Evergrande em incumprimento. China tenta reestruturação de gigante imobiliária sem afetar economia

Evergrande em incumprimento. China tenta reestruturação de gigante imobiliária sem afetar economia

A empresa de imobiliário chinesa Evergrande, afetada por uma dívida de grandes dimensões que tem preocupado os mercados financeiros, não cumpriu os pagamentos, como anunciou na quinta-feira a agência de notação Fitch. O grupo empresarial entrou em incumprimento, como já se previa há alguns meses, mas ainda não causou grande impacto na bolsa chinesa. Pequim, porém, está a ponderar intervir com uma reestruturação para não ameaçar a segunda maior economia do mundo.

RTP /
Reuters

A gigante imobiliária chinesa Evergrande falhou o pagamento das dívidas e está praticamente na falência. Tinha até à passada segunda-feira, dia 6 de dezembro, para pagar 82,5 milhões de dólares (73 milhões de euros) em juros, mas não o conseguiu fazer e, em consequência, a agência de notação Fitch colocou a empresa em default.

O grupo havia avisado, no final da semana passada, que não havia garantia de que iria conseguir cumprir os próximos pagamentos de dívida.

A sobrevivência do grupo imobiliário, que emprega mais de 200 mil pessoas, pode agora estar nas mãos do Governo chinês, tendo a própria Evergrande já demonstrado interesse em negociar com os credores e avançar com um plano de reestruturação.

De facto, o Grupo Evergrande já tinha confirmado estar com dificuldade em obedecer à pressão oficial para reduzir o seu endividamento, o que tem alimentado ansiedade com um seu possível incumprimento, por poder desencadear uma crise financeira.

Contudo, o colapso confirmado não está a causar, para já, eventuais repercussões para os mercados financeiros mundiais. Uma injeção de liquidez por parte do banco central chinês nos últimos dias e a expectativa de que haverá uma reestruturação ordenada da dívida são alguns dos fatores que estão a atenuar o impacto do default.
Pequim pondera reestruturação
Com as dívidas de milhões por pagar, a reestruturação parece ser a única salvação da Evergrande, neste momento, arriscando a assolar a economia chinesa. Mas como a Associated Press avança, ainda não há confirmação de que o Governo vá tentar salvar a gigante imobiliária.

Os analistas há muito temem que um colapso possa desencadear riscos mais amplos para o mercado imobiliário da China, prejudicando os proprietários e o sistema financeiro em geral. O mercado imobiliário e os setores relacionados representam, aliás, quase 30 por cento do PIB.

"A liderança da China está tentar enfrentar isto com calma, mas as circunstâncias que cercam a espiral descendente de Evergrande levantam sérias questões sobre o Governo de Xi Jinping com a ameaça à economia da China", explicou à CNN Craig Singleton, um membro adjunto do Programa da China na Fundação para a Defesa das Democracia, um instituto de investigação com sede em Washington.

Já há sinais, contudo, de que Pequim está a tentar encarregar-se do futuro da Evergrande através de uma reestruturação da dívida e da expansão das operações comerciais.

O governo local na província de Guangdong, onde a Evergrande está sediada, informou na semana passada que enviaria funcionários à empresa para supervisionar a gestão de risco, fortalecer os controlos internos e manter as operações normais. E já esta semana, a empresa anunciou a criação de uma comissão de gestão de risco, incluindo representantes do Governo, para "mitigar e eliminar" riscos futuros.

Na segunda-feira, também o Banco Central anunciou que ia injetar 188 mil milhões de dólares, aparentemente para evitar a queda da Evergrande.

"Estas últimas intervenções, tanto do Governo central como das autoridades em Guangdong, sugerem que as autoridades chinesas agora aceitam relutantemente que Evergrande é, de facto, grande demais para falir", continuou Singleton.

Mas uma reestruturação trará algumas consequências menos boas, pelo menos para os detentores de títulos globais.

Pequim deixou claro que a prioridade é proteger os milhares de chineses que compraram apartamentos inacabados, assim como os trabalhadores da empresa, fornecedores e pequenos investidores. Além disso, pretende limitar o risco de falência de outras imobiliárias.

Os receios dos investidores quanto à queda da Evergrande aumentaram os custos de financiamento para outras empresas, à medida que aumentam os rendimentos da dívida corporativa chinesa offshore.

Ao mesmo tempo, o Governo tem tentando conter o endividamento excessivo por parte dos desenvolvedores - e por isso não quer diluir essa mensagem. O que, segundo o especialista em economia Louis Kujis, pode deixar o Executivo “feliz em ver a própria empresa a afundar".

Na quinta-feira, o governador do Banco Central, Yi Gang, deu a entender que o destino do grupo seria deixado para as autoridades financeiros, durante uma conferência de imprensa.

Os líderes chineses devem estar a pensar que afinal os bancos que emprestaram à Evergrande são públicos e que podem sobreviver às suas perdas”, adianta o analista.
Como salvar a Evergrande?
A reestruturação da dívida, que ascende a mais de 300 mil milhões de dólares (265 mil milhões de euros), foi admitida pela primeira vez pela Evergrande no comunicado emitido na sexta-feira.

A empresa “está a avaliar a situação financeira global e, de acordo com os interesses de todos os stakeholders e no respeito dos princípios da justiça e legalidade, planeia negociar com os credores internacionais um plano de reestruturação viável da dívida que a empresa tem no exterior, para benefício de todos os stakeholders, isto é, todos aqueles que têm ações, obrigações ou outras exposições à empresa.

O presidente da Evergrande já foi chamado pelas autoridades chinesas no que poderá ser um passo no sentido de haver algum tipo de envolvimento estatal nessa reestruturação. O processo deverá significar o fim de um império criado por Hui Ka Yan, que já foi um dos homens mais ricos da Ásia.

À medida que a Evergrande cresceu e a dívida se acumulou, Hui Ka Yan recebeu o equivalente a 6,8 mil milhões de euros em dividendos extraídos da empresa, desde 2009. Apesar de nesse ano Hui Ka Yan ter aberto o capital da empresa na bolsa de Hong Kong, conservou para si próprio uma participação maioritária de 77 por cento – e, ao longo de todos estes anos, mesmo com o endividamento da empresa a subir cada vez mais, até níveis estratosféricos, a Evergrande (quase) nunca deixou de pagar dividendos.

Para Kujis, trata-se de um "ato de equilíbrio delicado" permitir que a Evergrande entre em falência ao mesmo tempo em que minimiza qualquer impacto económico ou financeiro, especialmente devido à desaceleração no mercado imobiliário dos últimos tempos.

Os preços das casas novas na China caíram em outubro pelo segundo mês consecutivo, de acordo com dados do Gabinete Nacional de Estatísticas. Uma desaceleração maior no sector imobiliário, juntamente com outros fatores, poderia arrastar o crescimento do PIB da China no próximo ano até 4,3 por cento, de acordo com Ting Lu, economista da China Nomura.

Kuijs, da Oxford Economics, espera que Pequim tome medidas políticas direcionadas a proprietários de casas, credores com problemas ou bancos expostos a riscos de dívidas.

"Também esperamos uma flexibilização mais ampla da política fiscal e monetária", diss. "E é provável que o governo tome medidas para conter os efeitos em cascata do sistema financeiro, incluindo a possibilidade de bancos isolados”.

Singleton alertou, porém, que a crise imobiliária continua a representar uma ameaça iminente para a China.

"A possibilidade de contágio em outras partes da vasta economia da China continua a ser real", disse. "E é nesta questão que o Banco Central da China enfrenta a maior restrição - embora possa conter as implicações financeiras de um default no setor imobiliário, não pode compensar o impacto do mercado imobiliário na economia da China”.

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