, daquela guerra atiçada [contra Afonso XI de Castela pelos maus tratos que infligia à mulher] que talvez se pudesse escusar. Mas misturava já o nome de deus com isto, e os outros não entendiam".