Orquestrofone de grandes dimensões, único em Portugal, volta a tocar no Funchal

Orquestrofone de grandes dimensões, único em Portugal, volta a tocar no Funchal

O espólio do Museu da Quinta das Cruzes tem um novo atractivo, um orquestrofone, um instrumento musical raro construído nos finais do séc.XIX que no sábado soará pela primeira vez naquele espaço do Funchal.

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O orquestrofone do museu madeirense é um instrumento complexo, com 2,40 metros de comprimento e 2,75 metros de altura, possivelmente único em Portugal. Mesmo a nível mundial existem muito poucos exemplares, devido à sua volumetria, complexidade mecânica, potência e custo elevados.

Foi criado pelo fabricante francês "Limonaire Frères", sendo sobretudo vocacionado para exibição pública em amplos espaços ou salas.

"O seu valor museológico está não só na sua raridade, mas também no seu interesse do ponto de vista técnico e artístico, além do seu complexo funcionamento e exuberância patenteada na caixa de madeira policromada, esculpida e talhada", diz a memória descritiva do orquestrofone do Museu Quinta das Cruzes.

Esta "caixa" consegue ler diversas composições musicais impressas em cartões perfurados.

O instrumento foi inicialmente adquirido pelo primeiro Visconde Cacongo, na Feira Internacional de Paris, em Agosto de 1900, junto com algumas dezenas de músicas, sobretudo rapsódias, marchas militares, hinos, e outras músicas clássicas e populares.

Algumas destas músicas têm carácter inédito, como a versão da "A Portuguesa" de Alfredo Keil (1904), diversos "Hymnos" dedicados aos reis D.Carlos e D.Amélia, e os "Hymnos" Português (1900), Nacional (1904) e da Ilha da Madeira (1905).

Em 1979, o orquestrofone passou a ser propriedade do governo madeirense, que o comprou por 500 contos a uma das herdeiras daquele nobre, sendo utilizado nas recepções e festas que a família organizava ao ar livre.

A peça foi posteriormente alvo de um projecto de restauro orçado em cerca de 42 mil euros, um trabalho que começou a ser efectuado em 1982 pelo Atelier de Marc Fournier, em França, mas só duas décadas depois, entre 2004 e 2006, foi verdadeiramente impulsionado, num trabalho desenvolvido pelos ténicos Maria José Cabrita do atelier Isopo e Dinarte Machado, responsáveis, respectivamente, pela recuperação das estruturas em madeira e policromia e mecânica e instrumental.

Visando a sua exibição, a Direcção Regional dos Assuntos Culturais construiu um lugar especial no Museu Quinta das Cruzes, um projecto arquitectónico que inclui uma cafetaria, e garante igualmente a sua protecção e conservação, o que orçou os 485 mil euros, co-financiados por fundos comunitários.

Este projecto integra-se num conjunto de obras de beneficiação realizadas no Museu que ascendeu a um milhão de euros.

Para a directora deste núcleo museológico, Teresa Pais, "esta é uma peça importante, não só por constituir uma curiosidade no mundo dos instrumentos musicais, como também por representar simultaneamente um dos mais completos "documentos" de uma época, na sua desconcertante mas harmoniosa mistura de "design" e de "pop art" antecipados, na sedução das suas cores, das suas decorações "neo-barrocas", dos seus "bonecos mecânicos", das suas músicas "arrancadas" aos salões e teatros".

O primeiro concerto deste orquestrofone acontece sexta-feira, com entrada livre, e contará com a presença do vice-presidente do governo madeirense, João Cunha e Silva, e do secretário regional do Turismo cessante, João Carlos Abreu.

Este será o último acto oficial de João Carlos Abreu que exerceu estas funções durante cerca de 30 anos e será substituído por Conceição Estudante.

O orquestrafone poderá ser depois apreciado apenas em certas horas do dia, estando previstos concertos mensais.

Dois funcionários terão formação para poderem "tocar" este instrumento, que poderá ser ainda utilizado em visitas especiais.

Quanto ao Museu Quinta das Cruzes, é um núcleo instalado quase no centro da cidade, entre as calçadas de Santa Clara e do Pico, numa quinta que foi moradia dos capitães donatários da Madeira, caso do descobridor João Gonçalves Zarco.

Esta quinta é constituída pela casa-moradia, uma capela e um vasto espaço ajardinado, existindo nos seus relvados vários fragmentos históricos - caso das janelas manuelinas -, além de uma colecção de orquídeas e uma flora diversificada com exemplares de plantas endémicas.

Ao longo dos séculos este imóvel foi utilizado como habitação, sede do Clube Madeira e da Banda Filarmónica do Funchal, consultório, fábrica de bordados, pequena unidade hoteleira e até pensão para albergar os refugiados gibraltinos durante a II Grande Guerra.

Em 1946/48 a Junta Geral adquiriu a quinta à família Miguéis, classificando-a, um ano mais tarde, como imóvel de interesse público e, em 1953, abriu oficialmente as portas como museu, passando por projectos de remodelação, conservação e restauro do edifício e das suas colecções entre 1979 e 1982.

Hoje, o Museu Quinta das Cruzes tem um espólio com mais de 3.800 peças, maioritariamente de arte decorativa, datadas dos séc. XVI a XIX, de várias origens, como Europa, Oriente (China e Japão) e Portugal, sendo as principais colecções de mobiliário, ourivesaria, cerâmica, vidros, escultura e têxteis.

Armários de caixa de açúcar, peças de fiança, pratas portuguesas e estrangeiras, peças flamengas da segunda metade do séc.XV, marfins, loiças chinesas, presépios são alguns dos objectos expostos neste espaço.

Este núcleo é visitado anualmente por cerca de 25 mil pessoas.

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