Cabo Verde admite reestruturação da companhia aérea estatal
O ministro dos Transportes de Cabo Verde, João do Carmo, admitiu hoje, na cidade da Praia, uma reestruturação da companhia aérea estatal que faz voos internacionais, alegando que o Estado não consegue suportar os custos mensais.
"O Estado não aguenta essa responsabilidade mensal. Temos de pensar no país, no tesouro público, nos cabo-verdianos", referiu, em declarações aos jornalistas, após encontros com a Unidade de Gestão de Projetos Especiais do Estado e representantes do Banco Mundial.
"A situação é muito crítica: estamos a falar de uma empresa que vive permanentemente numa situação financeira negativa. Vamos colocar sobre a mesa todos os cenários", declarou.
De acordo com o governante, as hipóteses passam por "uma reestruturação profunda, como primeiro cenário, o segundo, de parcerias estratégicas ou entrada de investidores, o terceiro é a redefinição do modelo de negócio".
Por último, surge, "no limite, o cenário de liquidação da empresa".
"Seria irresponsabilidade nossa falar exclusivamente da liquidação da TACV, do nada, sem nenhum estudo, sem recorrer a alternativas. Contudo, seria mais irresponsabilidade nossa ainda manter os TACV como estão. O país não aguenta", disse.
A situação deficitária da companhia tem motivado recomendações desde há vários anos.
Diversas entidades têm sugerido que o Estado se concentre em acabar com as falhas crónicas nos voos domésticos, em que tem o monopólio, abandonando as ligações ao estrangeiro, em que enfrenta uma concorrência crescente de companhias `low-cost`.
"Os preços dos combustíveis mais elevados e a entrada e expansão de companhias aéreas de baixo custo nas rotas externas implicam maiores perdas para a TACV, pelo que o Governo deve reconsiderar a reafetação destes recursos para melhorar a conectividade interilhas", alertou o Fundo Monetário Internacional (FMI), em maio.
Em 2024, o Governo cabo-verdiano separou a operação doméstica, que passou para outra empresa pública, sob a marca CVsky e que liga as ilhas entre si.
Segundo os últimos dados, publicados num relatório estatal sobre o setor empresarial, a TACV registou um resultado líquido negativo de 637,6 milhões de escudos (5,8 milhões de euros) no terceiro trimestre de 2024 e está entre as que apresentam maior risco.
Apesar de evidenciar "uma performance operacional robusta", uma "trajetória sustentada de recuperação" e "um significativo potencial de crescimento", a rentabilidade foi afetada por "gastos operacionais totais de 1,9 mil milhões de escudos (17,2 milhões de euros), com destaque para os custos de leasing que atingiram 575 milhões de escudos (5,2 milhões de euros) e que continuam a representar um peso relevante", lê-se no documento.
O anterior Governo, liderado pelo Movimento pela Democracia (MpD), vinha respondendo que são necessárias cautelas quanto a uma excessiva dependência das companhias aéreas de baixo custo para o transporte aéreo internacional, num arquipélago com uma forte diáspora.
João do Carmo, atual ministro com a pasta dos transportes, faz parte do executivo empossado em junho, depois da vitória do Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV) nas eleições de 17 de maio.