Simplicidade é virtude difícil de alcançar -- Siza Vieira
Sevilha, 25 out (Lusa) -- O arquiteto Álvaro Siza Vieira, Prémio Pritzker 1992, que foi na segunda-feira doutorado honoris causa pela Universidade de Sevilha, defendeu que a simplicidade é uma virtude difícil de alcançar e que não deve ser confundida com simplismo.
"A simplicidade é uma coisa difícil de conquistar... muitas vezes é interpretada como uma simplificação, mas isso é outra coisa. Fazer um trabalho que se baseia em retirar o que não é necessário na expressão arquitetónica é um caminho difícil, tanto em termos de trabalho como de atenção", explicou Siza, citado pela agência Efe, num encontro com a imprensa.
"Nem toda a arquitetura deve ter uma intenção simples, porque há uma diferença, nas cidades, entre os edifícios: um edifício público interessa a todos os cidadãos pela sua atividade, e tem por natureza uma expressão forte, mas outro que faça parte do tecido da cidade não tem de ser trabalhado como um monumento", sustentou.
Siza Vieira inaugurou na segunda-feira uma exposição de uma centena de desenhos intitulada "Retratos de Sobremesa", que nada têm que ver com a arquitetura.
São, na maioria, retratos que fez no final de jantares com familiares e amigos, a quem desenhou em posturas descontraídas, embora a mostra inclua também um par de desenhos de corridas de touros e outros de animais.
O arquiteto, de 78 anos, revelou que desenha diariamente e não apenas porque o seu trabalho o exija, mas também "muito por prazer" e para se abstrair "de como se tornou duro atualmente o trabalho do arquiteto, com deveres rigorosos, prazos, obstruções e problemas financeiros".
Lamentou ainda como a crise está a afetar "a arquitetura, os arquitetos e a construção": "É um tempo muito difícil, e o pior é o que significa, em termos de desemprego e de agravamento das dificuldades económicas".
"Na prática, tudo é para pagar a dívida, e essa é a obsessão, também em Portugal, e isso agrava a situação. O exemplo claro disso é a Grécia... A estratégia utilizada em Portugal é a mesma e dever-se-ia encontrar outras vias", sugeriu.
Sobre se a "Aliança Ibérica", de que José Saramago era partidário, serve para enfrentar a crise, Siza Vieira disse que "é mais necessária uma aliança mais ampla" e que "a Ibérica, em certa medida, é uma contradição se o objetivo é uma Europa unida e economicamente forte".
"A tendência, pelo menos teoricamente, é de uma Europa unida, e não entendo bem como é que os países mais penalizados com estas estratégias não se unem. Unidos poderiam manter um debate forte; isto é o que penso, mas não acontece. E a Europa da solidariedade transformou-se na Europa das nações e, nesse sentido, não vejo que essa `Aliança Ibérica` fosse um progresso", afirmou.