Serralves inaugura primeira mostra a solo da artista norte-americana Jenny Holzer em Portugal
O Museu de Serralves, no Porto, inaugura hoje a primeira exposição a solo, em Portugal, da consagrada artista norte-americana Jenny Holzer, "Wrong Answers", em que se destaca a utilização da linguagem como ferramenta de liberdade e expressão política.
A abrir a exposição "Jenny Holzer: Wrong Answers", logo de rompante, na primeira galeria, vê-se o presidente dos EUA, Donald Trump, ou melhor, uma imagem de Donald Trump que remete para o surrealismo do pintor belga René Magritte, autor do quadro "Ceci n`est pas une Pipe", demonstrando que o que se vê é só a imagem de um objeto, mas não a sua realidade, como explicou Philipe Vergne, durante a visita de imprensa à exposição
É também nesta primeira parte da mostra que se encontram centenas de frases curtas inspiradoras de luta pela liberdade.
Com Jenny Holzer, é a linguagem a ser usada como uma sucessão de verdadeiros murros no estômago: há "Truims" (1977-79) ("Truísmos"), afirmações curtas que evidenciam a construção social de crenças, costumes e verdades; "Inflammatory Essays" (1979-82), declarações provocadoras influenciadas pelas leituras de manifestos políticos, religiosos; "Living" (1980-82), observações, orientações e advertências discretas escritas num tom direto, entre outras categorias.
"A liberdade, Ponto! Tens tanto medo que queres prender toda a gente. São cães raivosos? Andam à caça para matar? A lei e a ordem são solução? Nem pensar. O que provocou esta situação? Falta de liberdade. E agora deixa as pessoas satisfazerem as suas necessidades. A liberdade é construtiva ou destrutiva? A resposta é óbvia. Pessoas livres são pessoas boas. Produtivas. A libertação é perigosa? Só quando tarda. As pessoas não nascem furiosas, nem desvairadas. Quando castigas e humilhas, causas o que temes. Que fazer? Deixa explodir. Corre na sua onda. Não controles, nem manipules. Repara os danos", lê-se em em inglês e em português, na exposição.
À margem da sua última visita de imprensa como diretor do Museu de Serralves, Philipe Vergne, que é também o curador desta exposição, afirmou que "Jenny Holzer, desde o fim dos anos 70, sempre foi uma das artistas que nunca fez compromissos na forma das suas obras e também no conteúdo de suas obras".
"Hoje, Jenny Holzer é um ícone. Um ícone público. É uma artista pública que, através do uso do texto - que tem toda uma história que começa com artistas como Stéphane Mallarmé ou Marcel Broodthaers ou Carl André, ou a arte conceptual - empurra essa utilização do texto para um conteúdo que, ao encontro da arte conceitual, não é autorreflexivo, mas projeta ideias e narrativas que, na maioria do tempo, têm uma dimensão política e politicamente humana", declarou Philipe Vergne.
Vergne, que começa em outubro a trabalhar no Museu Bass, em Miami, nos EUA, disse que "Wrong Answers" é uma espécie de instalação que viaja pelos vários materiais que a artista usou ao longo das 45 décadas de trabalho, recorrendo à utilização de papel pintado, textos históricos, sarcófagos, bancos de pedra, ossos humanos obtidos de forma ética, tecnologia led associada à informação e publicidade animada por sistemas robóticos, folhas de metal e óleo, pedras partidas, documentos governamentais transferidos manualmente para linho e sobrepostos com tinta a óleo e folhas metálicas.
Jenny Holzer fez uma "instalação onde todos esses textos explodem juntos numa espécie de caos incontrolável, que é o caos do mundo", acrescenta.
Na exposição, sucede-se "outra galeria, uma sala mais meditativa, com a tecnologia dos led mais disciplinada, mas alimentada de informações que, há mais de uma semana, [Jenny Holzer] encontrou na imprensa. É uma peça que reagiu imediatamente à atualidade".
Num terceiro e último momento da exposição, o público pode ver na biblioteca de Serralves uma espécie de arquivo, onde estão reunidos os desenhos do começo de trabalho da artista, quando o texto começa a aparecer e os primeiros esboços de seus ensaios mostram como Jenny Holzer trabalha esses textos.
"São textos que são trabalhados, que são escritos, eles parecem sempre muito simples, muito sucintos, mas há um enorme trabalho que passa por trás, antes de chegar a essa precisão".
Descobrem-se também documentos sobre a forma como sua obra, de vez em quando, se insere na cultura vernacular e popular, com Kurt Cobain (Nirvana), que é fotografado diante de um texto de Jenny Holzer, Jodie Foster num filme de Dennis Hooper, que é invadido de obras de Jenny Holzer, e também como ela usou o `merchandising` disseminar seu texto.
A exposição "Jenny Holzer: Wrong Answers" fica patente em Serralves até dia 01 de novembro.