Primeiro romance em chinês premiado por Prémio Booker "não é publicável" na China - autora
"Taiwan Travelogue", o primeiro romance escrito em chinês a conquistar o Prémio Internacional Booker de literatura traduzida, não pode ser lido na China porque não passaria na censura, diz a autora, a taiwanesa Yang Shuang-zi.
Numa entrevista à agência de notícias EFE em Londres, onde recebeu o galardão na terça-feira, Yang descreveu que a obra se centra numa japonesa de classe alta que, em 1938, decide viajar por Taiwan, na altura ocupado pelo Japão. Ao longo dessa viagem, descobre com fascínio a gastronomia local e apaixona-se pela guia, uma jovem que esconde um segredo revelado apenas no final do livro.
A combinação de temas --- uma relação lésbica, uma protagonista japonesa, o passado colonial sem ser retratado como trauma, além da própria identidade taiwanesa --- torna o livro "não publicável" na China, considerou Yang.
Ainda assim, o impacto da atribuição do Prémio Internacional Booker (The International Booker Prize) chegou à China comunista. Um editor já contactou os agentes de Yang para eventual publicação, referiu a própria.
A autora apontou, porém, que o livro já circula clandestinamente no país e recebeu críticas indiretas de todo o tipo, entre elogios e condescendência, sem faltarem insultos à taiwanesa como "bastarda" ou "escória dos japoneses".
Em "Taiwan Travelogue" há uma reflexão sobre o passado colonial e a ocupação japonesa da ilha (1895-1945), que evita o maniqueísmo mas aprofunda como o colonialismo afeta também as relações pessoais, marcadas pela desigualdade.
Apesar das diferenças de classe, idade e estatuto político, as duas protagonistas desenvolvem uma relação sentimental e partilham o prazer da gastronomia da ilha.
Sobre a publicação da obra no Japão, a autora garante que foi recebido "com críticas excelentes".
Yang sublinhou que deve muito do sucesso à tradução de Lin King, taiwanesa radicada nos Estados Unidos, que acrescentou notas de rodapé para explicar aspetos culturais e linguísticos --- prática pouco comum na ficção ocidental e, por isso, também arriscada.
O Prémio Internacional Booker distingue igualmente os tradutores e reparte o prémio de 50 mil libras (59 mil euros) em partes iguais entre autor e tradutor.
Desde que foi anunciado na terça-feira o vencedor - que segundo disseram fontes editoriais à EFE "não era das principais escolhas previstas" -, o livro esgotou em poucas horas nas livrarias Waterstones, em Londres, obrigando os funcionários a encaminhar leitores para concorrentes.
Publicado em 2020, "Taiwan Travelogue" já tinha vencido em 2024 um prémio de literatura traduzida nos Estados Unidos. Ainda não está disponível nem português nem em espanhol, mas conta com versões em alemão, italiano e neerlandês, entre outras línguas.
Casada com uma mulher em Taiwan, Yang diz não dar importância ao facto de vários meios de comunicação social a apelidarem de "autora queer". No entanto, diz preferir ser reconhecida simplesmente como autora de literatura.
Quanto à identidade nacional, não admite concessões: usa na lapela um pin com a inscrição "Taiwan Team", tal como a tradutora, que explica: "Já que não nos deixam levar o nome de Taiwan às competições desportivas, mostramos sempre que o podemos fazer em todo o tipo de fóruns".