FMI defende cortes salariais em Portugal a partir de "amostra deturpada"

FMI defende cortes salariais em Portugal a partir de "amostra deturpada"

O Fundo Monetário Internacional publicou um relatório com números dos cortes salariais em Portugal que são muito inferiores ao valor real, segundo a edição desta quarta-feira do Jornal de Negócios. O FMI revela que se baseou em números enviados pelo Governo português, mas que não os confirmou. O Executivo de Pedro Passos Coelho já reconheceu que os dados estão incompletos.

RTP / Adicionar como fonte informativa
O FMI, encabeçado por Christine Lagarde, tem conhecimento do erro, mas não pediu explicações Yuri Gripas, Reuters

Segundo escreve o Jornal de Negócios, “o FMI publicou gráficos para retratar a evolução dos salários em Portugal e defender a importância de mais cortes no sector privado que partem de uma amostra deturpada. Da base de dados usada foram eliminadas milhares de observações que davam conta de um aumento significativo do número de reduções salariais em Portugal no ano passado. Os resultados deste procedimento facilitam a argumentação a favor de mais flexibilidade laboral”.

No relatório da sétima avaliação da troika publicado em junho, a instituição encabeçada por Christine Lagarde concluiu que sete por cento dos trabalhadores inscritos na Segurança Social tiveram cortes salariais em 2012 e tem sido, com base nesses dados, que o FMI tem defendido mais reduções salariais.

O jornal acrescenta que, “na página 7 do documento, o Fundo apresenta um gráfico, para cada um dos anos, com o peso das variações salariais, entre menos cinco por cento e mais 20 por cento dos trabalhadores por conta de outrem com descontos para a Segurança Social. Em 2009 conclui-se que apenas quatro por cento dos contratos sofreram cortes salariais e que 19 por cento não registou qualquer atualização. Já em 2012, os congelamentos disparam para 45 por cento, mas só sete por cento dos contratos tiveram cortes nominais de salários”.

Um valor que o FMI considera reduzido e que fundamenta a importância dos cortes salariais.

“Até agora, os aumentos salariais para os contratos existentes no sector privado desaceleraram, mas permanecem positivos apesar do ambiente económico deprimido. Sem mais flexibilidade salarial, tal pode implicar mais destruição de empregos e menos rendimento”, acrescenta o Jornal de Negócios, que cita o documento do sétimo exame regular dos credores internacionais.
Folha de Excel com dados incorretos
Os dados que chegaram aos técnicos do FMI numa folha de Excel foi construída pelo Governo e debatida em reuniões com a troika. A informação que suporta a análise é retirada das bases de dados da Segurança Social, a partir das declarações de rendimentos dos trabalhadores por conta de outrem – incluindo remunerações do sector privado, mas também dos funcionários públicos com contrato individual de trabalho e os admitidos após 2006.

O Fundo revela, no sétimo relatório, que foi usada uma “amostra de cerca de 18000 empregados por conta de outrem em cada ano, os quais permanecem nos seus empregos e pagam Segurança Social”.

No entanto, o Jornal de Negócios acrescenta qua a “informação da folha de Excel enferma de vários problemas”.

“Das cerca de 18000 observações que pretendem retratar a totalidade da economia – e que o ficheiro usado concretiza em 18600 -, o gráfico de 2009 tem apenas 16200 observações, deixando 2300 dados de fora, ou seja 13 por cento da amostra. Em 2012, o corte é bem maior: escondidas ficaram mais de 4000 observações, quase um quarto da amostra”.

A confirmar-se esta informação, mais de 20 por cento dos trabalhadores por conta de outrem sofreram cortes salariais o ano passado, contra os sete por cento reportados pela instituição. A estes juntam-se os 45 por cento que enfrentaram uma estagnação salarial. O que representa que 65 por cento dos trabalhadores viram o seu salário manter-se ou diminuir.

O Executivo reconhece que não facultou todos os dados ao FMI e que não se pode comparar os dados de 2012 com os de anos anteriores porque no ano passado, segundo fonte do Ministério do Trabalho, os dados só têm em consideração remunerações base e os de 2011 têm salários e remunerações extra.

O Fundo Monetário Internacional tem conhecimento do erro. Mas não pediu explicações ao Governo.
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