Governo não vai salvar o Banco Privado Português
O ministro das Finanças considerou esta tarde que o BPP não tem suficiente peso público ou que represente risco sistémico que justifique envolver o dinheiro dos contribuintes portugueses num plano de recuperação do banco. A solução para os clientes do BPP poderá passar pela transferência dos títulos de retorno garantido para para uma nova entidade.
Nesta declaração aguardada há semanas pelos clientes de retorno absoluto do BPP e estrategicamente remetida pelo Governo para o período pós Eleições Europeias, o chefe das Finanças portuguesas veio hoje pôr por palavras aquilo que há muito se anunciava: o Estado não vai cobrir as garantias falhadas pelo BPP, ou seja, não vai garantir os depósitos daqueles clientes do banco privado.
O ministro das Finanças acrescentou ainda que "no âmbito da acção desenvolvida pela CMVM e pelo Banco de Portugal foram detectadas irregularidades graves que consubstanciam a prática de crimes no âmbito da actividade deste banco".
Actividades que "envolvem, nomeadamente, a realização de operações fictícias em prejuízo dos clientes e casos de falsificação contabilística", especificou Teixeira dos Santos.
Solução passa por transferência de títulos de retorno absoluto
De acordo com as explicações avançadas pelo responsável máximo das Finanças portuguesas, a solução passará numa primeira fase pela decisão do Governo de retirar os activos de retorno absoluto ao BPP, para os entregar depois a uma entidade constituída por outros bancos, que Teixeira dos Santos nega para já revelar.
Essa entidade será depois gerida por uma "instituição credível", passando a ter em carteira novos títulos que substituem os actuais títulos de retorno absoluto, avançou Fernando Teixeira, acrescentando que esses papéis serão transaccionáveis, remunerados e mobilizáveis para efeitos de liquidez.
A entidade responsável pela gestão dos títulos terá como proprietários bancos do sistema bancário nacional, sendo que "os principais bancos já fora contactados e mostraram disponibilidade para criarem esta entidade", adiantou o governante se avançar com nomes.
"Temos consciência de que os actuais títulos detidos pelos clientes dificilmente serão aceites no mercado e esta substituição dos actuais títulos pelos títulos emitidos por esta nova entidade permitirá desbloquear a situação", afirmou o ministro.
Por outro lado, a solução não passa pela garantia estatal sobre os títulos, quis sublinhar o ministro Teixeira dos Santos, que abordou ainda o tema "depósitos", garantindo que estes "estão protegidos nos termos da lei".
"Não me parece que seja justificável, não faz sentido que devam ser os contribuintes a substituir-se ao banco na responsabilidade que resulta da garantia dada", sublinhou, para acrescentar que "a boa gestão do dinheiro dos contribuintes, neste caso, aponta no sentido de não abdicarmos deste princípio: se a garantia foi dada pelo banco, essa é uma responsabilidade do banco e os clientes devem reclamar e exigir junto do banco o cumprimento da garantia que foi dada e não junto dos contribuintes portugueses".
"Dimensão do BPP não lhe confere relevância sistémica significativa"
Fazendo a análise do plano de recuperação e saneamento defendido pelo BPP, o governante explicou que o projecto sustenta a recapitalização do banco em cerca de 350 milhões de euros, fundos que seriam em parte injectados pelo Estado num custo para os cofres públicos entre 150 e 200 milhões, o que - defendeu Teixeira dos Santos - não é um projecto atractivo para os interesses públicos.
"Não nos parece que exista uma razão forte de interesse público que justifique o envolvimento do Estado num processo de capitalização" afirmou Teixeira dos Santos.
Para o governante, a proposta de viabilização apresentada pela administração de Adão da Fonseca "não se compagina com aquilo que a lei prevê em termos de recapitalização de instituições financeiras nem se compagina com as regras de concorrência adoptadas a nível europeu" e "não há um interesse público que justifique que o Estado invista neste banco".
Numa explicação que durou quase 20 minutos, Teixeira dos Santos considerou que "não é justificável que sejam os contribuintes a substituírem-se ao banco na garantia dada" aos clientes.
O ministro das Finanças, como já havia recomendado no encontro informal com um grupo de clientes frente ao Hotel Tivoli, em Lisboa, voltou a aconselhá-los a exigirem junto do banco essa garantia de retorno absoluto.
O ministro acrescentou ainda que a dimensão do BPP não lhe confere "relevância sistémica", pelo que não haverá risco de contaminações no sistema bancário a partir do caso do Banco Privado Português.