The Legendary Tigerman levou a música de Paião "para outros sítios" mantendo-se fiel ao original
O músico Paulo Furtado (The Legendary Tigerman), responsável pela banda sonora do filme "Playback", sobre Carlos Paião, levou a música do cantor "para outros sítios", mas mantendo-se fiel ao original, como se tivessem produzido um disco juntos.
Em entrevista à Lusa na sexta-feira, no festival NOS Alive, no Passeio Marítimo de Algés, horas antes da estreia do espetáculo "Playback -- Paião por Tigerman", Paulo Furtado contou que trabalhou o repertório do artista, que morreu com 30 anos em 1988, "um bocadinho na ótica da banda sonora, por um lado, e por outro sem tirar uma certa componente de pop, que faz parte".
"Se o fizesse [tirar a componente pop] acho que estava a fazer um mau trabalho, acho que não iria ser correto, mas fui acrescentando umas camadas que quase não se percebe, mas que são camadas muito densas por baixo daquela pop mais `bubblegum` e isso deu-me muito gozo também", disse.
Por ser sobretudo um músico de rock, Paulo Furtado não seria a escolha mais óbvia para criar a banda sonora de um filme sobre Carlos Paião, mais do universo da pop, algo em que `Tigerman` pensou quando lhe fizeram o convite.
"Acho que o convite vem muito pelo meu lado que é menos visível, mas cada vez mais visível também, de fazer muitas bandas sonoras para cinema, e de nos últimos anos ter feito mesmo muitas coisas", considerou.
Paulo Furtado partilhou que trabalhou as músicas como se tivesse produzido um disco de Carlos Paião com o próprio, à semelhança do que fez recentemente com os Expresso Transatlântico.
"Eu ia respeitar o que o artista é, não iria torná-lo noutra coisa. Iria introduzir elementos que acho que poderiam levar a música dele para outros sítios e acho que foi um bocadinho isso que fiz. Fiz com respeito, obviamente, mas depois também fiz a divertir-me e a fazer o que achava que era correto", contou.
O músico partilhou que quando começou a trabalhar nas canções da banda sonora quase conseguiu ouvir "uma fase do [cantor Leonard] Cohen dos anos 1980 em algumas das coisas", o que o levou numa determinada direção e a juntar depois "umas guitarras que levam as músicas um bocadinho para o universo de [realizador] David Lynch e [da série] `Twin Peaks`".
"A Sara Badalo [cantora que faz parte da banda que acompanha Paulo Furtado], que canta também no projeto, é uma cantora incrível que faz coisas inacreditáveis. Na [versão da] `Playback`, por exemplo, há uma linha de violinos que acaba por ser feita com a voz dela e harmonizada com a voz dela", referiu.
Embora Carlos Paião não fosse um artista que Paulo Furtado ouvisse com regularidade, reconhece que as suas canções, como "Playback", "Cinderela" ou "Discoteca" - tema que redescobriu ao trabalhar na banda sonora do filme -, "estão completamente instaladas no cancioneiro português".
Entre as músicas de Carlos Paião escolhidas para a banda sonora há um inédito, "Lisboa Lisboa", tema "que se destacava claramente" entre os vários que o cantor nunca chegou a editar.
"É uma canção super bonita que ainda descreve de muitas formas Lisboa hoje em dia. Brinca um bocadinho com algumas coisas que se calhar já estavam mal na altura e continuam mal. Continua a ser uma canção de amor dedicada a Lisboa, que eu acho que é muito bonita. Essa então foi mesmo a que me deu mais gozo fazer, porque havia uma gravação em que se ouvia muito mal. Basicamente havia uma linha melódica e harmónica e pronto, não se ouvia muito mais do que isso", partilhou.
Para recriar as canções, bem como a banda sonora do filme, Paulo Furtado recorreu aos músicos que habitualmente o acompanham. Além de Sara Badalo, a banda do projeto "Playback -- Paião por Tigerman" inclui Mike Ghost e João Cabrita, a quem se juntou ainda Rafael Ferreira, o ator que é Carlos Paião no filme de Sérgio Graciano.
Além de protagonista do filme, Rafael Ferreira é também o vocalista nos concertos.
Nascido dez anos depois de Carlos Paião ter morrido, o ator conhecia "três ou quatro músicas" do cantor, "as principais", antes de começar a preparar-se para o papel.
Cantar é algo que nele surge "por instinto, e alguma formação", contou à Lusa também horas antes de subir a palco.
Nos cursos de teatro, no secundário e na faculdade, teve alguns módulos de canto e recentemente fez parte do elenco do espetáculo musical "Quis saber quem sou", de Pedro Penim, o que lhe permitiu ter "alguma bagagem". "Mas não sou cantor", fez questão de dizer.
No filme "Playback", Rafael Ferreira consegue fazer o que mais gosta: representar, dançar e cantar. "Neste projeto tive a felicidade de juntar os três e foi maravilhoso", referiu.
Desafiado a partilhar qual a sua música preferida de Carlos Paião, apontou duas: uma que entra no filme e outra que não.
"A que não entra no filme é a `Lá Longe Senhora` e a que entra no filme é a `Discoteca`, que muita pouca gente conhece. Eu não conhecia, mas é assim uma balada para dançar agarradinho, é muito gira", partilhou.
O espetáculo "Playback -- Paião por Tigerman" foi apresentado já na madrugada de hoje no Palco Fado Café do festival, onde pode ser visto novamente hoje à noite.
Embora não haja mais datas anunciadas, Paulo Furtado acredita que poderão surgir entretanto, "ainda para este ano".
"Playback - Um Filme Sobre Carlos Paião", que chega aos cinemas em 06 de agosto, é um filme biográfico, com momentos-chave do percurso do cantor e compositor, como a passagem pelo Festival da Canção.
Além de Rafael Ferreira, o elenco integra Laura Dutra, Rita Durão, António Mortágua, Anabela Moreira e Albano Jerónimo, entre outros atores.
O filme é uma produção da Caos Calmo, tem argumento de Mário Cenicante e contou com a colaboração de Zaida Cardoso, a mulher de Carlos Paião, que não só relembrou a história do artista como deu a ouvir algumas músicas à produção.