Teresa Calçada defende investimento em bibliotecas face ao deslumbramento pelas tecnologias

Teresa Calçada defende investimento em bibliotecas face ao deslumbramento pelas tecnologias

A anterior comissária do Plano Nacional de Leitura 2027, Teresa Calçada, considerou hoje, no Porto, em declarações à Lusa, que se vive "um momento sombrio, com o deslumbramento das tecnologias e a ideia falsa de que não é preciso investir em equipamentos, como a biblioteca".

Lusa /
Pedro A. Pina - RTP

"É uma falsidade e um caminho aberto para a desinformação e para a falta de procura da verdade, que depois se traduzem em coisas que são cómodas: não investir, não comprar, não melhorar, não ter pessoal qualificado para as novas exigências", disse, à margem do 15.º Congresso Nacional da Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas, Profissionais da Informação e Documentação (BAD), no qual participou durante a manhã.

A ex-comissária defendeu "investimento da parte política, porque isto é um projeto de uma rede, de uma política nacional de leitura pública", que, em seu entender, "deveria ser equiparada à rede de saúde, à rede dos cuidados primários ou à rede da eletricidade".

Teresa Calçada, que foi membro do grupo de trabalho que lançou o Programa Rede de Bibliotecas Escolares, tendo sido coordenadora deste programa de 1996 até 2013, lamentou que, muitas vezes, se tomem "decisões erradas, pouco informadas, demagógicas", e deu como exemplo a decisão do atual Governo de criar "400 bibliotecas em escolas primárias, onde não existam".

"Boa intenção, má decisão, porque [se pode pôr] uma estante com livros numa biblioteca primária, mas se [não há] um pivô humano, não serve para quase nada", considerou, afirmando que, enquanto foi responsável pela leitura pública, assumida pelas bibliotecas escolares e pelo Plano Nacional de Leitura, sentiu "um desinvestimento muito grande, sobretudo nos recursos humanos".

Teresa Calçada defendeu em declarações à Lusa que "não existe cultura sem mediação", como "numa escola com dezenas de línguas, com uma biblioteca que não compra e não investe em literatura desses países".

"Os políticos não querem perceber, desprezam esta importância de manter a humanidade, sem ser em tempo de trevas", lamentou.

Na educação, "temos perdido a noção do seu valor, o que é dramático, porque estas coisas têm repercussões morais, atitudes de quase desprezo por quem sabe, desprezo por quem fala de coisas mais complicadas ou desprezo pelos livros. É uma atitude que tem de ser combatida na escola porque é uma obrigação moral", acrescentou.

"Eu sou muito sensível à possibilidade de acabar com aquilo que classicamente se chamavam as humanidades. Acabar com as humanidades e ser `produtivista` ou funcionalista e não termos a consciência de que isso muda-nos como homens, com H grande, como pessoas", disse.

Sob o tema "Compromisso com a Democracia: Diálogo, Bem-Estar, Inclusão", o congresso, que reúne mais de 500 profissionais da área, começou na quarta-feira e termina na sexta-feira, na Universidade Portucalense, no Porto.

Propõe uma reflexão sobre como bibliotecas, arquivos e outros serviços podem afirmar-se como espaços seguros de diálogo, aprendizagem e cidadania, ao mesmo tempo que enfrentam novos desafios, como o impacto da inteligência artificial.

O encontro pretende, ainda, reafirmar o papel essencial dos profissionais da informação na defesa dos valores democráticos, num contexto marcado pela desinformação, ameaças à liberdade de expressão e crescente fragmentação social.

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