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"Um dia de cólera", de Arturo Pérez-Reverte - A guerra que foi um "equívoco"

"Um dia de cólera", de Arturo Pérez-Reverte - A guerra que foi um "equívoco"

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© 2008 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A. /

Lisboa, 19 Nov (Lusa) - O escritor espanhol Arturo Pérez-Reverte, que acaba de lançar o romance "Um dia de cólera", considerou a Guerra Peninsular um "equívoco" e que Portugal e Espanha seriam hoje "muito diferentes" se não tivesse ocorrido o conflito.

De passagem por Portugal, Arturo Pérez-Reverte disse em entrevista à agência Lusa que "Um dia de cólera" é "um livro de História em forma de romance" sobre a revolta popular ocorrida a 02 de Maio de 1808 em Madrid contra as tropas francesas de Napoleão, um dos acontecimentos da Guerra Peninsular em Espanha.

"A tragédia desta guerra é que se lutou por um equívoco. França era a modernidade, era o futuro, era a Europa que aí vinha e o que as pessoas defendiam era a Espanha velha, antiga, de ministros corruptos. É uma guerra admirável, heróica, mas terrível", opinou o escritor.

"Um dia de cólera" é, no entender de Arturo Pérez-Reverte, "um livro de História em forma de romance", "lúcido e violento" sobre uma "intifada madrilena" ocorrida há 200 anos.

"Durante muitos anos, em Espanha falou-se da guerra contra os franceses como um dia da Nação em que reis, exército, sacerdotes e povo lutaram contra o inimigo e isso não é verdade. Foi o povo, a gente humilde, o pescador, a puta, o rufia, o mendigo, aqueles que não tinham nada a perder", disse o escritor.

Em "Um dia de cólera", Arturo Pérez-Reverte relata os factos com base em documentos de época, em registos verdadeiros, utilizando os nomes de quem participou nesta revolta espontânea.

Para este livro, o escritor andou também pela capital espanhola de mapa na mão a identificar lugares de há dois séculos e estudou os quadros de Francisco Goya sobre o fuzilamento dos revoltosos para poder dar vida a 430 personagens, num trabalho de minúcia que não deu muita margem para a imaginação.

"Interessava-me fazer um romance com essas personagens. Digamos que é o lado humilde da glória", sublinhou o autor, referindo que não quis fazer um hino à nação e ao patriotismo, mas "ao valor da dignidade humama".

Antigo repórter de guerra, apaixonado pela História - "porque é uma ferramenta útil para compreender o mundo" -, Pérez-Reverte disse que teria sido "interessantíssimo" fazer a cobertura jornalística desta revolta, mas sem "grandes impulsos patrióticos".

"Tenho interesse pela História do meu país para a minha memória. Permite-me saber o que sou. Sabendo o que foi Espanha, permite-me saber o que é hoje a Espanha", defendeu.

Duzentos anos passados, Pérez-Reverte diz que no mundo ocidental não seria possível acontecer uma revolta como esta.

"As pessoas estão mais interessadas em ter um carro, o nível de vida é diferente. No Iraque, Afeganistão, Israel, Palestina, África, é capaz de ocorrer. O livro pretende também recordar que ainda há lugares do mundo em que cada dia é um dia de cólera", disse.

Arturo Pérez-Reverte, 57 anos, membros da Academia Real Espanhola, um dos escritores de maior sucesso da língua espanhola e com quase vinte romances publicados em duas décadas, assume-se claramente um "romancista profissional" sem problemas de criatividade e imaginação.

Tem já terminado um novo romance, volumoso, com cerca de 600 páginas, mas cuja trama se escusou a desvendar, que sairá em Espanha em finais de 2009 e em Portugal no começo de 2010.

"O meu problema é um problema de vida - admitiu -. Precisaria de mais vida para escrever todas as histórias que quero contar".

SS.


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