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Publicação de inéditos de Luiz Pacheco esperada para 2026 no âmbito do centenário do escritor

Publicação de inéditos de Luiz Pacheco esperada para 2026 no âmbito do centenário do escritor

O trabalho em torno do espólio inédito do escritor Luiz Pacheco, nomeadamente os seus diários, ainda por transcrever e publicar, é um dos "aspectos importantes" na comemoração do centenário do escritor, disse à Lusa o académico Rui Sousa.

Lusa /
RTP

Estes documentos, preservados em parte pela família do autor, revelam uma faceta mais íntima e original, e espera-se que alguns desses materiais inéditos sejam publicados já em 2026, ajudando a completar o retrato literário de Luiz Pacheco, revelou à Lusa o investigador, um dos promotores das iniciativas.

A programação do centenário de Luiz Pacheco foi desenhada a partir de dois projetos de investigação promovidos pelo Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (CLEPUL), dos quais Rui Sousa é o principal responsável e promotor.

Um dos projetos, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), intitula-se "Surrealismo-Abjeccionismo em Portugal. Da folha volante ao mundo digital", e visa divulgar o espólio do escritor numa base de dados digital e reeditá-lo, bem como publicar uma antologia de textos representativos da sua obra.

O segundo, mais exclusivamente dedicado ao centenário, foi designado "Luiz Pacheco Passeia por Todo o Papel (1925-2025)", ecoando um título do autor, e agrega exposições, encontros, leituras, um pouco por todo o país, mais o "Congresso Centenário Luiz Pacheco (1925-2025)", a realizar em Setúbal e Palmela, nos dias 22 a 24 de outubro.

Rui Sousa assinalou que Luiz Pacheco é uma "figura capital da literatura portuguesa do século XX", "tanto como autor, editor e crítico literário", e lembra que, como editor, foi responsável pela publicação de alguns dos nomes mais importantes da literatura portuguesa, incluindo Mário Cesariny, Herberto Helder, António Maria Lisboa, Natália Correia, Vergílio Ferreira e Hélia Correia.

"É significativo, por exemplo, que Luiz Pacheco tenha sido o editor de dois livros pioneiros sobre Pessoa, `Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos`, de Mário Cesariny, o primeiro livro a dialogar intertextualmente e parodicamente com o mito Pessoa, e `Fernando Pessoa - Poeta da Hora Absurda`, de Mário Sacramento", sublinha.

Como escritor, a sua obra é marcada pela originalidade e pelo desafio às convenções literárias, de que é exemplo "Exercícios de Estilo", um dos marcos da prosa em língua portuguesa, conjunto de textos de natureza autobiográfica que exemplificam a pluralidade de facetas do autor.

O "Diário Remendado (1971-1975)", por sua vez, é um "objeto sem equivalente em toda a literatura portuguesa", que explora "uma prática existencial de uma coerência invulgar" e com uma "vitalidade provocatória", que ainda hoje desafia a literatura contemporânea.

Como crítico literário, Luiz Pacheco é reconhecido pela sua crítica de "grande coerência", que descobriu e ajudou a promover a obra de escritores que, mais tarde, se tornariam figuras centrais na literatura portuguesa, como José Saramago, tendo ainda contribuído para a definição de termos literários como "libertino" e "escritor maldito", que se tornaram conceitos amplamente reconhecidos na crítica literária.

Luiz Pacheco também foi tradutor de escritores como Anton Tchekhov, Jean Schuster e Gérard Legrand, Françoise Mallet-Joris, Remi Dubois, Voltaire ("Dicionário Filosófico", não creditado).

Rui Sousa explica que as iniciativas em curso não só visam revalorizar a obra de Luiz Pacheco, mas também corrigir a imagem marginalizada que, durante anos, obscureceu o seu real valor, "muito por causa de uma certa mitologia que se foi adensando e que se converteu numa espécie de folclore, que contribuiu para edificar um boneco representativo".

Luiz Pacheco nasceu em 07 de maio de 1925, em Lisboa, e morreu no Montijo, aos 82 anos, em 05 de janeiro de 2008.

De "Carta Sincera a José Gomes Ferreira", de 1959, a "Cartas ao Léu", em 2006, a sua obra é marcada por títulos como "Comunidade", "Exercícios de Estilo", "Crítica de Circunstância", "O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor", "Literatura Comestível", "Pacheco versus Cesariny", "Textos Malditos", "Textos do Barro", "Textos Sadinos", "Textos de Guerrilha", "Torga: a Minha Homenagem", "O Caso das Criancinhas Desaparecidas", "O Teodolito e a Velha Casa", "Cartas na Mesa: 1966-1996", "O Uivo do Coiote", "Prazo de validade", "Uma admirável droga", "Os doutores, a salvação e o Menino Jesus", "Raio de Luar".

Em 1980, a antiga editora Contexto (1980-2001) fez uma edição especial de "Comunidade", com desenhos de Teresa Dias Coelho.

Sobre Luiz Pacheco destacam-se, entre outras obras, "Puta que os pariu!: A Biografia de Luiz Pacheco", de João Pedro George (Tinta-da-China, 2011), e "O firmamento é negro e não azul: A vida de Luiz Pacheco", de António Cândido Franco (Quetzal, 2022).

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