Fundação Calouste Gulbenkian. "Golpe de sorte" de Portugal foi disputado com os Estados Unidos
A escolha de Portugal por Calouste Gulbenkian para instalar a sua fundação, nos anos 1950, foi "um dos mais extraordinários golpes de sorte" da história do país, disputado, entre outros, com os Estados Unidos, segundo o sociólogo António Barreto.
"A criação da Fundação Calouste Gulbenkian e tudo o que aconteceu à sua volta, o legado e o museu, foi certamente um dos momentos de mais sorte que Portugal teve no século XX", afirmou António Barreto em entrevista à agência Lusa, sublinhando que a decisão do magnata arménio não resultou apenas de fatores diplomáticos, mas de "um conjunto de circunstâncias" em que o país acabou por prevalecer sobre outros concorrentes.
Segundo o investigador, a escolha foi disputada por potências como os Estados Unidos, Reino Unido e França, tendo sido decisiva a perceção de que, em território norte-americano, a coleção privada seria apenas "mais uma", enquanto na Europa, e em particular em Portugal, se afirmaria como referência central. "Todos estes argumentos pesaram", sustentou, a propósito dos 70 anos de existência que a instituição celebra este ano.
Neste processo, António Barreto destacou o papel determinante de José de Azeredo Perdigão (1896--1993), advogado pessoal e homem de confiança de Gulbenkian, que ajudou a consolidar a decisão de fixar a fundação em Lisboa, num momento em que o colecionador hesitava entre diferentes destinos.
Calouste Sarkis Gulbenkian (1869--1955), filantropo e colecionador de arte de origem arménia, conhecido como o "Senhor Cinco por Cento" pela participação na indústria petrolífera mundial, chegou a Portugal durante a Segunda Guerra Mundial e acabou por deixar, em testamento, a sua fortuna para a criação de uma fundação dedicada às artes, ciência, educação e beneficência, com sede em Lisboa.
Para António Barreto, o impacto dessa decisão foi estrutural, sobretudo nas primeiras décadas de atividade da instituição, a partir de 1956, num país com carências profundas em vários domínios.
"Durante os primeiros 20 ou 30 anos, Portugal teria sido realmente diferente sem a Gulbenkian", afirma o coordenador e um dos principais autores da obra "Fundação Calouste Gulbenkian: Cinquenta Anos (1956-2006)", lançada para comemorar o cinquentenário da instituição.
O sociólogo considera que a fundação desempenhou, durante esse período, um papel equivalente ao de uma tutela do Governo, num contexto em que o Estado tinha uma intervenção limitada: "A Gulbenkian era o verdadeiro Ministério da Cultura, da Ciência e da Tecnologia em Portugal", sustenta, recordando um tempo em que o país era "muito pobre".
Esse papel manifestou-se de forma particularmente expressiva na atribuição de bolsas de estudo e investigação, tanto em Portugal como no estrangeiro, abrangendo áreas como a ciência, tecnologia, economia, ciências sociais e artes. Antes do 25 de Abril, estimou, cerca de 90% destas bolsas eram asseguradas pela Fundação.
"Um grande número dos melhores artistas, cientistas, engenheiros e médicos portugueses teve apoio da Gulbenkian para aceder a circuitos internacionais", afirma, acrescentando que, durante décadas, era difícil encontrar figuras de relevo nas suas áreas que não tivessem beneficiado desse apoio.
Contactada pela Lusa sobre o número de bolsas atribuídas pela Fundação desde a sua criação, fonte da instituição indicou que ascende a mais de 32.000, em todas as áreas, nomeadamente apoio social, as artes de palco, visuais, cinema, ciências, e humanidades.
Um debate recorrente sobre este tema prende-se com o destino dos bolseiros apoiados pela instituição. "Nunca houve obrigação de regressar", sublinhou Barreto, defendendo que a liberdade individual deve prevalecer. Ainda assim, destacou que "a esmagadora maioria" dos bolseiros regressou ao país, para trabalhar em universidades, hospitais, empresas e centros de investigação, com um impacto "muito forte" no desenvolvimento nacional.
Na área cultural, a intervenção foi igualmente determinante, vincou, com destaque para a música, o bailado e as artes plásticas, bem como para a criação do Museu Calouste Gulbenkian, que António Barreto considera "o melhor museu de Portugal, sem comparar com o Museu Nacional de Arte Antiga, que tem um acervo muito maior", sublinhando a sua relevância no panorama artístico nacional.
Inaugurado em 1969, o Museu Calouste Gulbenkian possui um acervo de mais de seis mil peças da coleção do fundador, que percorre cinco mil anos de História da Arte, inclui obras de mestres como Rembrandt, Rubens, Monet e uma coleção única de joias de René Lalique, juntando-se a essas mais de 12 mil da coleção de arte moderna, desde o início do século XX até à atualidade, com grande representação da produção artística portuguesa.
O sociólogo destaca também a ação de Azeredo Perdigão, primeiro presidente da fundação durante 37 anos, que geriu a instituição com "grande habilidade e cautela" no contexto do Estado Novo, mantendo uma relação equilibrada com o regime de António de Oliveira Salazar.
Apesar de não ser oposicionista, Perdigão "não simpatizava com Salazar" e procurava evitar conflitos diretos, numa época em que o Governo tentava exercer controlo sobre entidades privadas, incluindo a possibilidade de nomear administradores.
Nesse contexto, a fundação desenvolveu iniciativas que nem sempre eram bem vistas pelo regime, como as bibliotecas itinerantes - "uma iniciativa notável" na opinião do sociólogo -, ao mesmo tempo que apoiava projetos de utilidade pública, como a doação de ambulâncias, num "jogo de equilíbrios" que permitiu preservar a sua autonomia.
A partir dos anos 2000, com o reforço do financiamento público à ciência, nomeadamente através de fundos europeus canalizados pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, o peso relativo da Gulbenkian na atribuição de bolsas diminuiu, acompanhando a transformação do sistema científico nacional.
Ainda assim, António Barreto sublinha que o legado da fundação permanece central na história contemporânea portuguesa, resultado de uma decisão que, setenta anos depois, continua a ser vista como um momento decisivo.
"Foi um dos raros momentos em que Portugal teve sorte", conclui o responsável pela criação da Pordata - base de dados estatísticos sobre o Portugal contemporâneo -, lançada em 2010, sob a sua presidência na Fundação Francisco Manuel dos Santos.