Bruxelas prevê défice para Portugal já este ano e diminui as perspetivas de crescimento

Bruxelas prevê défice para Portugal já este ano e diminui as perspetivas de crescimento

As perspetivas económicas para Portugal deterioram-se devido a uma série de choques. Bruxelas está menos otimista que o governo português no que se refere ao crescimento da economia portuguesa neste ano e no próximo.

Andrea Neves - RTP Antena 1, Bruxelas /
Foto: Joana Raposo Santos - RTP

Enquanto os técnicos da Comissão Europeia apontam para um crescimento de 1.7 por cento este ano, o executivo admite os 2 por cento no relatório anual de progresso enviado a Bruxelas e que até já refere um decréscimo de 0,3 por cento em relação ao previsto no Orçamento do Estado.

As razões são as mesmas: uma série de choque inesperados no início deste ano, “começando com fortes tempestades em janeiro e fevereiro, seguidas de um aumento acentuado dos preços da energia em março e abril” refere a Comissão Europeia.

Os técnicos dizem que é um crescimento que “diminui apenas marginalmente”, de 1,9% em 2025 para 1,7% em 2026 e 1,8% em 2027.

São previsões ligeiramente mais positivas, numa décima, do que as apresentadas pelo Conselho de Finanças Públicas.

Mesmo assim, em Portugal, o crescimento mantém-se acima da média da Zona Euro neste ano e no próximo, sendo a nona económica que mais cresce em 2026.

Bruxelas salienta que em Portugal “o sentimento económico deteriorou-se e o crescimento do PIB abrandou no fim de 2025 e estagnou no 1º trimestre de 2026. 

Embora as vendas a retalho tenham permanecido resilientes, a confiança dos consumidores caiu para o nível mais baixo em dois anos. No entanto, os indicadores de confiança empresarial, particularmente no sector dos serviços, recuperaram terreno após uma queda em janeiro, apontando para a resiliência da economia”.

No geral, a procura interna continuou a contribuir positivamente para o crescimento no 1º trimestre de 2026, apesar da desaceleração face ao trimestre anterior, enquanto a contribuição das exportações líquidas se manteve negativa.

“Prevê-se que o crescimento económico melhore gradualmente em termos trimestrais ao longo do horizonte de previsão, impulsionado pelas obras de reparação na sequência dos danos causados pela tempestade e pelo pico esperado na utilização dos fundos do RRF em 2026”.

Bruxelas salienta que, “no entanto, os preços elevados da energia deverão continuar a ter um impacto negativo, particularmente no segundo trimestre de 2026”.

“Prevê-se que os investimentos beneficiem substancialmente do ciclo do RRF em 2026, compensando parcialmente o sentimento negativo em relação aos investimentos no sector privado. 

Em 2027, prevê-se que a queda acentuada dos investimentos relacionados com o RRF seja parcialmente compensada por uma recuperação dos fundos estruturais da UE e por uma melhoria do sentimento no sector privado. 

Prevê-se que o excedente da balança corrente se aproxime bastante do equilíbrio em 2026 e 2027, uma vez que as importações deverão continuar a crescer mais rapidamente do que as exportações, enquanto o efeito negativo do preço da energia em 2026 só deverá ser parcialmente recuperado em 2027”.

Para Portugal, dizem os técnicos da Comissão Europeia, “o balanço de riscos continua negativo, ainda mais agravado pela incerteza relacionada com o fornecimento global de combustível de aviação, dado que o vasto setor turístico de Portugal depende fortemente das viagens aéreas”.

No que se refere ao saldo orçamental projetado, Bruxelas admite que se vai transformar em défice ao longo do horizonte de previsão.

No plano enviado ao Executivo Comunitário o ministério de Miranda Sarmento admite um saldo nulo de 0,0 por cento, tal como Banco de Portugal, mas a Comissão projeta um défice de 0.1 por cento, para este ano, e de 0.4 por cento para o próximo.

Por causa das tempestades e do preço dos combustíveis, Portugal diminuiu, no relatório anual de progresso enviado no fim de abril a Bruxelas, a projeção do Orçamento do Estado que apontava para um superavit de 0.1 por cento do PIB este ano.

Bruxelas segue a mesma justificação para admitir um défice marginal e projeta que “se prevê que o excedente do Governo geral se transforme num défice de 0,1% do PIB em 2026 e de 0,4% do PIB em 2027, assumindo-se a manutenção das políticas. Em 2026, a queda esperada reflete o impacto das medidas de apoio governamental tomadas em resposta à série de tempestades ocorridas em janeiro e fevereiro”.

Bruxelas salienta ainda que “o saldo orçamental em 2025 revelou-se melhor do que o esperado, com Portugal a registar um excedente de 0,7% do PIB. Este resultado foi impulsionado por despesas de capital inferiores às inicialmente orçamentadas, também relacionadas com empréstimos do FRR, apesar de um aumento de 0,3 pontos percentuais em comparação com 2024. Além disso, as receitas fiscais e as contribuições sociais cresceram 0,2 pontos percentuais do PIB cada, beneficiando da atividade económica sustentada e do mercado de trabalho dinâmico, enquanto as despesas com juros foram 0,1 pontos percentuais do PIB inferiores”.

Este ano o défice previsto de 0,1 por cento para Portugal é, mesmo assim, menor que os projetados para Itália (-2.9%), Alemanha (-3,7%), Espanha (-2,4%), França (-5,1%) ou Bélgica (5,2%).
Dívida Pública em trajetória descendente
Bruxelas admite que dívida pública vai manter a tendência de descida, embora a um ritmo mais lento. Prevê-se que atinja 86,7% do PIB em 2026 e 86,0% do PIB em 2027, devido aos excedentes persistentes no saldo primário e aos diferenciais favoráveis entre as taxas de crescimento e de juro.

São projeções em linha com as previsões do Governo que traçam um cenário sempre descendente até ao fim da legislatura. O mesmo caminho é apontado pelo FMI e pelo Conselho de Finanças Públicas.

Mesmo assim a dívida pública nacional mantém-se como a 5ª mais alta da Zona Euro com a Grécia, Bélgica, França e Itália com dividas superiores, acima dos 100 por cento do PIB.
Inflação aumenta devido aos preços da energia
A inflação geral aumentou de 2,2% em 2025 para 2,7% em março de 2026 devido a uma forte subida dos preços internacionais da energia.

Em termos homólogos, a inflação geral deverá atingir 3,0% em 2026, antes de diminuir para 2,3% em 2027. A inflação subjacente, excluindo a energia e a alimentação, deverá aumentar a um ritmo mais lento, para 2,4% tanto em 2026 como em 2027.

Bruxelas considera que “o principal canal de transmissão limitou-se aos preços dos combustíveis, enquanto os preços grossistas da eletricidade se mantiveram comparativamente baixos em Portugal, beneficiando do elevado nível das reservas de água e da elevada quota de energias renováveis na produção nacional de energia”.

“Prevê-se que a inflação geral atinja o pico no segundo trimestre de 2026 e que recue gradualmente a partir daí, uma vez que o aumento acentuado dos preços da energia deverá ter apenas um efeito moderado e desfasado nos bens e serviços com elevada intensidade energética”.
Crescimento do emprego e dos salários deverá moderar-se
Após um forte aumento em 2025, prevê-se que o crescimento do emprego se modere em 2026, refletindo as perspetivas económicas mais fracas e a desaceleração dos fluxos migratórios, que deverão limitar a oferta de mão-de-obra.

O crescimento dos salários também deverá abrandar, mas continuar a superar a inflação, uma vez que o mercado de trabalho continua relativamente restrito, apesar de uma taxa de emprego recorde. Apesar da baixa taxa de vagas de emprego no país em geral, registam-se significativas faltas de mão-de-obra na construção, nos serviços de informática e nos serviços médicos.

Prevê-se que o desemprego diminua ligeiramente de 6,0% em 2025 para 5,9% em 2026 e 5,8% em 2027. Os custos unitários do trabalho deverão moderar-se, em grande parte em linha com a evolução dos principais parceiros comerciais.
Défice do Governo deve manter-se acima de 4% do PIB
O défice do governo geral atingiu 4,2% do PIB em 2025 e deverá manter-se praticamente inalterado em 4,1% em 2026 e 2027. A redução projetada reflete as medidas de consolidação orçamental adotadas para 2025 e 2026. Prevê-se uma postura orçamental contracionista em 2026 e 2027, correspondendo a 0,4% do PIB. A previsão não pressupõe alterações nas políticas e não tem em conta os orçamentos de 2027 e 2028 que estavam em negociação na data de corte da previsão.

No lado das despesas, a consolidação orçamental torna-se mais visível em 2026, uma vez que os aumentos abaixo da inflação nos ajustamentos das pensões e nos salários do sector público, bem como as regras mais rigorosas para a reforma antecipada, deverão reduzir as despesas correntes. 

Restrições adicionais decorrem da redução dos investimentos em bens de equipamento relacionados com as despesas com o clima. No entanto, estas poupanças são compensadas pelo aumento dos custos relacionados com o envelhecimento da população, particularmente nos cuidados de saúde e de longa duração, bem como por maiores despesas com juros e um aumento dos investimentos militares, que pesam sobre as finanças públicas.

Do lado das receitas, espera-se que os impostos indiretos e as contribuições sociais ajudem a reduzir o défice. Em 2026, as medidas adicionais de receitas incluem a manutenção de parte do aumento progressivo dos escalões de tributação, o alargamento da taxa de imposto aos contribuintes com rendimentos mais elevados e medidas antifraude.
As previsões para o conjunto da União Europeia
As Previsões Económicas para a Primavera de 2026 mostram uma desaceleração do crescimento devido ao choque energético que impulsiona a inflação.

Bruxelas prevê que a União Europeia, no sei conjunto, tenha uma evolução económica mais fraca, uma vez que o conflito no Médio Oriente desencadeia um novo choque energético que reacende a inflação e abala o sentimento económico.

Antes do final de fevereiro de 2026, previa-se que a economia da UE continuasse a expandir-se a um ritmo moderado, juntamente com uma nova queda da inflação, mas a perspetiva mudou substancialmente desde o início do conflito. A inflação começou a subir poucas semanas após o início do conflito, impulsionada pelo forte aumento dos preços das matérias-primas energéticas, e a atividade económica está a perder força. A situação deverá melhorar ligeiramente em 2027, caso as tensões nos mercados energéticos diminuam.

Depois de ter atingido 1,5% em 2025, o crescimento do PIB na UE está agora projetado para abrandar para 1,1% em 2026 — uma revisão em baixa de 0,3 pontos percentuais em relação à projeção da Previsão Económica do Outono de 2025 (1,4%).

O crescimento do PIB deverá subir ligeiramente para 1,4% em 2027.

As projeções de crescimento para a zona euro foram igualmente revistas em baixa, para 0,9% em 2026 e 1,2% em 2027, face aos 1,2% e 1,4% anteriormente previstos.
A inflação na UE deverá atingir os 3,1% em 2026 — um ponto percentual acima da previsão anterior — recuando novamente para 2,4% em 2027. Na zona euro, a inflação também foi revista em alta, para 3,0% em 2026 e 2,3% em 2027, face às projeções do outono de 1,9% e 2,0%, respetivamente. 

A economia da UE deverá continuar a crescer, mas a um ritmo mais lento.
Como importador líquido de energia, a economia da UE é altamente suscetível ao choque energético provocado pelo conflito no Médio Oriente — o segundo choque deste tipo em menos de cinco anos. O aumento acentuado dos preços da energia significa contas domésticas mais elevadas e custos empresariais crescentes que reduzem os lucros de muitos sectores, redirecionando efetivamente o rendimento da economia da UE para os países exportadores de energia.

O início do conflito fez com que a confiança dos consumidores caísse para o nível mais baixo em 40 meses, no meio de crescentes receios de inflação crescente e perda de emprego. Ainda assim, prevê-se que o consumo continue a ser o principal motor do crescimento.

O investimento empresarial deverá também ser limitado por condições de financiamento mais restritivas, lucros mais reduzidos e maior incerteza. A procura externa mais fraca está também a afetar o crescimento das exportações.

O investimento da UE na resiliência energética, especialmente após a invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia, está a dar frutos. O impulso no sentido da diversificação do abastecimento, da descarbonização e da redução do consumo de energia deixou a economia da UE numa melhor posição para absorver o atual choque.

O principal risco em torno da previsão diz respeito à duração do conflito no Médio Oriente e às suas implicações para os mercados globais de energia. Dada a incerteza excecionalmente elevada — e a janela cada vez mais reduzida para uma rápida normalização das condições de oferta — a previsão de referência é complementada por um cenário alternativo que pressupõe interrupções mais prolongadas.

A contínua incerteza em torno das políticas comerciais globais e a reconfiguração em curso das relações geopolíticas e comerciais podem afetar ainda mais a confiança e a atividade.

A implementação mais rápida de reformas estruturais que abordem os entraves de longa data ao crescimento da UE continua a ser um importante fator de risco positivo para as perspetivas. O forte investimento público em sectores como a defesa e a transição energética pode compensar parte da fragilidade esperada no sector privado. A inteligência artificial representa tanto uma oportunidade como um risco: os ganhos de produtividade podem impulsionar o investimento na UE, enquanto a disrupção do mercado de trabalho pode afetar a procura.
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