Belmiro de Azevedo critica Governo e diz que país é que sai derrotado
O presidente da Sonae criticou hoje duramente a actuação do Estado português no processo da OPA sobre a PT, particularmente do ministro Mário Lino, afirmando que os derrotados foram o Governo e a economia portuguesa.
"Não consigo perceber porque o Governo não decidiu a favor do melhor projecto, não foi a bem da nação nem da economia portuguesa", afirmou Belmiro de Azevedo durante a apresentação das contas de 2006 da Sonae SGPS, no Porto.
Recusando que a Sonae tenha saído derrotada do processo, o empresário salientou que a oferta pública de aquisição (OPA) "não morreu", mas está "em curso, porque não houve construção de uma nova solução".
"Houve só obstrução organizada, existirá outra solução, visto que a composição accionista actual [da PT] é notoriamente instável, sem projecto de curto ou médio prazo que sirva os interesses dos portugueses e do país", disse.
"A vitória é tristemente a dos bloqueadores do progresso e de uma instituição que tem uma longa história de relações especiais com quase todos os governos", continuou.
Já o grupo Sonae, contrapôs, "sempre perdeu nos negócios que dependiam do Estado português".
"Esperávamos que o Governo, no momento certo, indicasse um voto óbvio de apoio à operação como sendo a maneira mais rápida e segura de cumprir as suas promessas e desejo de criar um ambiente competitivo no sector e, ao mesmo tempo, encontrar uma solução de longo prazo para a PT com garantia de gestão competente", disse Belmiro de Azevedo.
Para o empresário, a Sonae errou, contudo, ao "considerar que os critérios de decisão do Governo só poderiam ser esses".
"O Governo prometeu ser neutro até ao momento de decidir.
Deveria ter decidido a favor de uma mudança no sector. O que não podíamos admitir ser possível é que se aliasse a um grupo a que chamei simpaticamente apenas de nebuloso, numa estranhíssima parceria público- privada", afirmou.
Num discurso com duras críticas à actuação do Governo em todo o processo da OPA, Belmiro de Azevedo questionou ainda "como é possível que o Estado português, através da Caixa Geral de Depósitos, tenha subitamente descoberto uma vocação estratégica para se juntar aos accionistas de ocasião, sem competências conhecidas, e sem explicação das origens dos fundos financeiros avultados".
"Tão pouco podemos admitir que o Governo não assuma as suas decisões e possa refugiar-se atrás da independência da CGD ou pretender que pode votar diferentemente invocando, ridiculamente, o princípio da bicefalia do Estado", acrescentou.
Falhada a OPA, Belmiro garantiu que a Sonae "seguirá em frente" e continuará a ser "rigorosamente cumpridora das suas obrigações e a trabalhar num quadro de obediência às leis do Estado".
"Mas às leis do Estado, do Governo, não da pessoa que ocupa o cargo de ministro", ressalvou, numa alusão à actuação do ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, Mário Lino.