Cultura
“Para Sempre” é o livro que não esperava escrever
A escritora italiana Susanna Tamaro está em Portugal a promover o mais recente livro “Para Sempre”. É a primeira oportunidade dos leitores conhecerem pessoalmente a autora de êxitos de vendas como “Vai Aonde te Leva o Coração”, o livro italiano de maior sucesso no século XX. Em Portugal, a obra vendeu mais de 154 mil exemplares.
Qual é o lugar de “Para Sempre” no contexto da sua produção?
Penso que o escritor sabe o que vai escrever, como um filho que vai nascer. Mas este livro foi uma surpresa muito particular. É um livro muito emocional porque não o esperava. Para Sempre” é o livro que não esperava escrever. Um dia compus uma personagem e pensei que era belíssimo. Escrevê-lo envolveu uma emoção poética. Quando acabei de o escrever, o último capítulo do livro revelou-se a outra parte de “Vai Aonde te Leva o Coração”, a parte masculina. Enquanto no primeiro tinha uma avó, uma mãe e uma neta; agora temos um avô, um pai e um neto. É o mesmo tipo de emoções, mas do ponto de vista masculino."Para Sempre”
Um homem, médico cardiologista, vive um luto há 15 anos, recordando constantemente a perda da mulher Nora e do filho David num acidente de automóvel. Após a morte do pai procurou refúgio na montanha e esta ligação à terra vai revelar-se regeneradora.
Chegou a dizer que “Para sempre” é o seu livro mais bonito. Porquê?
Porque falta a esperança. Conta a dor, a falta e a ausência com muita poesia e inspiração. O meu livro mais complexo é “A Alma do Mundo”, um livro muito duro, com pouquíssima esperança. Este livro é, ao mesmo tempo, um canto de amor pela vida.
Em que medida é autobiográfico?
Costumo dizer que se Dickens tivesse tido uma infância feliz não teria escrito o “David Copperfield”. O carácter de um escritor nunca será sempre no mesmo livro. Por outro lado, todos temos duas facetas: uma feminina, como Nora e Larissa – eu tenho um carácter muito feminino; outra masculina, como o Matteo, que é muito obsessivo e analítico.
Neste livro há um predomínio da análise sobre a narrativa? Como é o seu método de escrita?
Começo por escolher o tema, decido o que vou falar no argumento.
Depois, espero que me “chegue” uma história sobre este argumento. Esta é a parte mais difícil, porque sofres muito. Sabes o que queres mas não consegues alcançar. É como se houvesse um muro transparente, em que vejo o que quero mas ainda não chego lá. A parte mais misteriosa na escrita é sempre como se quebra este muro. O trabalho principal é conseguir ir para além da parede, quebrar este cenário.
Não faço um plano. Normalmente não sei o que vai acontecer no dia seguinte. É uma descoberta. De outra forma, seria muito aborrecido e aborreceria os leitores.
“Para Sempre” vendeu 300 mil exemplares só em Itália em cinco meses. Em Portugal, “Vai Aonde te Leva o Coração” vendeu mais de 154 mil cópias. Como explica este sucesso comercial?
Eu nasci em Trieste, no Nordeste de Itália. Na escola primária tive contacto com o esloveno e o alemão, além do italiano. Por este motivo, o meu italiano é muito polido, preciso e direto. É um facto que tenho uma linguagem muito direta, o que não quer dizer que seja básica. Quer dizer que é direta e é muito difícil escrever de maneira simples.
Em segundo lugar, sou muito lúcida na análise de sentimentos e até um pouco cruel. Isto é outro facto que ajuda a criar uma estrutura psicológica nos livros.
E depois, quando falamos de relações familiares, falamos de ligações de todos nós; todos temos um pai, uma mãe… É certamente um grande tabu contemporâneo falar de sentimentos profundos.
Por outro lado, há um factor misterioso, que não consigo explicar, porque não faço marketing, não vou às televisões e não faço nada para vender tantos exemplares.
Ainda conta histórias para levar as pessoas a questionarem-se sobre as suas vidas?
Sim, seguramente. Em “Para Sempre” é particularmente claro. Desde que eu era criança muito pequena interrogava-me sobre a morte, porque era uma menina muito sensível e via que as pessoas estavam mal. Este aspecto durante a guerra era muito forte. E ninguém falava da morte, o que gerava em mim uma grande angústia.
Penso que toda a minha literatura nasce desta pergunta que fiz a mim mesma: que faz sentido viver se temos de morrer? Ou seja, o que é a morte?
O modo como nos relacionamos com a morte é um pouco o tema de todos os meus livros, em que morre muita gente. É uma hecatombe. Creio que o sentido da vida do homem é responder a esta pergunta.
Um homem é um homem enquanto se questiona. O homem deve interrogar-se e não aceitar respostas já feitas; uma das coisas boas da crise é que permite colocarmo-nos perguntas.
É por isso que encara a literatura como a descoberta do homem?
Sim e principalmente nestes tempos super tecnológicos e visuais. Quando lemos um livro estamos sós, lemos o personagem com a mente e entendemo-lo com o coração.
O livro é como uma pequena reserva indígena em que podes continuar a ser uma personagem livre, criativa, imaginativa, contra este mundo visual e tecnológico que te oprime. Deste modo, é uma grande fonte de liberdade e de resistência neste mundo sempre cada vez mais anticívico. Creio que a literatura tem uma vertente ética.
Uma vida no campo
Aos 54 anos, a autora do livro italiano de maior sucesso no século XX, “Vai Aonde te Leva o Coração”, vive numa quinta, perto de Orvieto. Susanna Tamaro acompanha de perto as transformações da natureza. A escritora escolhe o mês de janeiro para ter encontros com os leitores de todo o mundo, porque este é o único em que abranda os cuidados com as plantas e os animais.
Para quem dá ênfase a temas como as emoções, o coração, a felicidade, acaba por não os conduzir para a vida familiar… É uma contradição?
Não sou casada, mas penso que a família é algo belíssimo e extraordinariamente difícil. É preciso uma grande força interior, uma auto-consciência muito forte e um processo de busca profundo. Senão é muito difícil chegar a construir uma família, perdes-te e pode ser uma armadilha. É muito difícil deste ponto de vista.
Penso que o escritor sabe o que vai escrever, como um filho que vai nascer. Mas este livro foi uma surpresa muito particular. É um livro muito emocional porque não o esperava. Para Sempre” é o livro que não esperava escrever. Um dia compus uma personagem e pensei que era belíssimo. Escrevê-lo envolveu uma emoção poética. Quando acabei de o escrever, o último capítulo do livro revelou-se a outra parte de “Vai Aonde te Leva o Coração”, a parte masculina. Enquanto no primeiro tinha uma avó, uma mãe e uma neta; agora temos um avô, um pai e um neto. É o mesmo tipo de emoções, mas do ponto de vista masculino."Para Sempre”
Um homem, médico cardiologista, vive um luto há 15 anos, recordando constantemente a perda da mulher Nora e do filho David num acidente de automóvel. Após a morte do pai procurou refúgio na montanha e esta ligação à terra vai revelar-se regeneradora.
Chegou a dizer que “Para sempre” é o seu livro mais bonito. Porquê?
Porque falta a esperança. Conta a dor, a falta e a ausência com muita poesia e inspiração. O meu livro mais complexo é “A Alma do Mundo”, um livro muito duro, com pouquíssima esperança. Este livro é, ao mesmo tempo, um canto de amor pela vida.
Em que medida é autobiográfico?
Costumo dizer que se Dickens tivesse tido uma infância feliz não teria escrito o “David Copperfield”. O carácter de um escritor nunca será sempre no mesmo livro. Por outro lado, todos temos duas facetas: uma feminina, como Nora e Larissa – eu tenho um carácter muito feminino; outra masculina, como o Matteo, que é muito obsessivo e analítico.
Neste livro há um predomínio da análise sobre a narrativa? Como é o seu método de escrita?
Começo por escolher o tema, decido o que vou falar no argumento.
Depois, espero que me “chegue” uma história sobre este argumento. Esta é a parte mais difícil, porque sofres muito. Sabes o que queres mas não consegues alcançar. É como se houvesse um muro transparente, em que vejo o que quero mas ainda não chego lá. A parte mais misteriosa na escrita é sempre como se quebra este muro. O trabalho principal é conseguir ir para além da parede, quebrar este cenário.
Não faço um plano. Normalmente não sei o que vai acontecer no dia seguinte. É uma descoberta. De outra forma, seria muito aborrecido e aborreceria os leitores.
“Para Sempre” vendeu 300 mil exemplares só em Itália em cinco meses. Em Portugal, “Vai Aonde te Leva o Coração” vendeu mais de 154 mil cópias. Como explica este sucesso comercial?
Eu nasci em Trieste, no Nordeste de Itália. Na escola primária tive contacto com o esloveno e o alemão, além do italiano. Por este motivo, o meu italiano é muito polido, preciso e direto. É um facto que tenho uma linguagem muito direta, o que não quer dizer que seja básica. Quer dizer que é direta e é muito difícil escrever de maneira simples.
Em segundo lugar, sou muito lúcida na análise de sentimentos e até um pouco cruel. Isto é outro facto que ajuda a criar uma estrutura psicológica nos livros.
E depois, quando falamos de relações familiares, falamos de ligações de todos nós; todos temos um pai, uma mãe… É certamente um grande tabu contemporâneo falar de sentimentos profundos.
Por outro lado, há um factor misterioso, que não consigo explicar, porque não faço marketing, não vou às televisões e não faço nada para vender tantos exemplares.
Ainda conta histórias para levar as pessoas a questionarem-se sobre as suas vidas?
Sim, seguramente. Em “Para Sempre” é particularmente claro. Desde que eu era criança muito pequena interrogava-me sobre a morte, porque era uma menina muito sensível e via que as pessoas estavam mal. Este aspecto durante a guerra era muito forte. E ninguém falava da morte, o que gerava em mim uma grande angústia.
Penso que toda a minha literatura nasce desta pergunta que fiz a mim mesma: que faz sentido viver se temos de morrer? Ou seja, o que é a morte?
O modo como nos relacionamos com a morte é um pouco o tema de todos os meus livros, em que morre muita gente. É uma hecatombe. Creio que o sentido da vida do homem é responder a esta pergunta.
Um homem é um homem enquanto se questiona. O homem deve interrogar-se e não aceitar respostas já feitas; uma das coisas boas da crise é que permite colocarmo-nos perguntas.
É por isso que encara a literatura como a descoberta do homem?
Sim e principalmente nestes tempos super tecnológicos e visuais. Quando lemos um livro estamos sós, lemos o personagem com a mente e entendemo-lo com o coração.
O livro é como uma pequena reserva indígena em que podes continuar a ser uma personagem livre, criativa, imaginativa, contra este mundo visual e tecnológico que te oprime. Deste modo, é uma grande fonte de liberdade e de resistência neste mundo sempre cada vez mais anticívico. Creio que a literatura tem uma vertente ética.
Uma vida no campo
Aos 54 anos, a autora do livro italiano de maior sucesso no século XX, “Vai Aonde te Leva o Coração”, vive numa quinta, perto de Orvieto. Susanna Tamaro acompanha de perto as transformações da natureza. A escritora escolhe o mês de janeiro para ter encontros com os leitores de todo o mundo, porque este é o único em que abranda os cuidados com as plantas e os animais.
Para quem dá ênfase a temas como as emoções, o coração, a felicidade, acaba por não os conduzir para a vida familiar… É uma contradição?
Não sou casada, mas penso que a família é algo belíssimo e extraordinariamente difícil. É preciso uma grande força interior, uma auto-consciência muito forte e um processo de busca profundo. Senão é muito difícil chegar a construir uma família, perdes-te e pode ser uma armadilha. É muito difícil deste ponto de vista.