EM DIRETO
Guerra no Médio Oriente. Acompanhe aqui, ao minuto, a evolução do conflito

Preservar legado e função da "máquina teatral" marcam 30 anos do Teatro da Garagem

Preservar legado e função da "máquina teatral" marcam 30 anos do Teatro da Garagem

Porto, 24 out (Lusa) -- O Teatro da Garagem cumpre 30 anos de existência, em 2019, e começa a olhar para o "legado" que foi construindo e que quer passar a gerações mais jovens, mantendo o papel da "máquina teatral complexa e de conhecimento".

Lusa /

Fundada em 1989, a companhia instalada em Lisboa criou, desde então, 94 peças de teatro, estreadas por todo o país e também no estrangeiro, como "Black Stars", apresentada este ano no Spazio Teatro No`hma, em Milão, tendo a grande maioria dos textos e do trabalho de encenação passado por Carlos J. Pessoa, da equipa fundadora do projeto.

Maria João Vicente, que hoje também dirige a companhia, não chegou à Garagem como atriz, mas como ajudante "nas bilheteiras e nas trocas de roupa", na produção "Café Magnético", a quarta do grupo, corria o ano de 1993.

Como atriz, estreou-se em "Gesta Marítima", apresentada no Teatro Universitário do Porto, onde tinha estado antes de chegar a Lisboa. Desde então, continuou na companhia na qual encontrou "companheiros", por um tempo que viveram "juntos, íntimo, intenso e que faz sentido", revelou à Lusa.

"Juntei-me a este conjunto de pessoas, e muitas já saíram e fundaram outras estruturas. A Garagem é um organismo vivo. Eu e o Carlos somos as pessoas mais antigas na casa, mas depois há pelo menos três gerações de criativos, produtores e técnicos", comentou.

O "modo de estar e pensar o teatro" é particular do grupo, que explora uma "ideia democrática de diversidade", aliada a "uma pulsão muito forte do Carlos [J. Pessoa]", com "urgência e preocupações sociais".

"O que me motiva a continuar a fazer teatro é o fascínio que tenho pelo teatro enquanto máquina de conhecimento. (...). É uma máquina extraordinariamente complexa. Modestamente, na Garagem, tento colocar essa máquina de conhecimento muito diversa numa ideia de serviço", explicou à Lusa Carlos J. Pessoa, à margem dos ensaios de "Display", que se estreia hoje no Teatro Carlos Alberto, no Porto.

O que interessa, então, é "o serviço público, utilizar a máquina para dar uma resposta teatral às questões que vão sendo colocadas, e a cada momento são desafios diferentes, que implicam respostas diferentes".

Enquanto no início do grupo a questão da autoria, e da escrita de textos em português, era mais premente, "hoje em dia isso é uma moda e ninguém faz repertório", e o tema sobre o qual Pessoa mais se debruça atualmente é a "autoridade autoritarista", uma reflexão sobre o papel do teatro como questionamento da autoridade, na política como nas artes.

Olhar para "estas derivas delirantes e perigosas, mas não tão perigosas porque a história nunca se repete da mesma maneira", é um dos objetivos presentes, e o dramaturgo e encenador está a preparar um espetáculo chamado "ANA", sigla para "Autoridade Não Autoritária".

Os 30 anos são para ser comemorados em 2019, em particular com um espetáculo sobre "o tema da aceleração", criado com os três clubes de teatro que dinamizam na freguesia do Castelo, em Lisboa.

"Gosto muito daquela comunidade em que estamos. Vou trabalhar com miúdos dos oito aos 80 que fazem parte dos clubes, cerca de 50 pessoas. (...) Vou trabalhar com eles e tentar fazer um espetáculo com 60 pessoas, e eles nem cabem no [Teatro] Taborda. Será um dos espetáculos âncora de 2019, celebrando os 30 anos com as pessoas, com elas, por elas e para elas", atirou.

A ideia, agora, "é a do legado", lembrando o caso da extinção da Cornucópia, de Luís Miguel Cintra e Cristina Reis, que deixou o teatro de repertório desfalcado e é "um preço muito grande a pagar".

Assim, há um primeiro processo de publicação dos textos que Carlos J. Pessoa foi criando ao longo dos anos, "não por uma questão autoral mas para deixar um suporte material", e depois "ir delegar a pouco e pouco e formar novas gerações", passando-lhes o "saber fazer" e permitindo a transmissão de conhecimentos numa "escola informal", ao lado das escolas formais.

Como professor na Escola Superior de Teatro e Cinema, Carlos J. Pessoa vê a "vivência das companhias" como uma forma "orgânica e natural de passar legados intangíveis" de qualidade, e esse é importante que "não se perca".

"Já passaram por esta companhia centenas e centenas de criadores, técnicos e produtores. E a companhia mantém-se. Há um legado e um modo de fazer e estar no teatro que ultrapassa as pessoas que aqui passam", resume Maria João Vicente.

A "escola" sempre esteve presente no trabalho da estrutura, refletiu a atriz, o que é uma "garantia de estabilidade" e aprendizagem pelo convívio geracional.

Tópicos
PUB