Rato Mickey e Andy Warhol integram o "olhar sobre Kafka" lançado na exposição "Oklahoma"
Almada, 12 Mar (Lusa) - Um deserto habitado por reinventados ícones da cultura americana, de Andy Warhol ao Rato Mickey, sustenta o "olhar sobre Kafka" lançado a partir de sábado pelo pintor João Ribeiro no Teatro Municipal de Almada, na exposição "Oklahoma".
Inspirada no último capítulo da obra "Amerika", o qual lhe empresta o nome, a pintura "O Grande Teatro ao Ar Livre de Oklahoma" é praticamente a única peça do certame e constitui o momento inicial de uma série de três exposições com curadoria de Mário Caeiro, sob a designação de "Trilogia Política".
No conjunto de telas, apresentado por ocasião da estreia da peça "Dois Homens" no mesmo teatro, João Ribeiro, autor do espaço cénico, empregou uma técnica mista de "colagem, óleo, suor, sangue e lágrimas" para, tal como naquele texto teatral de José Vieira Mendes, fazer um exercício sobre a própria linguagem - neste caso, a picotórica.
"O que fiz foi pegar em imagens de alguns dos ícones da cultura americana e espalhá-los neste deserto que será Oklahoma, mas que pode ser um outro deserto qualquer. Este é um dos desertos possíveis", explica à Lusa.
Entre as figuras evocadas contam-se, por exemplo, uma estátua da liberdade com o rosto de Einstein, notas com a cara do Rato Mickey em vez da de George Washington, um Andy Warhol como "grande charlatão" e até uma fotografia do próprio autor, que conta 25 anos de carreira.
Mais do um motivo para tentar perceber Franz Kafka, diz João Ribeiro, o trabalho poderá mesmo incentivar o público a pensar nos seus próprios dilemas e desafios.
"Kafka está sempre presente no nosso dia-a-dia: quando a televisão avaria, telefonamos para nos ajudarem e vão sucessivamente passando de pessoa para pessoa sem que se resolva nada, nos becos sem saída do próprio mundo, na questão da culpa, na questão da impaciência. Kafka é tudo isso, no fundo fala sobre o Homem e as suas questões", aponta o pintor.
A exposição inclui ainda algumas "sobras do deserto" - pequenas telas, concebidas e carimbadas como "souvenirs" ao estilo de postais, mas que "são tudo menos Oklahoma", já que mostram desde cenários como a Trafaria ou Bruxelas a rostos, de que é exemplo o do ministro das Obras Públicas, Mário Lino.
Sábado marca também a estreia de João Ribeiro como autor de um cenário para teatro, um escritório que se vai fechando ao longo do monólogo de um homem (interpretado por Ivo Alexandre) mergulhado em papéis e na sua própria burocracia, revelando uma incapacidade de agir.
Ao longo da encenação de Carlos Pimenta, "Dois Homens", escrita por José Vieira Mendes a partir de diversos textos de Kafka e presente em Almada até 05 de Abril, o actor vai construindo o escritório até se encontrar fechado no interior, já fora do alcance do olhar do público.
A instalação "Oklahoma" vai estar patente até 17 de Maio, de terça-feira a domingo, entre as 16:00 e as 20:00.
Nos dias do espectáculo "Dois Homens" há também um horário nocturno, das 20:30 às 23:00.
ROC.