Projeto sobre uma das mais ameaçadas comunidades indígenas da América Latina estreia-se no FITEI
O projeto teatral "Tres Pozos", história de um casal da comunidade indígena Wichi, uma das mais ameaçadas da América Latina, estreia-se em Portugal a 16 de maio, no Teatro Rivoli, no Porto, no âmbito do FITEI.
"Três Pozos", que chega a Portugal através do Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica (FITEI), centra-se em Amanda e Pedro, casal Wichi que procura o filho desaparecido na Floresta Gran Chaco, na Argentina, abordando a violência a que a comunidade continua sujeita: o racismo, a desflorestação, a exploração mineira, o tráfico de droga. Numa palavra: o genocídio.
Em entrevista telefónica à agência Lusa, o dramaturgo Miguel Oyarzun, responsável pelo projeto teatral que envolveu habitantes locais, explica que "Tres Pozos" é sobre a comunidade indígena Wichi, alvo de "genocídio ao longo dos séculos, primeiro pelo colonialismo espanhol, depois pelo exército argentino que matou dezenas de milhares de indígenas".
Oyarzum recorda que alguns membros da comunidade chegaram mesmo a ser "levados para o Museu de Ciências Naturais de La Plata, onde ficaram em exposição como peças vivas".
Atualmente, "grupos de empresas multinacionais do Canadá, Estados Unidos, Europa e Argentina estão a destruir a floresta, a exportar a madeira e a plantar soja nos terrenos" da comunidade.
Os Wichi são um povo indígena que vive há centenas de anos no Gran Chaco, a segunda maior área florestal da América e que, tal como muitos povos indígenas em todo o mundo, estão ameaçados pelo avanço da desflorestação e do extrativismo mineiro, que destruíram os seus meios de subsistência.
Desde a época colonial, os Wichi têm prevalecido no seu território, resistindo pacificamente.
A obra de ficção é narrada através de cenas cinematográficas filmadas no território Wichi, cenas teatrais reconstruídas em palco, e debates que marcaram o processo criativo.
"Pedro Rey, um indígena Wichi de 45 anos, procura o seu filho, Andrés Fermín, que está desaparecido. Amanda Solano, sua mulher, uma professora bilingue desempregada, trabalha a colocar cercas nos campos que se estão a expandir após a desflorestação. Amanda acredita que o filho está morto e quer deixar a aldeia. Pedro viaja até uma casa de recuperação de dependentes de drogas gerida por uma ONG para procurar o filho que não está lá, mas encontra Julián, outro jovem da aldeia e acolhe-o em casa, mas alguns dias depois, Julián foge e Amanda encontra-o morto na floresta. A aldeia junta-se ao seu funeral e Amanda parte com Pedro numa viagem para Resistencia, a terra onde encontrarão o seu filho", lê-se no dossiê de imprensa.
O espetáculo "Tres Pozos" tenta revelar o que se passa naquele "sítio sagrado" na Floresta Gran Chaco, onde a comunidade indígena Wichi, composta atualmente por cerca de 80 mil pessoas, enfrenta a desflorestação, o flagelo das drogas e o "racismo estrutural dos homens bancos", acrescentou Miguel Oyarzun.
Segundo o dramaturgo, que passou cerca de seis anos a conviver com a comunidade Wichi, um dos maiores flagelos atuais que a comunidade indígena enfrenta é o consumo de drogas (mistura de cocaína e heroína) por parte da população masculina mais jovem.
O projeto teatral inicial teve de ser alterado, porque depois de anos a escrever, ensaiar e filmar a peça com Amanda, Pedro e Andrés, três elementos da comunidade indígena Wichi de Tres Pozos, uma das intérpretes, Amanda, tradutora e professora bilingue de Wichi, morreu de uma apendicite "três semanas antes da estreia" em Buenos Aires, por não ter recebido os cuidados médicos de que precisava, recordou Miguel Oryarzun, referindo que o espetáculo teve de ser reformulado.
As ausências dos corpos dos três intérpretes são retratadas com três holofotes no palco, imagens de filme em que atuaram, áudios com as suas vozes, debates sobre o processo de criação, textos em Wichi e cenas teatrais.
Um sino, representado por um pedaço de viga de comboio, soa no início e no fim da peça. O sino é utilizado pelos Wichi para resolver conflitos e procurar soluções conjuntas. Este sino torna-se um convite ao público para se confrontar com a destruição local e global da qual fazemos parte.
A estreia nacional de "Tres Pozos" insere-se na 49.ª edição do FITEI -- Festival Internacional de Expressão Ibérica -, que regressa ao Porto, Matosinhos, Gaia e Viana do Castelo entre os dias 13 e 24 de maio, para apresentar 16 espetáculos, entre os quais a peça "Tres Pozos", que estará em cena no Rivoli, sábado e domingo, dias 16 e 17 de maio.
Este ano, sob o tema "Colapso e Esperança", o FITEI arranca com o espetáculo "Suplicantes", a partir de Ésquilo, na abertura a 13 de maio (com repetição no dia seguinte), e que vai ser uma espécie de "mergulho" na Antiguidade Grega, com Sara Barros Leitão a reescrever "As Suplicantes", de Ésquilo.
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