Vilar de Mouros, festival amaldiçoado

Vilar de Mouros, festival amaldiçoado

Vinte e cinco anos depois de ter recebido a estreia em Portugal dos U2, o Festival de Vilar de Mouros volta a interromper a sua realização regular.

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Este ano não há Festival de Vilar de Mouros DR

O festival que teve a "ousadia" de desafiar o Estado Novo, juntando 30 mil espectadores num fim-de-semana de 1971 numa aldeia do Alto Minho então desconhecida, parece novamente amaldiçoado, interrompendo pela quinta vez a sua realização anual, após oito anos de estabilidade.

O Festival de Vilar de Mouros realizou-se pela primeira vez em 1965, com características idênticas a outros eventos minhotos de folclore, tendo ganho alguma projecção nacional na quarta edição, em 1968, com o alargamento do âmbito à música erudita e ao fado.

Nesse ano, o fundador do festival, o médico António Barge, teve a "arte" de conseguir juntar num mesmo evento o regime, através da Banda da Guarda Nacional Republicana, e a oposição, com músicos de intervenção como Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira.

O festival de 1968 não passou despercebido à PIDE (polícia política), que recebeu relatórios sobre as canções proibidas cantadas em coro por Zeca Afonso e pelo público, mas teve pouco impacto no país, ao ponto de ainda hoje ser atribuído o nascimento do festival à edição de 1971.

Insatisfeitos, António Barge e a família decidiram fazer uma paragem para preparar a realização de um grande festival em 1971, ano do nono centenário da entrega de Vilar de Mouros à Sé de Tui.

O festival de 1971, considerado o "Woodstock" português, numa alusão ao mítico evento realizado em 1969 nos Estados Unidos, levou a Vilar de Mouros Elton John, Manfred Mann, os principais grupos pop portugueses, Amália Rodrigues, Duo Ouro Negro e novamente a Banda da GNR.

O desastre financeiro (mais de cinco mil euros de prejuízo) deste mega-festival fez com que a família Barge não pensasse sequer numa reedição, mas os ventos do 25 de Abril levaram um grupo de revolucionários a anunciar para 1975 um novo Festival de Vilar de Mouros, que não chegou a realizar-se.

O Festival de Vilar de Mouros só voltou em 1982, desta vez por iniciativa da Câmara de Caminha, então presidida pelo socialista Pita Guerreiro, actual governador civil de Viana do Castelo, que convidou para a organização a Junta de Freguesia, liderada então pelo social-democrata Armando Ranhada, e o maestro António Vitorino d`Almeida, que assumiu funções de director artístico.

Os nove dias do festival foram abertos por António Barge, que saudou a juventude com um pregão que ficou célebre: "Loucura controlada".

Constantes alterações do cartaz e divergências entre organizadores, programadores e produtores levaram um jornal da época a classificar esta edição como "o festival das broncas", mas para a história o Vilar de Mouros`1982 ficou como um dos mais importantes festivais alguma vez feitos em Portugal.

Entre 31 de Julho e 08 de Agosto, actuaram nomes como os U2, Echo & The Bunnymen, Stranglers, Gist, Durutti Column, A Certain Ratio, Rip, Rig + Panic, Renaissance, Tom Robinson, Johnny Copeland, Sun Ra Arkestra, Carlos do Carmo, Vitorino, Rão Kyao, GNR, Jáfumega e Roxigénio.

Terminada esta edição, a Câmara de Caminha abandonou o projecto de festival bienal, devido aos elevados prejuízos, que nunca chegaram a ser apurados na totalidade.

Inconformada, a Junta de Freguesia realiza em 1985 o primeiro (e único) Encontro de Música Popular de Vilar de Mouros, com os Trovante, Emílio Cao e Raízes, que redunda em novo fracasso financeiro.

O festival só regressou em 1996, numa edição comemorativa dos 25 anos, organizada pela promotora Música no Coração com o apoio de fortes patrocínios, que encheu durante três dias o Campo do Casal, com um cartaz que incluía Stone Roses, Young Gods, Madredeus e Xutos e Pontapés.

A exiguidade do recinto obrigou a nova paragem, reaparecendo o festival apenas em 1999, após a aquisição de terrenos contíguos onde passou a ser instalado o palco principal.

O negócio da compra dos terrenos pela Junta de Freguesia, já então presidida por Carlos Alves (CDU), foi integrado na negociação de um protocolo de concessão, que atribuiu às promotoras Música no Coração e Portoeventos a organização de seis festivais (entre 1999 e 2004), com direito de preferência por 20 anos (até 2018).

Nestes seis anos, passaram por Vilar de Mouros grandes nomes do pop-rock, como Bob Dylan, Peter Gabriel, Neil Young, Pretenders, Alanis Morissette, Iron Maiden, Skunk Anansie, Ben Harper, Manu Chao, UB40, Joe Cocker, Joss Stone, Cure, Rammstein, Robert Plant, Sonic Youth, Lamb, Beck, Bush, Wailers, Sepultura e Guano Apes.

No final da primeira concessão, a Música no Coração rompeu a parceria com a Portoeventos, tendo a Junta de Freguesia recebido propostas separadas para a organização de mais seis festivais, respeitando o direito de preferência previsto no protocolo inicial.

O novo protocolo foi assinado em Dezembro de 2004 pela Junta de Freguesia e Portoeventos, o que levou a Câmara de Caminha, liderada desde 2001 por Júlia Paula (PSD), a manifestar desagrado por ter sido "afastada" da organização do festival e da escolha do promotor.

Em resultado deste desagrado, a Câmara de Caminha reduziu o apoio logístico ao Festival de Vilar de Mouros, deixando de assumir algumas despesas, nomeadamente a regularização do trânsito pela GNR e a assistência médica da Cruz Vermelha.

Esta redução não impediu a realização dos festivais de 2005 e 2006, que levaram à aldeia do Alto Minho Peter Murphy, Nightwish, Whitin Temptation, Cradle of Filth, Soulfly, Moonspell, Iggy Pop, Datsuns e novamente Robert Plant, Sepultura, Echo & The Bunnymen, Durutti Column, Xutos & Pontapés e a Banda da GNR.

Na edição de 2006, comemorativa dos 35 anos, a organização anunciou que o festival de 2007 se realizaria entre 20 e 22 de Julho, com a estreia em Portugal do ex-Beach Boys Brian Wilson.

Apesar dos vários nomes que foram surgindo nos sites de algumas bandas, a Portoeventos não confirmou mais ninguém, à excepção do vencedor do concurso Arena Rock, McAlister.

Quarta-feira, a Portoeventos e a Junta de Freguesia de Vilar de Mouros, em comunicado conjunto, anunciaram o cancelamento da edição desde ano, acusando a Câmara de Caminha de "alheamento" em relação ao evento.

Em resposta, a Câmara de Caminha devolveu à Junta de Freguesia e à concessionária a responsabilidade pelo cancelamento, recusando ser "bode expiatório".

Pela quinta vez, o Festival de Vilar de Mouros interrompe a sua realização anual, mas os organizadores prometem "tudo fazer para que o festival possa ser retomado já em 2008".



Acusação à presidente da Câmara de Caminha

A organização do Festival de Vilar de Mouros considerou hoje "falsas" as afirmações da presidente da Câmara de Caminha, Júlia Paula, sobre um alegado apoio da autarquia igual ao das edições anteriores.

"As afirmações da presidente da Câmara de Caminha são falsas. Ainda não recebemos ofício nenhum. Continuamos a não receber resposta da Câmara às nossas cartas", disse hoje à agência Lusa Filipe Guimarães, da Portoeventos.

A organização do Festival de Vilar de Mouros cancelou quarta-feira a edição deste ano do evento, programada para 20 a 22 de Julho, acusando a Câmara de Caminha de um "incompreensível alheamento e mesmo marginalização" do festival.

Em comunicado conjunto difundido quarta-feira, a Portoeventos, concessionária do festival até 2010, e a Junta de Freguesia de Vilar de Mouros (CDU) frisaram que "o município vem assumindo ultimamente atitudes que configuram já, mais do que alguma frieza ou distanciamento, verdadeira hostilidade para com Vilar de Mouros e o seu Festival".

"Estamos a 13 de Junho, a pouco mais de um mês da edição programada para 2007, e a Câmara nem sequer responde às cartas registadas que a Portoeventos lhe enviou. Neste contexto, não há, portanto, condições para avançar", lê-se no comunicado.

Contactada pela Lusa, também quarta-feira, Júlia Paula refutou qualquer responsabilidade da Câmara de Caminha no cancelamento da edição 2007 do Festival de Vilar de Mouros e atribuiu as culpas à empresa organizadora, que acusou de "erros de gestão" e "dívidas acumuladas".

"Tivemos várias reuniões com a organização e sempre nos manifestámos disponíveis para atribuir exactamente o mesmo apoio dos anos anteriores, pelo que não admito que usem a Câmara como bode expiatório para o cancelamento do festival", disse à Lusa a presidente da autarquia de Caminha.

A autarca adiantou que a Câmara enviou, a 08 de Junho, um ofício à organização do festival onde discriminava todo o apoio logístico que propunha atribuir ao festival, "exactamente igual" ao dos anos anteriores e avaliado entre 60 e 70 mil euros.

Filipe Guimarães disse hoje à Lusa que a Portoeventos ainda não recebeu qualquer ofício ou outro documento escrito da Câmara de Caminha, frisando que a última carta enviada pela empresa à autarquia "tinha como `deadline` 04 de Maio".

O responsável da Portoeventos reafirmou que Júlia Paula não recebe a empresa "desde 2004", tendo havido apenas uma reunião "inconclusiva" em Janeiro de 2007, em que a presidente da Câmara se fez representar pelo vereador da Cultura, Paulo Pereira.

"Foi a partir de 2005 que a Câmara de Caminha começou a desinvestir no Festival de Vilar de Mouros. Os apoios não são os mesmos dos últimos anos", disse Filipe Guimarães, afirmando que o município deixou de pagar as despesas referentes à presença no festival de elementos da GNR e da Cruz Vermelha e ao reforço da iluminação pública das estradas e caminhos de acesso ao festival, verbas que a autarquia suportava "desde 1999".

Filipe Guimarães salientou que as dívidas a que se refere Júlia Paula tinham sido assumidas pela própria Câmara em 2005, no âmbito de um acordo em que a Junta de Freguesia abdicava de algumas transferências de verbas entre autarquias e a Portoeventos oferecia à Câmara um maior número de convites para o festival.

Segundo o responsável, seis meses depois da assumpção dessas dívidas, a Câmara de Caminha recusou pagá-las, situação que se mantém ainda hoje.

"São dívidas da edição de 2005, inferiores a 25 mil euros, que não impediram o festival de ser feito em 2006, pelo que também não era agora que iria ser impeditivo da realização do festival em 2007", realçou Filipe Guimarães, acrescentando que o orçamento habitual do evento ronda 1,2 milhões de euros.

O responsável da Portoeventos lamentou que tenha de ser a organização do festival a "substituir-se" ao município, assumindo (como o fez em 2006) despesas que era a Câmara que pagava nas edições entre 1999 e 2004, e questionou o valor de 60 a 70 mil euros apontado por Júlia Paula como apoio camarário dado em 2006.

"Acho que é muito dinheiro para aquilo que a autarquia ofereceu ao festival em 2006", disse, salientando que a Câmara assumiu no ano passado, fundamentalmente, a limpeza do recinto nos dias do festival, a colocação de casas de banho químicas (amovíveis), a emissão de licenças, de valor "residual", a água da rede pública e dois "banners" publicitários nos pontões à entrada do concelho, "um dos quais foi retirado antes do festival".

Sobre as acusações de "erros de gestão", Filipe Guimarães afirmou que Júlia Paula não tem conhecimento de facto, da mesma forma que a Portoeventos não se pode pronunciar sobre a gestão do município, porque não a conhece.

"O festival de 2006 foi um sucesso, reconhecido por todos os órgãos de comunicação social e patrocinadores", frisou.

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