Falência ameaça projecto-chave da economia da Saxónia
***Francisco Assunção, da Agência Lusa, enviado a Dresden***
Dresden, Alemanha, 03 Fev (Lusa) - A falência da Qimonda é uma ameaça para toda a indústria de semi-condutores em Dresden, uma aposta do governo da Saxónia no início dos anos 90 que custou cerca de 800 milhões de euros ao erário público.
A criação de um cluster de empresas de micro-electrónica em Dresden foi o projecto-chave da política económica da Saxónia, estado federado do leste do país, após a reunificação da Alemanha, em 1990.
Na sequência do desmoronamento do regime comunista na RDA, milhares de pessoas que trabalhavam nas obsoletas indústrias de computadores e da construção de máquinas em Dresden e arredores perderam os seus empregos, e o fabrico de semi-condutores, que já então ocupava 3.500 pessoas, corria risco semelhante.
À custa de avultados subsídios, o ministro-presidente da saxónia, Kurt Biedenkopf, logrou atrair para Dresden uma moderna fábrica de "chips" de memória da Siemens, em 1994.
A fábrica custou 1,3 mil milhões de euros ao gigante da indústria electrónica e 400 milhões de euros aos cofres do Estado.
Dois anos mais tarde, a norte-americana AMD abriu também uma unidade de produção em Dresden, recebendo um subsídio de igual montante.
A Siemens libertou-se, entretanto, do sector de fabrico de semi-condutores, que passou a chamar-se Infineon, em 1999.
Esta empresa, por sua vez, separou também a produção de "chips" da casa-mãe, em 2006, criando a Qimonda, da qual a Infineon é accionista maioritário, com 77,5 por cento do capital.
Actualmente, o cluster de micro-electrónica em Dresden, caso único na Europa, tem 1.200 empresas e ocupa 44 mil pessoas.
Para dar uma ideia do peso económico que a micro-electrónica tem para a capital da Saxónia, cidade com cerca de meio milhão de habitantes, basta atentar no fato de só a Qimonda ter pago em salários em Dresden cerca de 200 milhões de euros, em 2008.
Apesar da sua importância na vida quotidiana, os "chips" de memória continuam a ser uma indústria enteada para os europeus, como sublinha Heinz Esser, vice-presidente da Associação Silicon Saxony, a versão europeia do célebre cluster californiano de micro-electrónica, Silicon Valley.
"A começar pelas torradeiras praticamente já não há nenhum aparelho que não tenha um chip, mas só agora, com a falência da Qimonda, as pessoas estão a reparar nisso", explicou Esser à Lusa.
"Se a Qimonda desaparecer é uma catástrofe", adverte o mesmo especialista, que não se atreve a calcular quantos postos de trabalho desaparecerão também nas empresas fornecedoras que estão na órbita do fabricante de semi-condutores responsável por 8 por cento da produção mundial.
O problema é que as outras formas do ramo também atravessam dificuldades, o mercado de "chips" de memória está saturado, e em recessão desde 2007.
"Só em dois anos, sete dos oito maiores fabricantes tiveram prejuízos de 12 mil milhões de dólares", disse à Lusa Andrew Norwood, do Instituto Gartner de Pesquisa de Mercado.
A Qimonda não fugiu à regra, e ultimamente o prejuízo era superior ao volume de vendas, o que a levou a pedir financiamentos de centenas de milhares de euros à Saxónia, ao governo alemão, à casa-mãe, a Infineon e a Portugal, que tem entretanto na fábrica de Vila do Conde um dos maiores exportadores nacionais.
Apesar deste cenário, Johann Bartha, do Instituto de Pesquisa de Semi-condutores da Universidade de Dresden, advertiu para as consequências do desaparecimento desta indústria em toda a Europa comunitária.
"A Qimonda tem actualmente a tecnologia mais avançada neste domínio e se a deixarmos morrer renunciamos ao nosso conhecimento acumulado, e ficaremos dependentes de fornecedores estrangeiros", sublinha o professor universitário.
Manter o fabrico de semi-condutores na Europa, no entanto, não vai ser fácil, pelos menos nos moldes actuais, na opinião de numerosos especialistas, devido à tremenda concorrência de países como o Japão, Taiwan e a Coreia do Sul.
Na Ásia, esta indústria que invadiu o nosso dia-a-dia, e que vende "chips" a preços cada vez mais baixos, chega a ser subsidiada pelo Estado a 100 por cento, enquanto a União Europeia não admite apoios institucionais superiores a 27 por cento dos investimentos privados.
FA