Um autarca corrupto e uma mulher fatal em "Call Girl", o último filme português de 2007

Um autarca corrupto e uma mulher fatal em "Call Girl", o último filme português de 2007

Sílvia Borges Silva (texto) e João Relvas (fotos), da agência Lusa

© 2007 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A. /

Lisboa, 23 Dez (Lusa) - Uma mulher fatal e um autarca exemplar cruzam-se numa história de corrupção em "Call Girl", filme de António-Pedro Vasconcelos que estreia dia 27, sendo o último de produção nacional a chegar este ano aos cinemas.

Quatro anos depois de "Os imortais", António-Pedro Vasconcelos filmou "um tema recorrente na literatura e na ficção ocidental que é a história de uma mulher fatal" à qual se junta a de um autarca que se deixa corromper, disse o realizador em entrevista à agência Lusa.

"A história foi nascendo com episódios que fui buscando aqui e ali, alguns por inspiração pessoal e outros que ia buscando aos jornais", disse António-Pedro Vasconcelos, para quem é "importante fazer filmes sobre coisas que andam nas cabeças das pessoas".

É uma intriga policial que envolve sexo, extorsão, política e corrupção, ingredientes que aproximam a ficção da realidade.

No filme, a mulher fatal é a actriz Soraia Chaves e o autarca corrompido é Nicolau Breyner, aos quais se juntam dois inspectores, os actores Ivo Canelas e José Raposo, e aquele que alicia à corrupção, papel interpretado por Joaquim de Almeida.

Em "Call Girl", produzido por Tino Navarro, António-Pedro Vasconcelos aplicou uma lição de Elia Kazan, que diz ser um dos seus mestres: "não ter personagens virtuosos, exemplares, heróicos, e tentar fazer filmes com personagens cujo dilema não é simpático para as pessoas".

Ao longo das oito semanas de rodagem, que decorreu no Verão, o realizador fez, pela primeira vez, algo semelhante a um diário na sua coluna semanal do jornal Sol, ao longo do qual contou histórias do que se passou nas filmagens.

"Ajudou-me a arrumar as ideias e permitiu-me mostrar aos espectadores os problemas do que é filmar, do que é o trabalho de um realizador", que António-Pedro Vasconcelos define como "um chefe de orquestra" que tenta conseguir harmonia no "plateau".

Diz-se um contador de histórias através de imagens e não um artista, e ao longo da entrevista citou alguns dos seus autores de eleição, de Kazan a Rosselini, de Hitchcock a Jean Renoir.

"Eu sou da geração cinéfila, nós escolhemos a nossa própria paternidade, quem queremos como mestres, como pais, e o gosto por contar histórias, o gosto da intriga é americano, é o meu molde", definiu o autor de "O lugar do morto".

Hoje em dia não perde um filme de Clint Eastwood, Almodóvar e Paul Thomas Anderson.

Depois de "Call Girl", que estreia na recta final de 2007, António-Pedro Vasconcelos, 68 anos, tem "várias histórias na manga", entre as quais um argumento sobre adopção e outro sobre vedetas e "paparazzi".

Mais difícil, admite, será a concretização do projecto de um filme com o último argumento de Roberto Rossellini, que comprou à viúva do cineasta italiano e que se centra na vida de Karl Marx.

"Comprei o guião há dois anos, mas não avanço porque não tenho meios", disse.

Há ainda a vontade de fazer um filme musical sobre fado, "que se passasse nos anos da guerra [1939-1945], em pleno salazarismo".

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