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"Sr. Engenheiro", um musical que vai das Beiras ao tribunal "até à prescrição final"

"Sr. Engenheiro", um musical que vai das Beiras ao tribunal "até à prescrição final"

O espetáculo "Sr. Engenheiro" condensa em 90 minutos a vida de José Sócrates, do nascimento nas Beiras ao julgamento, "de recurso em recurso até à prescrição final", exagerando factos e transformando-os numa sátira à Portugalidade, cómica e musical.

Lusa /

Com estreia marcada para quarta-feira, no Teatro Tivoli, em Lisboa, esta é, na verdade, a história de um antigo primeiro-ministro, que nunca é nomeado, a não ser pelo nome "Sr. Engenheiro", "assim mesmo, com aspas, que é como está no cartaz", porque a Ordem dos Engenheiros pediu à produção do espetáculo "para não o apresentarem como engenheiro", contou o encenador, Rui Melo, no final de um ensaio de imprensa.

"`Sr. Engenheiro` Alegadamente um musical" tem música ao vivo, tocada por uma banda disposta nos dois extremos laterais do palco - de um lado, bateria, guitarra e baixo, e do outro, piano, violoncelo e viola d`arco -, e "uma espécie de um cenário barroco dentro do palco do Teatro Tivoli, com telões à antiga, pintados para simular precisamente esta coisa do que é a farsa teatral, em que o público conhece a história toda, mas os atores comportam-se como se estivessem a viver a história pela primeira vez".

"E eu gosto muito dessa ideia de poder brincar com uma história que as pessoas conhecem, em que são só relatados factos que são públicos, e poder brincar com isso e exagerá-los um bocadinho e poder transformar isto num espetáculo. Eu até acho que este espetáculo não é só sobre o `senhor engenheiro`, é sobre a Portugalidade, é sobre o `chico-espertismo` português e pode funcionar também um bocadinho como espelho", explicou o encenador, frisando: "Nós conhecemos a história e já só nos resta rir, e é isso que nós pretendemos fazer aqui".

Não é só o nome do engenheiro que é omitido, pois nesta peça não há nomes, há profissões e designações pelas quais as personagens se tratam, introduzindo ainda maior comicidade ao espetáculo, desde uma procuradora ao amigo, passando pelo motorista, por uma ministra das Finanças, um advogado, namoradas, uma ex-mulher, uma filha, uma assessora, uma jornalista e até um entregador de pizzas.

As luzes, os figurinos coloridos, as telas pintadas e a música contribuem para um ambiente esfuziante que domina um espaço onde todos cantam e dançam, as cenas são montadas e contadas com humor, e as coreografias, diversas, são perfeitamente coordenadas e sincronizadas, integradas muitas vezes nas próprias mudanças de cenário, feitas pelos atores em palco.

"O espetáculo é muito complexo tecnicamente, é mesmo muito complexo, é das coisas mais complexas que eu já fiz em teatro, porque tem muita coisa a acontecer ao mesmo tempo. Nós temos 70 pessoas em permanência em palco a mexer aquilo tudo, depois parece tudo muito orgânico e tudo muito fácil, mas está toda a gente a sofrer lá atrás, inclusive os atores que fazem tudo, fazem todas as personagens, e também me interessou brincar com isto. Portanto, a grande dificuldade foi olear isso tudo. Os atores, ao fim de uma semana, já sabiam o texto, já se divertiam muito com ele, mas depois olear todo o mecanismo, isso foi o grande desafio", revelou Rui Melo.

A peça começa com um interrogatório da procuradora ao engenheiro, na presença do advogado, e numa das suas respostas o inquirido diz: "Eu vim das Beiras, senhora procuradora".

Este é o mote para a mudança de cenário, para um ambiente rural, no qual nasce e cresce uma criança, que faz amizade com um outro menino, a quem em conversa confessa que quando for grande quer ser primeiro-ministro e ter uma casa em Paris.

A partir daqui, a história vai correndo, passando pela sua nomeação para ministro, pelo caso Freeport, pelo chumbo do PEC IV, pelo curso numa universidade, as cadeiras que fez com um "professor de equivalências" e a licenciatura a um domingo, tudo casos que lhe justificam a afirmação "pessoas com poderes são vítimas de cabalas, não são investigadas".

O senhor engenheiro chega então a primeiro-ministro, vai de férias para Formentera e para Paris estudar, é questionado pela procuradora sobre a origem do dinheiro, fala da mãe, do avô, do negócio do Volfrâmio, vai à Venezuela, encontra-se com Hugo Chavez e distribui computadores Magalhães.

A peça salta três anos para a apresentação do seu livro, que alegadamente não escreveu e só "chegou ao top porque houve pessoas a comprar a seu pedido", pretexto para uma música em que o engenheiro explica o significado de alegadamente e diz no refrão: "Posso ser ladrão, mas só alegadamente, mesmo que aconteça à frente de toda a gente".

O engenheiro acaba por ser preso preventivamente, depois libertado e colocado em prisão domiciliária, uma vitima que mais não é do que "um beirão que sonhou com uma casa em Paris", e que no auge da megalomania afirma à procuradora: "Claro que me comparo com Alexandre, o Grande. Ia comparar-me a quem? Ao Seguro?".

Quando confrontado pela procuradora com o julgamento que se aproxima e com o medo que possa sentir, engenheiro e advogado riem-se, lembrando que "tudo nesta vida tem um prazo, porque há coisas que ninguém aguenta" e, numa música sobre o processo penal, cantam "vou de recurso em recurso até à prescrição final".

Apesar de não haver nomes, é clara e percetível a história que é contada e satirizada e as pessoas que são visadas, mas o encenador afirma não ter medo de que o espetáculo seja alvo de um processo, precisamente porque se trata de uma farsa, embora admita que não o surpreenderia se tal acontecesse.

Aliás, Rui Melo contou que a produção convidou José Sócrates para ir assistir ao espetáculo.

"Tenho algumas dúvidas que ele venha, mas eu gostava muito, ficava muito contente com a presença dele e ia revelar muito `fair play`, que é uma coisa que tem faltado também a quem sofre com o humor dos outros. Ultimamente temos alguns casos muito públicos sobre isso".

"`Sr. Engenheiro` Alegadamente um musical" é uma produção da UAU, com texto de Henrique Dias e encenação de Rui Melo, e um orçamento a rondar os 600 mil euros, conforme anunciaram os produtores em conferência de imprensa, no início do ano.

O elenco é composto por Manuel Marques, que faz de "Sr. Engenheiro", e por Alexandre Carvalho, Brienne Keller, Jorge Mourato, Marta Andrino, Miguel Raposo, Samuel Alves, Silvia Filipe, Sissi Martins e Rita Cruz.

Os músicos em palco são Artur Guimarães (responsável musical, pianista e maestro), Tom Neiva, André Galvão, João Valpaços, Marcelo Cantarinhas e Inês Nunes ou Carlos Domingues.

O espetáculo vai estar em cena no Teatro Tivoli BBVA até 10 de maio, seguindo depois para o Porto, onde se apresentará no Coliseu entre os dias 14 e 17 de maio.

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