Das Ilhas Cook para a Jamaica, ativista pediu precaução na mineração em mar profundo
Das Ilhas Cook à Jamaica, Sieni Tiraa viajou cerca de 10 mil quilómetros para pedir aos decisores políticos internacionais que não se precipitem na mineração em mar profundo, alertando para o risco de danos irreversíveis em ecossistemas pouco conhecidos.
"Não digo ter todas as respostas sobre as inúmeras possibilidades que o nosso oceano encerra, mas uma coisa eu sei: a mineração em mar profundo não é o futuro para o qual devamos precipitar-nos", defendeu a ativista.
Perante decisores políticos, cientistas e representantes de organizações ambientais, Sieni Tiraa, da organização não-governamental Te Ipukarea Society, deu voz a uma perspetiva diferente da posição oficial das Ilhas Cook.
Representadas na Assembleia da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos, cuja 31.ª sessão está a decorrer até sexta-feira em Kingston, Jamaica, as Ilhas Cook são favoráveis à criação do chamado "Mining Code", que definirá as regras para a exploração comercial de minerais nos fundos marinhos internacionais.
Internamente, o país dispõe já de um quadro legal específico para a mineração em mar profundo, que regula a prospeção, exploração e eventual extração comercial de minerais na sua zona económica exclusiva.
"Aquilo que um governo enquadra como oportunidade pode ser vivido pela comunidade como um risco, e temos vindo a assistir a uma mudança discursiva, ao longo do tempo, para tornar (a extração de minerais) mais aceitável", sublinhou Sieni Tiraa, durante uma sessão promovida pela Deep Sea Conservation Coalition.
Recordando a história do seu país, a ativista explicou que há seis décadas, Albert Henry, primeiro chefe de Governo das Ilhas Cook após a autonomia em 1965, já via nos nódulos polimetálicos presentes nos fundos marinhos uma oportunidade.
"Para muitos, esta tornou-se uma narrativa patriótica: desenvolver estes recursos representa a continuação de um sonho lançado há mais de 60 anos, um caminho para a prosperidade, a soberania económica e a autodeterminação", relatou.
Para Sieni Tiraa, porém, "a autodeterminação e a justiça têm de caminhar lado a lado" e a ativista defendeu uma abordagem que reconheça as aspirações nacionais, mas exija igualmente responsabilidade, precaução e a proteção das comunidades e do oceano a longo prazo.
Por outro lado, alertou também para o risco de a extração de minerais dos fundos marinhos poder causar danos irreversíveis em ecossistemas sobre os quais ainda se conhece pouco.
Os nódulos polimetálicos são pequenas rochas metálicas encontradas a mais de três mil metros de profundidade no oceano, que acumulam minerais como manganês, ferro, níquel, cobre e cobalto.
"Estes nódulos demoraram milhões de anos a formar-se. Já existiam muito antes da criação do nosso Governo, muito antes da colonização e até antes da chegada dos nossos antepassados, Tangi`i e Karika, às nossas ilhas", acrescentou, sublinhando que, para muitos, são por isso considerados sagrados.
"No entanto, hoje são cada vez mais descritos sob uma perspetiva dominante como minerais críticos necessários para a humanidade", lamentou.
Emocionada e com a voz embargada, Sieni Tiraa manifestou ainda apreensão pelo futuro das gerações mais jovens.
"Quando penso no futuro que irão herdar, sei que o oceano não pode ser reduzido a uma nova fronteira mineira", exclamou.