CPLP. Antigo secretário executivo pede "paciência" com Guiné Equatorial
O antigo secretário executivo da CPLP Murade Murargy pediu "um pouco de paciência" com a Guiné Equatorial, lembrando que o país voltou a "uma família" a que já pertenceu quando foi colónia portuguesa antes da presença espanhola no território.
"É preciso ter um pouco de paciência, eles estão num bom caminho, estão continuando bem", com o processo de integração na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), afirmou Murargy, diplomata moçambicano de carreira, em entrevista à Lusa.
O antigo secretário executivo assume atualmente a função de conselheiro do Governo equato-guineense para os Assuntos dos Países da Língua Portuguesa, exercendo o cargo a partir da capital do país, Malabo.
Lembrando que se empenhou decisivamente para a entrada da Guiné Equatorial na CPLP, Murade Murargy assegurou que o país tem cumprido o roteiro que lhe foi imposto para a sua plena integração na organização.
"Traçou-se um plano de adesão" que o país seguiu e que o levou a aplicar uma moratória à pena de morte e a implementar um programa de disseminação do ensino da língua portuguesa.
"A língua portuguesa está entrando aos poucos", destacou, assinalando que não se pode esperar que todos os cidadãos do país se expressem neste idioma "em sete anos".
"Em Moçambique, quantas pessoas não falam português ainda?", questionou.
A Guiné Equatorial, continuou, está identificado com os valores pugnados pela CPLP.
A aspiração daquele país de fazer parte da organização lusófona remonta ao tempo da criação da entidade, em 1996, por força do seu passado de colónia portuguesa, antes de passar ao domínio espanhol por força das lógicas de transações territoriais em voga durante o período imperialista, recordou.
"Eu vim cá muitas vezes e consultei as autoridades [sobre a pretensão de o país querer entrar na CPLP] e diziam: ´nós queremos voltar á família a que nós pertencíamos`, porque eles foram colónia portuguesa antes da Espanha", sublinhou.
O antigo secretário executivo da CPLP sustentou que o desejo da Guiné Equatorial integrar-se plenamente na organização assume maior densidade pelos "laços familiares" com São Tomé e Príncipe e com o facto de o país estar rodeado de nações de expressão francesa na região geográfica em que está inserido.
"Traçou-se um plano de integração e eu, no fim da minha missão [de secretario executivo], vim cá para apoiá-los nesse plano de integração e eles estão desenvolvendo bem o plano", frisou.
A Guiné Equatorial aderiu à organização em 2014. Murade Murargy foi secretário executivo da CPLP entre 2012 e 2016, depois de ter servido por longos anos como diplomata moçambicano. É atualmente conselheiro do Governo da Guiné-Equatorial para Assuntos dos Países da Língua Portuguesa.
Na entrevista, o antigo secretário executivo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) Murade Murargy afirmou que os novos estados membros da organização devem reforçar a cooperação para o desenvolvimento e não se limitar a participar nas "sessões de abertura e encerramento".
"Temos que definir uma estratégia ou um programa de como esses estados vão participar na vida da organização, não é só entrar só para participar na sessão de abertura e na sessão de encerramento de cada reunião, não tem interesse nenhum", declarou Murargy.
A pujança económica que detém os vários novos estados com estatuto de observador ou de pleno direito e os candidatos a essa posição deve ser colocada ao serviço da CPLP, observou aquele diplomata moçambicano.
"A maior parte desses países são nossos parceiros bilaterais de desenvolvimento" e podem usar essa relação em prol da comunidade, acrescentou.
Apontou o exemplo de França, que é estado observador da CPLP, que está a realizar em Moçambique o maior investimento privado em África, através da petrolífera TotalEnergy no projeto de produção de gás na bacia do Rovuma, como exemplo de parcerias importantes entre membros da organização e os países que têm o estatuto de observadores.
"Se nós conseguirmos que eles participem na educação, na saúde e na preservação do meio ambiente, nessas áreas que são transversais, isso é muito importante par os nossos países", declarou o antigo secretario executivo.
São "países que já conhecem os nossos países, sabem como é que os nossos países funcionam (...). Eles têm interesses em desenvolver cada vez mais essas relações bilaterais para passar ao nível multilateral, referiu Murade Murargy.
Nesse sentido, prosseguiu, a cooperação bilateral deve ser expandida para o conjunto dos estados da CPLP, sobretudo para as áreas sociais, porque têm maior impacto na vida das populações, frisou.
O antigo secretário executivo da CPLP apontou a saúde e educação como domínios de grande interesse na cooperação para o desenvolvimento entre os estados fundadores da CPLP e os novos que entram na organização.
"Há uma ideia que tive no passado para que pudéssemos criar um ´Erasmus da CPLP` [programa de mobilidade académica], porque o nosso problema é de capital humano. Temos muitos recursos, mas não temos capital humano", enfatizou.
A próxima cimeira da CPLP está agendada para sexta-feira e sábado, é dedicada ao tema "Fortalecer e Promover a Cooperação Económica e Empresarial em Tempos de Pandemia, em prol do Desenvolvimento Sustentável dos Países da CPLP".
A organização é constituída por Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, mas conta com mais de 30 estados com o estatuto de observador, esperando-se que mais nações ganhem essa posição na próxima cimeira.