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Pintora Graça Morais inaugura antológica em Algés e alerta para indiferença ao sofrimento humano

Pintora Graça Morais inaugura antológica em Algés e alerta para indiferença ao sofrimento humano

A pintora Graça Morais, cuja obra tem sido inspirada no mundo contemporâneo, mostrou-se hoje "profundamente chocada" com a postura de líderes mundiais "como [Donald] Trump", indiferentes ao sofrimento humano, criticando a procura constante do lucro pessoal.

Lusa /

A artista transmontana, cuja obra é reconhecida pela reflexão constante sobre a condição humana, falava aos jornalistas durante uma visita à exposição "Graça Morais. Uma Antologia", que é inaugurada no sábado, às 16:00, no Palácio Anjos, em Algés, concelho de Oeiras, com mais de 170 obras em desenho e pintura.

"Como artista nunca me senti tão assustada com a desfaçatez, com a mentira, com a fanfarronice e a falta de respeito que alguns lideres mundiais estão a oferecer ao mundo", comentou Graça Morais sobre os acontecimentos que têm marcado a política internacional.

A pintora criticou duramente a "cultura de impunidade" e a gestão do poder distanciada da empatia, defendendo, por outro lado, que "a arte deve servir como testemunho da violência e da injustiça", lamentando a atual indiferença face às crises humanitárias.

"Estou a falar de [Donald] Trump, por exemplo. O que está a fazer ao mundo é a maior aberração: só lhe interessa o petróleo, o lucro, o luxo e a riqueza, não lhe interessam as crianças que são assassinadas, as mais inocentes", lamentou.

O que mais preocupa a pintora transmontana de 77 anos é concluir que esta postura de alguns líderes mundiais "sempre sucedeu, mas agora acontece de uma forma tão despudorada", considerando-a "uma mudança radical".

No seu percurso artístico, Graça Morais tem retratado o horror e a verdade do tempo atual, nomeadamente temas universais e inquietantes, como o medo, a solidão, a violência sobre as mulheres, a morte e o sofrimento humano decorrente de guerras e migrações.

Nesta exposição, Graça Morais apresenta um conjunto de trabalhos preparatórios para o mural com o qual o município de Oeiras vai homenagear os presos políticos da Prisão de Caxias, durante a ditadura, uma obra com cerca de seis metros de altura e 20 metros de comprimento que ficará instalada junto ao Estabelecimento Prisional de Caxias.

"As obras de arte pública exigem muito mais de mim do que aquilo que eu faço no meu atelier, sem pressões, embora ninguém me tenha pressionado em nada. Recebi o convite do presidente [da Câmara de Oeiras] Isaltino [Morais], que já me pedia há algum tempo. Eu sinto sempre uma grande responsabilidade em fazer uma obra pública porque vai ser vista por muita gente, e tenho a obrigação de oferecer às pessoas mais do que inquietações, uma certa felicidade", justificou.

Graça Morais disse que a obra está atualmente a ser executada na fábrica Viúva Lamego, e será colocada num espaço ajardinado, com a inscrição dos nomes de 10 mil presos políticos: "A arte faz falta, ajuda-nos a entrar numa dimensão extraterrena", disse a pintora, esperando que o monumento de homenagem "seja um lugar de encontro e de reflexão" sobre a importância da luta pelos valores democráticos.

Nesta exposição -- a sua maior antológica apresentada na capital, segundo o curador António Meireles - são evocados temas centrais da sua criação desde a década de 1970 até ao presente: a relação com a terra e os seus frutos, as mulheres, a caça, a memória do lugar como espaço de cultura e, nos anos mais recentes, a atenção dada às metamorfoses do ser humano, enquanto vítima e algoz, cuidador e agressor.

Além da sala com o projeto do painel de homenagem aos presos políticos de Caxias, o Palácio dos Anjos foi preenchido com numerosas obras em que as mulheres são também o foco, umas vítimas de violência doméstica, outras em tarefas singelas de trabalho no campo, outras em que retrata amigos ou conhecidos de infância, na aldeia de Vieiro, onde nasceu, em Trás-os-Montes.

"Nem todos os artistas pintam cenas trágicas, mas o papel dos artistas é dizer a verdade. A arte traz-nos aquela dimensão da vida em que o ser humano não pode mentir: o grande artista não é aquele que cria só para ganhar dinheiro", opinou Graça Morais ladeada pelas suas obras.

A artista considera a sua obra, na globalidade, "muito auto-biográfica" e, ao mesmo tempo, uma forma de se "salvar através dela".

Graça Morais "esteve sempre muito atenta ao mundo global, e o seu trabalho tem um lado muito humanista", disse à agência Lusa António Meireles, responsável pela curadoria da mostra, em conjunto com a historiadora de arte Emília Ferreira.

"Todas estas obras não são panfletárias, antes uma denúncia muito engajada do que acontece à nossa volta, mas também da beleza e simplicidade da natureza", considerou o também diretor do Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, em Bragança.

Formada em Pintura pela Escola Superior de Belas Artes do Porto, a artista realizou mais de uma centena de exposições no país e no estrangeiro, onde a sua obra está representada em coleções de arte contemporânea, desde a Fundação Calouste Gulbenkian ao Museu de Arte Moderna de São Paulo, no Brasil.

Graça Morais criou cenografias para teatro, ilustrou dezenas de obras de escritores e poetas portugueses - como José Saramago, Sophia de Mello Breyner Andresen, Agustina Bessa-Luís, Miguel Torga e Manuel António Pina - e é autora de painéis de azulejos em Lisboa, Bragança, Vila Real, Porto e do Metro de Moscovo, entre outras cidades.

A pintora, distinguida em 2023 com o Prémio Vasco Graça Moura -- Cidadania Cultural, já foi agraciada com o Grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, com a Medalha de Mérito Cultural e o doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.

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