Romances inéditos de Tatiana Tibuleac e Daniela Krien abrem coleção de verão da Alfaguara

Romances inéditos de Tatiana Tibuleac e Daniela Krien abrem coleção de verão da Alfaguara

As estreias em Portugal da moldava Tatiana Tibuleac, com "O verão em que a minha mãe teve os olhos verdes", e da alemã Daniela Krien, com "A minha terceira vida", inauguram uma nova coleção anual de verão da Alfaguara.

Lusa / Adicionar como fonte informativa
Foto: John Michael Thomson - Unsplash

Designada Alfaguara de Verão, a coleção passa a fazer parte do plano editorial da chancela, prevendo a publicação, em cada época estival, de dois romances inéditos em Portugal, para assinalar a estação e dar a conhecer novas vozes da literatura contemporânea, anunciou a editora, em comunicado.

Trata-se de um projeto que pretende associar a leitura ao "espírito de descoberta" característico do verão, privilegiando vozes relevantes da literatura moderna e "obras de forte impacto literário, capazes de ampliar as fronteiras da ficção", especifica a nota.

Esta nova coleção distingue-se também graficamente da restante produção da Alfaguara, por abandonar a tradicional moldura preta das capas e incorporar uma identidade visual marcada por cores e luminosidade associadas ao verão, sem alterar a linha editorial.

A diretora do Grupo Penguin Random House Portugal, Clara Capitão, considera que os romances "O verão em que a minha mãe teve os olhos verdes" e "A minha terceira vida" formam "um belo dueto" para inaugurar esta iniciativa.

Publicado originalmente em 2017 e distinguido com vários prémios internacionais -- como o Prémio Cálamo, o Prémio Observator Cultural e o Prémio da União de Escritores da Moldávia -, "O verão em que a minha mãe teve os olhos verdes" marca a estreia em Portugal de Tatiana Tibuleac, escritora moldava residente em Paris.

O romance acompanha Aleksy, um pintor que procura ultrapassar um bloqueio criativo, revisitando -- a conselho do seu psiquiatra - o último verão passado com a mãe, numa pequena localidade costeira do norte de França.

Nesse regresso às memórias de vários anos atrás, o protagonista vê-se obrigado a enfrentar emoções que o continuam a marcar: a tristeza pela morte da irmã mais nova, o ressentimento em relação à mãe, a doença que a consome e a transformação da relação entre ambos.

Num registo que combina mágoa, crueldade verbal e humor negro, ditado pela voz de Aleksy, o narrador da história, a narrativa acompanha mãe e filho ao longo de três meses, que, confrontados com a proximidade da morte, abandonam uma relação marcada pelo conflito para procurarem uma forma de reconciliação.

Aleksy começa por retratar a mãe de forma profundamente hostil, como "baixa e gorda, estúpida e feia" e "a mãe mais inútil que jamais existira", para mais tarde reconhecer nela a figura "que aprendeu a amar", como assinala Clara Capitão.

O segundo título da coleção, "A minha terceira vida", constitui igualmente a primeira publicação em Portugal de Daniela Krien, uma das vozes mais reconhecidas da literatura alemã contemporânea, segundo a editora.

A protagonista da história, Linda, perde a filha adolescente de forma trágica e rompe com a vida que conhecia: afasta-se do marido e dos amigos, abandona o emprego e instala-se isolada numa aldeia, onde passa a dedicar-se à horta, às ovelhas, às galinhas e à cadela.

Nesse novo quotidiano, mantém apenas o contacto com um casal de vizinhos e com uma mulher da sua idade, mãe de uma rapariga com autismo, enquanto preserva a memória da filha desaparecida.

A narrativa altera-se quando o marido, de quem se tinha afastado, adoece e ela se vê forçada a regressar para ficar a seu lado.

Na nota da edição portuguesa, a editora Madalena Alfaia escreve que a protagonista "ousa forjar para si mesma uma terceira vida: não um desvio ou uma declinação da sua existência de todos os dias, mas sim a prática radical de transformar por completo cada um dos traços que outrora a definiam".

Questionando se esse poder de recomeçar "será, afinal, um poder exclusivo da ficção", Madalena Alfaia destaca que o romance explora a possibilidade de reconstrução depois da perda e "as mil faces da inquietação humana".

Na apresentação da coleção, a editora afirma que, apesar da alteração da imagem gráfica, o propósito editorial permanece inalterado. "Prosseguimos em busca de uma narrativa do mundo através do seu instrumento mais poderoso: a literatura".

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