Sérgio Tréfaut filmou "Treblinka", o horror do Holocausto através da voz e da palavra
Lisboa, 23 abr (Lusa) - O realizador Sérgio Tréfaut estreia, na terça-feira, no IndieLisboa, o filme "Treblinka", no qual aborda a representação do horror do Holocausto, recorrendo sobretudo à voz e à palavra, por oposição a uma banalização da imagem.
"Treblinka", um dos quatro filmes da competição nacional de longas-metragens do festival IndieLisboa, foi rodado quase na íntegra a bordo de comboios, entre a Rússia, a Ucrânia e a Polónia, para lembrar que foi de comboio que os judeus foram levados para os campos de concentração e extermínio, durante a II Guerra Mundial.
É em viagem que este filme acontece, com a participação de um pequeno grupo de atores, entre os quais Isabel Ruth e Kirill Kashlikov, e onde prevalece sobretudo o texto, dito e ilustrado pelo reflexo deles nas janelas do comboio, como se fossem fantasmas de todas as vítimas.
"O horror está no texto e não na imagem, porque a imagem do horror se banalizou. O filme remete para a questão de como representar o horror", contou Sérgio Tréfaut à agência Lusa.
Para o filme, uma obra em aberto, que foi sendo construída ao longo de três anos, Sérgio Tréfaut cruzou depoimentos e leituras sobre o Holocausto, nomeadamente o livro de memórias "Je suis le dernier juif", de Chil Rajchman.
"Treblinka" começou por ser um projeto de documentário sobre uma sobrevivente do Holocausto, a realizadora francesa Marceline Loridan-Ivens, hoje com 88 anos e viúva do documentarista Joris Ivens, mas acabou por se tornar num `filme-ensaio` mais atual sobre horror e sobrevivência.
Sérgio Tréfaut sublinhou que o filme é uma homenagem a Marceline Loridan-Ivens, mas também podia ser dos refugiados do Ruanda ou da Síria. "É um universo atual de pessoas que trazem consigo aquilo que não podemos entender".
Atualmente a rodar uma adaptação de "Seara de vento", romance de Manuel da Fonseca, Tréfaut volta a estar em competição no IndieLisboa, o festival que o distinguiu em 2014 pelo documentário "Alentejo, Alentejo", e pelo documentário "Lisboetas", em 2004.
"Treblinka" foi também selecionado para o festival de cinema documental Visions du Réel, que hoje termina, na Suíça.
A competição portuguesa de longas-metragens do IndieLisboa integra ainda "Estive em Lisboa e lembrei de você", de José Barahona, "O lugar que ocupas", de Pedro Filipe Marques, e "Paul", de Marcelo Felix.
"Estive em Lisboa e lembrei de você" é um filme que vive na fronteira entre a ficção e o documentário, sobre emigração brasileira em Portugal, a partir de um livro homónimo do escritor Luiz Ruffato.
"O lugar que ocupas", uma reflexão sobre teatro e representação, é a primeira longa-metragem de Pedro Filipe Marques, conhecido sobretudo como montador de Pedro Costa e na trilogia "As mil e uma noites", de Miguel Gomes.
A ficção experimental "Paul", um filme dentro de um filme, é também a primeira longa-metragem de Marcelo Felix, depois da produção "A arca do Éden".
O 13.º IndieLisboa começou no dia 20 e termina no dia 01 de maio.