Costa otimista que Hungria respeitará acordo para empréstimo de 90 mil ME
O presidente do Conselho Europeu diz estar "otimista" que, na cimeira europeia do final da semana, a Hungria possibilite a adoção de um empréstimo europeu de 90 mil milhões à Ucrânia, apesar das tensões entre Budapeste e Kiev.
"Como sabem, sou otimista. Acredito que a Hungria se respeitará a si mesma, os colegas [Estados-membros] e os tratados" da União Europeia (UE), afirmou António Costa em entrevista à Lusa e a outras agências noticiosas no âmbito do projeto Redação Europeia (European Newsroom), nas vésperas de uma cimeira europeia marcada para quinta e sexta-feira.
"No que diz respeito ao primeiro-ministro [húngaro, Viktor] Orbán, não preciso de o convencer a aceitar o que ele já aceitou no passado dia 18 de dezembro. Uma decisão tomada pelo Conselho Europeu é uma decisão tomada e todos os Estados-membros têm de a respeitar", lembrou, numa alusão ao aval político já dado ao empréstimo de 90 mil milhões de euros para fazer face às necessidades financeiras da Ucrânia.
Para António Costa, "é totalmente inaceitável que um Estado-membro, depois de se ter chegado a acordo sobre uma decisão, volte atrás na sua palavra", pelo que espera que Orbán "respeite" o acordado ao permitir a adoção desta medida na reunião do Conselho Europeu do final da semana.
De acordo com estimativas recentes, a Ucrânia só tem fundos suficientes para cobrir as suas despesas públicas apenas até ao início de maio.
As relações entre Hungria e Ucrânia estão a ser marcadas por forte tensão diplomática devido a questões energéticas e políticas com foco no oleoduto Druzhba, que transporta (de forma excecional) petróleo russo através do território ucraniano para a Hungria e a Eslováquia e que foi danificado por um ataque russo no final de janeiro deste ano.
Enquanto Kiev afirma que a infraestrutura precisa de tempo para ser reparada devido à insegurança no terreno, Budapeste acusa a Ucrânia de atrasar deliberadamente a reabertura do oleoduto por motivos políticos.
Devido a esta disputa, o governo húngaro liderado pelo ultranacionalista Viktor Orbán tem usado o veto em instâncias de decisão da UE como uma forma de pressão, nomeadamente ao bloquear este empréstimo de 90 mil milhões à Ucrânia como parte do apoio financeiro à resistência ucraniana contra a invasão russa, condicionando a sua adoção à retomada do fluxo de petróleo através do Druzhba.
Além disso, a Hungria vetou a adoção de novas sanções da UE contra a Rússia, no 20.º pacote, com Kiev a condenar o uso destes vetos como forma de "ultimatos e chantagem".
"A Rússia atacou e danificou o oleoduto Druzhba e o que esperamos é que, o mais rapidamente possível, este possa ser reparado e reaberto a fim de abastecer a Eslováquia e a Hungria e estamos a trabalhar com a Ucrânia para os ajudar, para os apoiar, a fim de garantir isso", assinalou António Costa.
As tensões entre Budapeste e Kiev também se acentuaram quando o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, deu a entender que, caso o veto húngaro persistisse, poderia dar o endereço de Orbán às Forças Armadas ucranianas para que conversassem com ele "na sua própria língua".
"A UE tem apoiado os esforços da Ucrânia desde o primeiro dia por meios militares, diplomáticos, políticos e financeiros, e temos uma relação muito boa com a Ucrânia e, especialmente, com o Presidente Zelensky, mas claro, não podemos aceitar que, mesmo num momento de emoção, alguém se dirija a de forma inadequada a um líder de um Estado-membro da União Europeia", frisou António Costa.
A Ucrânia tem contado com ajuda financeira e em armamento dos aliados europeus desde que a Rússia invadiu o país, em 24 de fevereiro de 2022.
Os aliados de Kiev também têm decretado sanções contra setores-chave da economia russa para tentar diminuir a capacidade de Moscovo de financiar o esforço de guerra na Ucrânia.