Dados do INE mostram recuo da economia portuguesa
O PIB português sofreu uma retracção de um por cento nos últimos três meses de 2009 face ao mesmo período de 2008, indicam números publicados esta quinta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). O Governo considera “prematuro” encarar um cenário de recessão e mantém as previsões. A Oposição fala de dados “muito preocupantes” ou mesmo “dramáticos”.
No conjunto do ano de 2009, a economia do país caiu 2,7 por cento, "após a variação nula verificada no ano anterior". O INE explica que "o contributo da procura interna para esta variação foi negativo (-2,8 pontos percentuais), enquanto o da procura externa líquida foi ligeiramente positivo (0,1), reflectindo a maior redução em termos absolutos das importações comparativamente à observada nas exportações".
"O comportamento das principais componentes da procura interna foi diferenciado, assistindo-se a uma redução acentuada do investimento, a uma redução moderada do consumo final das famílias e a um aumento do consumo final das administrações públicas. Em termos nominais, o PIB ascendeu a cerca de 163,6 mil milhões de euros, menos 1,7 por cento do que no ano anterior", lê-se na nota do Instituto Nacional de Estatística.
Por outro lado, indica o INE, o défice da balança comercial teve uma melhoria de 479 milhões de euros entre Novembro de 2009 e Janeiro de 2010, em comparação com o período homólogo: "No período de Novembro de 2009 a Janeiro de 2010, as saídas de bens registaram face ao período homólogo (Novembro de 2008 a Janeiro de 2009) um aumento de dois por cento e as entradas diminuíram 2,5 por cento, determinando um desagravamento do défice da balança comercial em 479 milhões de euros".
Teixeira dos Santos mantém previsões
Sem querer falar de indicadores "preocupantes", o ministro das Finanças mantém a estimativa inscrita no Orçamento do Estado para 2010: um crescimento do PIB em 0,7 por cento.
"Não direi que são preocupantes. É evidente que não são números simpáticos, porque tendo um crescimento negativo no conjunto do ano de 2009 ninguém fica satisfeito com um desempenho negativo de qualquer economia. De qualquer modo, acho que temos de relativizar esses números no contexto mundial, no contexto europeu, e o facto de a economia portuguesa ter sido uma das economias que menos foi afectada no seu crescimento por esta crise internacional penso que, apesar de tudo, é um sinal que deve ser apontado", reagiu Teixeira dos Santos.
"As nossas previsões para este ano são de um crescimento de 0,7 por cento do PIB em termos reais", reiterou o governante.
Para o ministro das Finanças, "é prematuro" falar de um cenário de recessão técnica: "O facto de termos um número em cadeia no final do ano que foi negativo não nos deve precipitar já para cenários dessa natureza".
"Temos de prosseguir esta política de manter estímulos à economia, mas dar já um sinal claro do nosso compromisso de reduzir o défice", concluiu Teixeira dos Santos em dia de debate do Orçamento do Estado na generalidade.
"Muito más notícias"
Miguel Frasquilho não hesita em antecipar "a possibilidade" de o país voltar a experimentar uma recessão. Portugal, alertou o vice-presidente da bancada parlamentar do PSD, "vai ser dos países que mais vai demorar a sair da crise e não está mesmo colocada de parte a possibilidade de voltarmos a uma recessão. Um trimestre negativo já está e podemos vir a ter mais".
Os números agora conhecidos constituem, na leitura de Frasquilho, "muito más notícias para todos os portugueses e mostram bem como a nossa economia não tem sido bem gerida de há muitos anos a esta parte".
Ao contrário do ministro das Finanças, o deputado do PSD sustenta que os dados do INE "deixam antever a possibilidade de uma revisão em baixa do cenário para 2010, o que é mais uma má notícia para os portugueses". Miguel Frasquilho acusa ainda o Governo de ter agitado de forma precoce o "fim da crise".
"Modelo económico completamente errado"
Pelo CDS-PP, a deputada Cecília Meireles estabeleceu um nexo entre o desempenho da economia portuguesa no ano passado e o que disse ser o "modelo económico completamente errado" prosseguido pelo Governo de José Sócrates - uma política "virada para o investimento público e não para o crescimento económico".
"A nossa principal preocupação tem que ser o desemprego. E o desemprego combate-se com iniciativa privada e com investimento privado. Grande parte desta recessão é explicada precisamente com a contracção do investimento", advogou a deputada democrata-cristã, para quem o crescimento económico passa pela "iniciativa privada" e pelas "pequenas e médias empresas".
O Executivo, criticou Cecília Meireles, mostra estar apostado apenas "no investimento público".
Dados "dramáticos"
O Bloco de Esquerda vê nos números do INE o retrato de "uma crise profunda que continua". Foi desta forma que a deputada Cecília Honório reagiu aos dados "dramáticos" sobre o desempenho da economia em 2009.
"A queda do PIB está acompanhada e é um resultado da crise e tem um resultado que são mais 120 mil desempregados", declarou aos jornalistas a deputada bloquista.
Os números, reforçou Cecília Honório, "são a expressão desta crise e exigem políticas activas de criação e preservação de emprego, exigem uma alternativa muito consistente a um Governo que desistiu de manter emprego e criar emprego". A linha política do Executivo socialista significa, na óptica do Bloco de Esquerda, que "não há saída da crise, nem há saída da recessão".
"O país continuou em recessão"
Os últimos números do Instituto Nacional de Estatística vieram demonstrar que "o país continuou em recessão" e que o Governo de Sócrates se enganou "nas previsões e na leitura que faz dos números". A leitura pertence ao deputado comunista Agostinho Lopes.
Segundo o deputado do PCP, os dados "confirmam que, no quarto trimestre, o país continuou em recessão" e "contrariam a ideia de que teríamos entrado em estagnação e começaríamos a partir daí a subir": "Pela enésima vez, o Governo engana-se nas previsões e na leitura que faz dos números".
Na perspectiva dos comunistas, "foi o consumo público" que possibilitou "atenuar a queda da economia no quarto trimestre", tendo em conta as "quedas no investimento, no consumo privado e nas exportações". Agostinho Lopes manifestou também a preocupação do partido face àquilo "que está prometido no PEC [Programa de Estabilidade e Crescimento] e no Orçamento do Estado".
"As informações que conhecemos, particularmente a nível de desemprego, encerramento de empresas e atrasos nos investimentos públicos, só nós fazem suspeitar que esta situação se possa manter", rematou o deputado do PCP.