África é a região do mundo que registou maiores retrocessos democráticos diz especialista

África é a região do mundo que registou maiores retrocessos democráticos diz especialista

A especialista em democracia Laura Thornton afirmou hoje que África é a região do mundo que registou o maior número de retrocessos democráticos, com 33% dos países do continente a apresentarem um declínio nos últimos cinco anos.

Lusa /
Philimon Bulawayo - Reuters

Em declarações à agência Lusa, a especialista, que foi vice-presidente do `Democracy Hub` do German Marshall Fund, disse, à margem do evento "Professores Internacionais analisam Democracia e África no IEP-Católica [Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa]" que, embora 24% dos países em África registem avanços, a tendência dominante no continente é de erosão democrática, com várias nações a transitarem de "regimes híbridos para autocracias".

África "é a região que está a ter o maior número de declínios democráticos", advertiu, observando que "o modelo democrático não é visto como desejável" no continente africano

Para a especialista, este cenário resulta de dinâmicas internas e da influência direta da China.

"Eu acho que também é uma coincidência que muitos Estados autocráticos, grandes e poderosos Estados autocráticos, como a China, têm um grande papel em encorajar países e pessoas a perderem a confiança na governança democrática", referiu, adiantando que o país asiático tem promovido, "através das operações de informação e da coerção económica, um modelo alternativo de governança", que "é o capitalismo autocrático".

"Muitas das tendências que nós estamos a ver não são apenas do país em si, mas são forças externas que estão muito interessadas em ver mais países a se tornarem autocráticos", explicou.

Laura Thornton apontou a desinformação e as redes sociais como catalisadores de uma crise de confiança institucional.

Cintando dados do Afrobarómetro, recordou que a confiança no Governo e no parlamento em África caiu de mais de 50%, em 2000, para menos de 45% atualmente.

Questionada sobre quais os países de língua portuguesa que podem ter a sua democracia ameaçada, a especialista não respondeu por não ter conhecimento, mas apontou o caso do Brasil como um exemplo de sucesso na contenção do autoritarismo.

Após um período de "desvio democrático severo" sob a presidência do antigo presidente brasileiro Jair Bolsonaro, o país lusófono conseguiu, na sua visão, demonstrar a força das suas instituições.

O Brasil é "um modelo realmente interessante de como a sociedade, através de setores, pode-se reunir e se levantar para a democracia", salientou, acrescentando que o papel da sociedade civil e da comunidade jurídica, nomeadamente da Ordem dos Advogados, foi fundamental na defesa do Estado de Direito.

Como estratégia de futuro, a perita defendeu que a forma mais eficaz de combater a desinformação é "preencher o espaço com informação positiva e afirmativa da nação [e] da democracia" antes que a narrativa falsa se instale, construindo assim a resiliência junto das populações.

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