Depois dos festivais de verão nem tudo o que vem à rede é peixe
Os pescadores da Caparica estão a recolher mais lixo nas redes depois dos festivais de música no passeio marítimo de Algés, Oeiras, entre copos, garrafas e outros detritos que destoam das campanhas de sustentabilidade.
"Quando há os grandes festivais, que são muito sustentáveis, ao fim de uma semana, duas, nós vamos apanhar os copos e tudo o que esse festival fez", disse à agência Lusa, Lídio Galinho que trabalha sazonalmente no Tejo na apanha da corvina.
O rio Tejo apresenta já algum plástico, segundo o pescador, mas é a seguir aos festivais que as redes carregam mais detritos.
"Desde óculos de sol com o nome desse festival, copos referentes a esses festivais" a outros objetos, tudo é recolhido pelos pescadores.
"Acho que deviam ter mais cuidado com isso, porque eles levam o selo da sustentabilidade, mas depois a sustentabilidade vem parar ao rio Tejo", lamentou.
Nas águas por onde os pescadores da Caparica navegam começam também a surgir mais animais de grande porte, como golfinhos e baleias que podem vir a ingerir os objetos que o Tejo leva para o mar, assim como os microplásticos decompostos podem entrar na cadeia alimentar dos peixes mais pequenos, destinados a consumo humano.
"Uma vez quantifiquei e pesei cerca de três a quatro quilos de plásticos por cada captura de peixe, por dia", acrescentou o arrais (mestre), durante uma reportagem da Lusa na Costa da Caparica.
Os pescadores têm observado mais orcas e golfinhos, com predominância para os roazes, que estão a atacar as redes, com mais perspicácia, segundo António Martins, conhecido por Calita, mestre de duas embarcações.
Já capturou um tubarão frade, "uma coisa muito grande", contou. Mas o que o preocupa mais é a proliferação da comunidade de golfinhos e a acutilância dos ataques às redes para comerem os chocos emalhados.
"Havia a ideia de que para se ver golfinhos roazes, tinha de se ir ao Sado e agora aqui já estão e muitos. Até já estão a incomodar a gente, porque eles dão cabo das redes todas", queixou-se.
"Já é muito mesmo e aquilo não se pode apanhar, é proibido, não se pode fazer nada àquilo", acrescentou.
Em dias de calmaria no mar, garantiu, avistam-se centenas de golfinhos juntos num raio de três a quatro milhas. "Há muito agora, não sei o que vão fazer, é uma espécie que está a aumentar muito mesmo", garantiu o pescador.
Os prejuízos quantificam-se nos estragos nas redes de pesca e na perda do pescado.
"O roaz só come a cabeça do choco, dá uma dentada e arranca, senão morre. O golfinho morre se comer aquela casca que se tira do choco", revelou Calita, que há três anos perdeu cerca de 20 redes novas que acabara de lançar para a pesca da azevia.
"Levaram a rede toda, arrancaram tudo, só veio a corda da cortiça e do chumbo e uns bocadinhos de rede. Tive de fazer novas", disse, conformado.
Os pescadores, explicou, trabalham com redes de um pano e de três panos. "As que têm três panos, eles arrancam assim, as que têm só um pano, eles mesmo só com a velocidade levam tudo à frente. Foi um prejuízo grande", garantiu.
"Acho é que até os animais devem já andar na escola, que são mais inteligentes. Antes não se mandavam à rede para comer o choco e agora já arrancam o choco da rede, acho que até os animais já evoluíram", brincou o mestre de "O Rei dos Mares" e a "A Rainha dos Mares" da Caparica.