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Uruguaia Andrea Blanqué conta história de mulher só em "A Passageira"

Uruguaia Andrea Blanqué conta história de mulher só em "A Passageira"

*** Ana Nunes Cordeiro, da Agência Lusa ***

© 2009 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A. /

Lisboa, 27 Fev (Lusa) - A história de uma mulher só "que parece estar prestes a afogar-se no mar da mediocridade" é o que conta a escritora uruguaia Andrea Blanqué no seu segundo romance, "A Passageira", que veio apresentar a Portugal.

"Quando o romance começa, encontramo-nos com uma personagem feminina que tem 37 anos, é divorciada e cria os seus dois filhos sozinha, porque o seu marido emigrou para Israel. A família separada é um tema dos meus livros e creio que é um drama da sociedade contemporânea", disse Andrea Blanqué em entrevista à Lusa.

Esta mulher "é professora, trabalha num liceu nocturno para alunos que se atrasaram no secundário, é muito responsável, muito cumpridora, é boa mãe... mas não aguenta mais", resumiu.

E as duas maneiras que encontra para ultrapassar essa sensação de desassossego são recordar quando, com 18 ou 20 anos, partiu à aventura sozinha pelo mundo com uma mochila e assim iniciou a idade adulta, recordar o princípio da sua relação com o marido, que foi um grande amor, e escrever "quase obsessivamente" num caderno que "não chega a ser um diário íntimo".

O livro, narrado na primeira pessoa, "é precisamente o caderno que ela escreve, com muita ironia, embora sem amargura", indicou.

A autora, de 49 anos, que se considera "muito conservadora e novecentista na forma de contar histórias", achou, então, que na vida desta personagem "tinha de acontecer alguma coisa que lhe mudasse o destino" e fê-la apaixonar-se por um aluno.

"Não é fácil para uma mulher madura sentir-se atraída por um aluno de 25 anos, é um tabu universal a mulher ser mais velha que o homem", observou.

O título da obra, finalista do Prémio Juan Carlos Onetti 2002 e agora editada pela Quetzal, na Série Américas, joga com o duplo significado da palavra "passageira": "pode ser quem viaja, quem se desloca no espaço - o que tem muito que ver com a personagem, que foi uma grande viajante - ou o que é transitório, efémero - que está relacionado com um sentimento de nostalgia da juventude provocado pelo facto de os seus filhos estarem a crescer e pelas circunstâncias da sua vida", referiu.

Sobre a descoberta da escrita, a romancista disse ter começado a ler, e depois a escrever, "como fuga à realidade", porque teve "uma infância muito infeliz, numa família disfuncional, e uma adolescência mais infeliz ainda".

"Comecei a escrever aos seis anos, assim que aprendi, e escrevi logo um livro de contos. Quis ser escritora desde que tenho memória e quando era pequena estava sempre a escrever livritos e oferecia-os às professoras", recordou.

Blanqué diz que as suas personagens a procuram, irrompem pela sua vida adentro - "um pouco como fantasmas num filme de terror, mas sem o sangue" - quando está no mercado a escolher fruta, ou em casa, ou enquanto caminha pela rua.

"É impressionante para um escritor conhecer o rosto das suas personagens, conhecer a sua voz. Depois, ao fim de meses - às vezes, mais de um ano - a compreender as personagens, a sua história, sento-me a escrevê-la e escrevo como se estivesse possuída pelo demónio", revelou.

Na sua opinião, a maior recompensa que um escritor pode ter é ser lido por muitas pessoas.

"No Uruguai, lêem-me muitíssimo. O Uruguai é um país pobre e os livros são muito caros. Então, pode acontecer que não se traduza nos números de vendas a quantidade de gente que me leu, porque os livros se emprestam e circulam", frisou.

"Eu sei que é muito bonito ler uma resenha num jornal que nos elogie - aconteceu-me: em geral, os críticos trataram-me bem - e ganhar um bom prémio também é muito emocionante, mas ter uma comunidade leitora que nos segue, que está à espera do nosso próximo livro, que o oferece pelo Natal... Também não sou um `best-seller`, tipo Dan Brown, mas tenho um público culto, que ama os livros", sustentou.


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