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Gigantes tecnológicas convenceram UE a esconder emissões de centros de dados

Gigantes tecnológicas convenceram UE a esconder emissões de centros de dados

As emissões dos gigantes da tecnologia aumentaram exponencialmente com o crescimento da Inteligência Artificial (IA).

Mariana Ribeiro Soares - RTP /
Clodagh Kilcoyne - Reuters

Uma pesquisa da Investigate Europe revelou que a Microsoft e outras empresas de tecnologia americanas pressionaram, com sucesso, a UE a ocultar o impacto ambiental dos seus centros de dados.

A cláusula de sigilo, que a Comissão Europeia adicionou à sua proposta quase na íntegra após pressão da indústria em 2024, dificulta a análise da poluição emitida por cada centro de dados individual, permitindo apenas o acesso a resumos a nível nacional das suas pegadas energéticas.

Para os especialistas jurídicos, esta cláusula de confidencialidade pode violar as regras de transparência da UE e da Convenção de Aarhus, um tratado internacional sobre o acesso à informação ambiental.

A ascensão dos chatbots com inteligência artificial impulsionou a construção de armazéns de chips, com um grande consumo energético. Em 2025, um estudo mostrou que as emissões indiretas de carbono das operações de quatro das principais empresas de tecnologia com foco em IA aumentaram em média 150% de 2020-2023, devido à procura de centros de dados.

Os EUA e a China lideram esta corrida da IA, mas também a Europa está a construir centros de dados a um ritmo acelerado, com um investimento previsto de 176 mil milhões de euros nos próximos cinco anos. A construção tem gerado preocupações generalizadas sobre a poluição e o consumo intenso de energia, bem como os impactos sobre comunidades e habitats naturais.

Uma das tentativas de regulamentar o setor foi a revisão, em 2023, da Diretiva da UE sobre Eficiência Energética, que obriga os operadores a reportar os dados sobre indicadores-chave de desempenho, como o consumo de energia e de água.

Logo de seguida, a Comissão Europeia elaborou instruções mais detalhadas sobre as novas obrigações e no início de 2024, a Microsoft e a DigitalEurope (um grupo de lobby cujos membros incluem a Amazon, o Google e a Meta) sugeriram um novo artigo idêntico classificando todas as informações individuais sobre centros de dados como confidenciais, alegando interesse comercial. A proposta das tecnológicas foi incluída no texto final, publicado em março de 2024 pela Comissão Europeia.

O texto final do Artigo 5 do regulamento exige que “a Comissão e os Estados-Membros em causa mantenham confidenciais todas as informações e indicadores-chave de desempenho relativos a centros de dados individuais”.

“Essas informações serão consideradas confidenciais por afetarem os interesses comerciais dos operadores e proprietários de centros de dados”, acrescenta.

“O facto de a Comissão Europeia ter simplesmente copiado e colado uma emenda da Microsoft é chocante”, disse Bram Vranken, investigador da área para o Corporate Europe Observatory, uma ONG em Bruxelas. “Quem a Comissão realmente representa: as grandes empresas de tecnologia ou o interesse público?”, questiona. A inteligência artificial generativa aumentou drasticamente a necessidade de construção de centros de dados e estão a surgir dezenas de projetos por todos os Estados Unidos, tanto em áreas rurais como urbanas.

As empresas tecnológicas estão a construir centros de dados com as suas próprias centrais elétricas privadas, uma aposta que aumentará as emissões de carbono e outros tipos de poluição.

No Texas, foi aprovado o projeto GW Ranch, planeado para 2027, que ocupará mais de 30 milhões de metros quadrados. Será semelhante a outros centros de dados destinados a apoiar as ambições de Sillicon Valley em IA e estima-se que consumirá mais energia do que toda a cidade de Chicago.
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