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Pintor David Lima leva Torre de Belém para sede da ONU

Pintor David Lima leva Torre de Belém para sede da ONU

Um quadro de David Levy Lima, um pintor cabo-verdiano a viver há quase 40 anos em Portugal, representando a Baía do Mindelo, em S. Vicente, com a réplica da Torre de Belém, foi comprado pela ONU para a sua sede em Nova Iorque.

Agência LUSA /
Eléctricos de Lisboa Lusa

Apesar de não ser muito conhecido pelo grande público, David Lima consegue viver exclusivamente da pintura, em Portugal. Neste momento, tem uma exposição no Centro Cultural Malaposta, até domingo, e prepara-se para abrir uma outra, a 15 de Junho, nos Açores, que marcará a inauguração de uma nova galeria em Ponta Delgada.

Um urso, pintado por ele, está actualmente exposto em Tóquio, no âmbito de uma exposição promovida pelas autoridades locais de Berlim (United Buddy Bears 2003), que convidaram 125 artistas de todo o mundo (Portugal foi representado por Gustavo Fernandes) e pediram a cada um deles que pintasse dois ursos, um maior e outro mais pequeno.

Berlim ficou depois com os pequenos e mandou os maiores dar uma volta pelo mundo, no âmbito de uma exposição de solidariedade, que já esteve também na Áustria e em Seul.

Curiosamente, num país em que se ouvem frequentemente queixas sobre as dificuldades dos artistas em sobreviverem com o produto da sua Arte, David Levy Lima viveu sempre da pintura, tal como os seus dois irmãos, Abraão e Miguel.

Abraão (cujos trabalhos estarão ao lado dos de David em Ponta Delgada) é descrito por Lima de Carvalho, o homem das Artes do Casino do Estoril, como sendo «hoje, praticamente único, no nosso país, na pintura de veleiros». Miguel prefere as aguarelas.

Todos eles fizeram o mesmo caminho, depois de nascerem numa família de 11 filhos da Ilha de Santo Antão, em Cabo Verde. A mãe, doméstica, cultivava um terreno que lhe enchia as panelas de milho e feijão, enquanto o pai trabalhava como desenhador e ia dando umas explicações.

David nasceu em 1945 e, em 1963, ganhou uma bolsa provincial (na prática um empréstimo que era preciso devolver depois de acabado o curso) e partiu para Lisboa. Chegou já a meio do ano lectivo, perdeu o ano e a bolsa - o que o levou a nunca mais querer bolsas de estudo em toda a vida.

Agarra então no lápis e nos pincéis para sobreviver.

«Comecei por fazer cópias de tudo, das figuras às paisagens», recorda. Depois, arranjou um emprego na Galeria Roberto, em S. Pedro do Estoril, localidade onde passou a viver até hoje.

«Um dia cansei-me, já não tinha nada para fazerÓ Foi a libertação, comecei a abrir a pincelada. Aí (em 1970/72) comecei já a fazer alguma coisaÓ», conta.

São essas pinceladas bem vincadas e largas que agora caracterizam os seus quadros, verdadeiras explosões de movimento e de cor mas onde o azul «do mar de Santo Antão» impera. Até 1974, fez apenas uma exposição, no Hotel Palácio, no Estoril. Numa visita a Madrid, descobriu Sorolla (um pintor espanhol contemporâneo do português Malhoa) e entusiasmou-se mais uma vez, renasceu.

Depois da independência de Cabo Verde, é "descoberto" pelo assessor cultural da Embaixada em Portugal, Gilberto Lopes, filho de Manuel Lopes, um dos fundadores do movimento literário "Claridade".

Regressa pela primeira vez a Cabo Verde e começa a pintar sobre as suas origens. É então que o azul do Mar de Santo Antão, em infindáveis matizes, entra na sua obra.

Hoje, no Centro Cultural Malaposta expõe desde motivos cabo- verdianos a portugueses. Pelas paredes, lado a lado, surgem os eléctricos de Lisboa e os barcos de S. Vicente, operários do vidro da Marinha Grande a par de músicos e vendedeiras cabo-verdianas, socalcos da ilha de Santo Antão em paralelo com as arribas da Costa de Cascais.

David Levy Lima faz também retratos. Já assinou os de vários de bastonários da Ordem de Advogados (Mário Raposo, Carlos Lança, Coelho Ribeiro), o do actual ministro da Saúde, António Correia de Campos ou o de João José Fraústo da Silva, do Centro Cultural de Belém.

Retratou também o antigo presidente chinês Iang Tse Ming e o actual presidente angolano, José Eduardo dos Santos.

«Gosto de trabalhar a figura», diz, a propósito, acrescentando: «Trata-se de captar um momento, resultante de vários momentos da vida de alguém... O retrato é a síntese de diversos momentos de alguém».

Fez várias exposições no Casino do Estoril, uma delas com os irmãos, intitulada «Três Irmãos, Três Pintores, Três Artistas».

Mostrou a sua Arte pelos quatro cantos do mundo, de Massachusetts (EUA) a Cabo Verde, de Macau e Pequim a Milão.

Trabalha duramente para poder fazer apenas pintura. «Tenho uma vida de trabalho intenso mas, quando estou a trabalhar, não me interessa quanto vou facturar», explica o pintor, casado com uma portuguesa.

Durante anos, não soube o que eram férias. Confessa que o que teria hoje mais gosto em fazer era sentar-se, «num sítio qualquer, e descansar».

Os seus quadros oscilam ente as centenas e os milhares de euros, mas David Levy Lima tem dificuldade em explicar por palavras o que é Arte: «Para mim, é um estádio em que já nos transcendemos».

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