Berlim estuda fragilidades da economia chinesa em caso de guerra comercial
As autoridades alemãs estão a identificar discretamente vulnerabilidades da economia chinesa que poderão explorar caso a União Europeia (UE) venha a enfrentar uma guerra comercial com a segunda maior economia do mundo, avançou hoje a agência Bloomberg.
Segundo fontes anónimas citadas pela agência noticiosa, o Governo alemão está a mapear as fragilidades da China através da análise de fluxos comerciais, cadeias de abastecimento e dados ao nível das empresas.
O objetivo é identificar os setores em que a China continua dependente de tecnologia alemã e europeia, de componentes altamente especializados e de conhecimento industrial, bem como as áreas em que Pequim poderá ficar mais exposta numa eventual confrontação económica.
As conclusões preliminares apontam para empresas alemãs como a Trumpf e a Carl Zeiss como potenciais pontos de pressão, uma vez que fornecem tecnologias essenciais utilizadas pela neerlandesa ASML no fabrico de máquinas para produzir semicondutores avançados.
Segundo as fontes, que falaram sob anonimato devido à sensibilidade da avaliação, o estudo deverá também incluir fabricantes de semicondutores como a Siltronic, a Aixtron e a SUSS MicroTec, cujas tecnologias altamente especializadas ocupam posições críticas na cadeia de abastecimento.
O chanceler alemão, Friedrich Merz, endureceu recentemente a posição de Berlim em relação à China, considerando que a Alemanha corre o risco de ficar presa entre a rivalidade estratégica dos Estados Unidos e da China se não reforçar a sua própria resiliência e capacidade de pressão.
No mês passado, os líderes da UE encarregaram a Comissão Europeia, responsável pela política comercial do bloco, de apresentar um conjunto de novos instrumentos de defesa comercial para responder ao que consideram ser um défice comercial insustentável com a China, superior a mil milhões de euros por dia.
"Existem dependências, mas essas dependências são mútuas. Isso também se aplica às terras raras", afirmou Merz este mês, acrescentando que "só é possível enfrentar a concorrência desleal se nos defendermos dela".
Segundo uma das fontes, a preparação de medidas de contingência para o caso de a China voltar a utilizar matérias-primas críticas como instrumento de pressão - como aconteceu no ano passado no caso da empresa Nexperia - integra um conjunto de 34 medidas confidenciais elaboradas pelo Conselho de Segurança Nacional da Alemanha para reforçar a resiliência e reduzir dependências estratégicas.
As vulnerabilidades identificadas concentram-se em produtos altamente especializados, bens intermédios e serviços que as empresas chinesas ainda não conseguem replicar.
Embora a China tenha reduzido significativamente a distância em setores como a indústria automóvel e a maquinaria industrial, competindo atualmente com as empresas alemãs em termos de qualidade, continua dependente de nichos tecnológicos que exigem conhecimento altamente especializado.
Segundo as fontes, em muitos desses setores o principal instrumento de pressão da Alemanha não seria apenas suspender as exportações de maquinaria e componentes, mas também interromper a manutenção e assistência técnica dos equipamentos já em funcionamento na China.
Questionado pela Bloomberg, um responsável do Governo alemão confirmou que Berlim mantém contactos confidenciais com empresas, incluindo sobre riscos específicos associados a determinados países.
O mesmo responsável sublinhou, contudo, que a política alemã para a China não sofreu alterações e que não está prevista qualquer recolha obrigatória de dados junto das empresas.